Título do livro: Dona Lola Autora: Maria José Dupré São Paulo: Saraiva, 1968 Correção da digitalização por Maurício Pióche Danderfer Zzz Capítulo 1 zzz MINHA amiga D. Genu apareceu um dia muito cedo, o rosto afogueado por causa do calor. Estávamos em fins de dezembro, o sol abrasava; foi me encontrar no tanque, lavando roupinhas das crianças. Levantei a cabeça e enxuguei o suor da testa ao ouvir a voz tão conhecida: - Passei pelo jardim e não vi ninguém. Como vai Isabel? E as crianças? Todos estão com saúde? Abraçamo-nos. Nem bem respondi, vi que o rosto da minha amiga se sombreava e, com a mão no meu ombro, baixou a voz: - Sabe quem está muito doente? Desta vez ela não escapa por causa da idade. Prudencinha. - D. Prudencinha? Estava tão forte a última vez que a visitamos... ora esta. - E a idade? Desta vez a coisa é séria. Como a senhora disse que queria ir comigo, passei por aqui. Ela saboreava a notícia. Meu pensamento voltou-se para a pensão de Irmãs, onde eu havia residido e os anos pareciam não correr para aquelas que lá moravam e rezavam na capela todas as manhãs. A multidão de velhas deixava os quartos e vagarosamente se encaminhava para o refeitório onde tomava café. D. Tututa, quinze anos mais moça que D. Prudencinha, que estava naquele tempo com oitenta e cinco primaveras, colocava cuidadosamente o guardanapo branco à volta do pescoço da irmã mais velha e dava um laço atrás. D. Prudencinha, cansada de tanta idade c tanta vida, tinha a cabeça um pouco fora do bar e derramava leite no vestido todos os dias; os braços reumáticos perdiam as forças e a irmã encostava-lhe a xícara à bôca e ela sorvia o leite fazendo ruído, como criança. Sua boca murcha, de lábios finos, chupava avidamente, depois mastigava torradas com manteiga mostrando as gengivas rosadas e rijas. Há três anos as duas irmãs viviam na pensão, a mais moça sempre vigiando a mais velha. Depois do café, as velhas empurravam as cadeiras para trás e, em grupos de quatro e cinco, dirigiam-se à capela e assistiam à Santa Missa. D. Prudencinha espantava moscas e olhava o padre com indiferença. Quando seu olhar encontrava outro, sorria sacudindo a cabeça, os olhos pequeninos e espertos. Depois da missa, as velhas fechavam-se nos quartos até a hora do almoço; arrumavam gavetas, costuravam, olhavam retratos. Algumas tinham correspondência e respondiam cartas, outras com o rosário nas mãos, continuavam a rezar para ganhar o céu e a cochilar nas cadeiras de balanço que rangiam suavemente. A paz era profunda como a do Senhor. Somente no jardim pássaros chilreavam e saltitavam no chão, na relva, nas árvores e na gruta tosca, sobre os ombros de Bernadette que, de joelhos, adorava a Virgem de fita azul na cintura. Quando a sineta tilintava para o almoço, as portas dos quartos se abriam e a multidão de velhas inundava os corredores, a escada, em busca do refeitório. Umas rescendiam a água-de-colônia, outras a brilhantina rançosa, outras a remédios ou a azedo. D. Tututa escoltava D. Prudencinha que andava o mais depressa que podia, pensando na comida. Tinha um apetite insaciável, repetia os pratos, reclamava quando a irmã negava-lhe qualquer coisa, batia os pés no chão, fazia cara de choro, os olhos lacrimejando. A boca não cessava de mastigar e quando via os pratos vazios à sua frente, parava um pouquinho, recostava-se na cadeira, largava o corpo e suspirava pensando na sobremesa e no café. Então D. Tututa limpava-lhe a boca com cuidado e ela tornava a sorrir e arrotava alto, seguindo com olhos de gula a goiabada e o queijo que a empregada depositava na mesa. Terminando o almoço, as velhas seguiam pelo corredor a fora na direção dos quartos; algumas conversavam na salinha falando mal da pensão, outras faziam tricô, outras saíam a passeio, outras ainda rezavam e cochilavam, o rosário entre os dedos frágeis. Lá fora os dias eram bonitos ou feios, havia guerras ou não havia; para as velhas, eram sempre iguais. Docemente esperavam a Morte. E todas as tardes, uma andorinha descansava sobre a cabeça de Bernadette e, enquanto alisava as penas, soltava queixumes trêmulos. Troquei de sapatos e vesti meu costume preto e surrado para acompanhar minha amiga. Fomos depressa. D. Prudencinha, que apesar da idade era a mais forte das velhas, agora estava com pneumonia. D. Genu arquejava de calor e dos quarteirões que tínhamos de vencer antes de chegar à pensão. - Velha com pneumonia é a morte, explicava minha amiga. Ontem telefonei para saber, estava com quarenta de febre. Desta vez não escapa. Eu duvidava. Falava na saúde de D. Prudencinha, lembrava que no último Natal todas as velhas haviam tido indigestão e D-. Prudencinha que comera, no almoço, metade de um pato recheado e meia travessa de castanhas, nada tivera. - Se não fosse o reumatismo nos braços... - Mas agora é pneumonia, teimou minha amiga, esbaforida e suarenta. Acha que uma pessoa com a idade dela pode escapar dessa doença? A senhora vai ver, o caso é gravíssimo. E andava mais depressa, com medo que a doente escapasse. Olhei o rosto gordo e suado de D. Genu. Irradiava contentamento. Lembrei-me de que anos atrás, quando c ramos vizinhas, eu descobrira com surpresa que ela gostava dos mortos. Farejava de longe quando alguém da vizinhança, fosse quem fosse, estava para morrer. Apresentava-se, sorrateira, na casa do doente e com palavras ternas de consolo, voz compungida, preparava-se para passar as noites. Já levava de prevenção, na grande bolsa de couro, pente, escova, às vezes uma blusa para trocar. Prestava serviços inestimáveis, quase alegre; quando o doente morria, com que presteza ela lidava com o cadáver, com que facilidade e habilidade cia o lavava e o vestia, e punha-lhe flores no peito, penteava-lhe os cabelos com carinho, lembrava detalhes que os parentes tinham esquecido, tomava conta da cozinha, preparava xícaras de café em bandejas que descobria na despensa, ordenava canja para os que passavam a noite. Solícita, maternal, incansável. Se o morto era moça, passava-lhe levemente baton nos lábios, arrumava com cuidado os cabelos, enfeitava-os. De quando em quando espevitava as velas, tirava o espermacete, acariciava a cabeça do defunto. Tornava a arrumar as flores, e no seu passo cadenciado, ia para os fundos da casa, cochichava com um, falava com outro, voltava, dona de tudo. Continuamos a andar, a pensão estava perto. D. Genu deu uma palmadinha na bolsa: - Trago aqui as coisas para passar a noite. Creio que ela não amanhece, sou muito prevenida. Entramos. O silêncio era maior na pensão; quando nossos passos ressoaram no corredor, as cabeças das velhas surgiram nos vãos de todas as portas, assustadas e atormentadas A morte rondava. D. Genu empurrou com decisão a porta, pôs a cabeça dentro do quarto, espiou, escutou. Um bafo quente de bolor e de urina espalhou-se no corredor, onde duas ou três velhas haviam nos seguido e esperavam rentes à parede, cheias de curiosidade. Uma Irmã de touca branca e rosto ainda mais branco apareceu e nos olhou calmamente, respondendo ao olhar interrogativo de minha amiga. - Está melhor. A febre baixou esta madrugada. O rosto de D. Genu escureceu de sombras: - Será possível? Eu telefonei ontem à noite, disseram que ela estava com quarenta graus de febre, mais de quarenta, estava desenganada... D. Tututa convidou-nos para entrar e ver O doente D. Genu foi a primeira; dirigiu-se ao leito, colocou a mão aberta na testa de D. Prudencinha. Voltou-se, desapontada - Então ela melhorou? Que coisa! Em cochichos, D. Tututa explicou-nos que sim, O médico havia saído há meia hora, a pneumonia estava cedendo, O organismo da enferma era resistente, ela reagia. Havia esperança. Desanimada, minha amiga depositou com impaciência a bolsa na mesinha coberta de remédios, sentou-se numa cadeira ao lado da cama e esperou. - Ora esta. Ainda no caminho vim dizendo para D. Lola que desta vez seria difícil Prudencinha escapar Com a idade que tem... - Ela foi sempre muito forte, sussurrou D. Tututa. - Mas com a idade que tem... Ela não está com quase noventa? É incrível, nunca vi isso. Qualquer outra esticava.. Lembrando que suas palavras não eram muito consoladoras, corrigiu: - Graças a Deus... No íntimo disfarçava a revolta, fora frustada desta vez. Conversamos em voz baixa no meio do quarto; quando a doente fazia um movimento ou gemia D. Genu se debruçava com solucitude, observava, escutava, passava a mão na sua testa, pegava-lhe O pulso, admirada de haver-se enganado. Uma hora depois, D. Prudencinha mexeu-se, abriu os olhos, pediu um prato de canja. D. Tututa deixou O quarto para encomendar a canja. D. Genu voltou-se para mim, indignada: - Já viu que coisa? Pensei que não passasse de hoje; ainda vai sarar imagine, está pedindo comida. Velha danada. Quando saímos, as velhas espreitavam nos vãos das portas, pediam notícias satisfeitas quando souberam da melhora. - Prudencinha ainda vai enterrar estas corriqueiras sussurrou-me a amiga. Velha dura como O diabo. Para mim, a morte esqueceu-se dela... Uma semana mais tarde, O filho menor de Isabel caiu doente. Isabel dava-lhe colherinhas de leite, mas ele recusava; apertava os lábios e empurrava a colher com as mãozinhas indecisas, quase sem forças. Ela se desesperava inclinava a cabeça despenteada, suplicava com voz chorosa: "Tome um pouquinho, meu filho, um pouquinho só". Era quase noite, a lâmpada da cozinha era pequena, e a luz tão fraca que mal se distinguiam os objetos; O fogo alegre e brincalhão dava estalinhos secos. Ouvi passos cautelosos na calçadinha que circundava a casa, ele vinha sempre assim, silencioso, como quem quer surpreender, descobrir coisas erradas. Isabel estava na cozinha com Zezinho no colo, os filhos mais velhos no quarto. Os passos cessaram na porta da cozinha e antes de tirar O chapéu ou dizer boa noite, perguntou: - Está melhor? Ela sacudiu a cabeça, hesitante: - Parece que tinha melhorado, agora não quer nada e O leite que lhe ponho na boca volta. Tem muita febre Felício aproximou-se e colocou a palma da mão direita na testa da criança; ficaram os dois atentos perscrutando O rosto do filho. - O médico vai voltar às oito horas. Somente O rumor do vento em volta da casa, como que assobiando. Dirigiram-se para O quarto, ela carregando O menino. Falei em voz baixa que a sopa estava pronta não seria melhor jantar? Tomar a sopa, ao menos? Não responderam. As três crianças que estavam no quarto vieram em silêncio, sentaram-se à mesa da cozinha; cortei O pão era pedaços pequenos. Ninguém falava. Fui ver se precisavam de mim. O quarto de.Isabel e Felício dava para a sala de jantar empurrei a porta; Zezinho estava agora no colo do pai, virando a cabecinha de um lado para outro, dando gemidos suaves. Isabel ia e vinha guardando roupas esparsas, enfileirando vidrinhos de remédio na cômoda Do canto sobre a mesinha da cabeceira, vinha uma luz mortiça, azulada Ela esticou a colcha, pôs os travesseiros no lugar depois de sacudi-los, ajuntou xícaras e pratos usados, levou-os para a sala. - Vão tomar um pouco de sopa, eu fico aqui com O menino. Ela voltou, dobrou a toalha de banho, depois ficou de pé na frente do marido, olhando a criança. Insisti que ela precisava alimentar-se, comer um pouco, ainda mais no estado em que estava. Ela continuou de pé, sem responder. A cabeça de Zezinho era como uma bola, virava para a direita, voltava para a esquerda, como à procura de alguma coisa. Pensei no arlequim. Da sua boca pequena saíam queixumes suaves, as faces vermelhas de febre. - Não quero jantar, não quero nada, A voz de Isabel era dura, revoltada. Voltei para a cozinha onde os meninos estavam lavando os pratos e Sílvia enxugando. Ela me perguntou fixando-me os grandes olhos castanhos: Ele está melhor, vovó? - Parece que agora está melhor, creio que vai sarar. As crianças foram dormir, sentei-me ao lado do fogão e esperei esperei alguma coisa e ouvi O assobio do vento A noite foi longa e incerta De duas em duas horas, Felicio ou Isabel vinham aquecer-se perto do fogo e tomar um pouco de café. Eu perguntava do menino, eles sacudiam os ombros, parecia melhor, não sabiam. Ninguém sabia se nosso Zezinho ia sarar ou morrer. Já madrugada, quando a luz do dia entrava frouxamente pela vidraça e minha cabeça pendia para O peito num cansaço imenso, Felício apareceu novamente e disse que O menino estava melhor O médico tinha esperança. Fui ver. Zezinho dormia um sono agitado sobre O braço de Isabel que cochilava, esgotada de fadiga. - Então nosso Zezinho está melhor? Esta reagindo? Com muito cuidado, ela foi retirando O braço e disse que tomaria uma xícara de café tinha os pés tão frios. O médico veio mais duas vezes esse dia. Foi numa tarde de inverno fria e escura, a chuva caía fininha, fininha, e as folhas das árvores, dobradas parado chão pareciam chorar. Os olhos dele foram se fechando devagarinho e a cabeça que parecia uma bola, cessou de rolar. Isabel me olhou atemorizada deu um grito: - Mamãe, êle morreu. A mão que eu guardava foi esfriando, esfriando Como um passarinho. A casa ficou vazia. Sílvia, Carlos e Eduardo os irmãos mais velhos, pensavam que no mundo só havia brinquedos, pular com uma perna só, bonecas, brincar de esconde-esconde; ficaram de repente sérios, olhos fundos faces alongadas, bocas trêmulas, olhando O caixãozinho azul que ia indo pela rua a fora. A vida ensinou-os num instante que além de tudo O que eles conheciam, havia dor também, uma dor funda que aperta os corações, que esmaga. Os vestígios de Zezinho ficaram, pedaços dele em todos os recantos da casa: um bico de mamadeira, uma pagina de revista arrancada com força, peças de roupa, O babador no qual Isabel havia bordado com linha vermelha José Felicio", e por fim, encontrei, numa gaveta, uma receita de sopinha de legumes Isabel parecia uma estátua, não chorava e não talava. Sentada na cadeira da sala, ficava horas inteiras olhando O chão, parada e muda. Eu passava a mão na sua cabeça, procurava conversar, falava dos outros filhos. - Sílvia vive falando que quer estudar piano, não sei onde essa menina viu piano, só fala nisso. "Ih, vovó, se eu tivesse um piano." Tem músico na família, olhe O tio Damião como toca bem, até escreve música; ela tem por quem puxar, agora só fala nisso. Mania. Um dia, ela apenas me perguntou com voz seca, olhar duro. - Lembra quando êle batia palminha? Eu ainda via Isabel dançando diante dele com O prato de mingau nas mãos dizendo: "Bata palminha pra mamãe. Onde está O filhinho da mamãe?" E O riso de gengivas vermelhas escancarando a boca, O agitar enérgico de braços exigindo a sopa, os gritos, as mãos rechonchudas, como não havia de lembrar? Isabel não chorava; os olhos secos, as mãos cruzadas sobre O ventre, fixava O chão numa obstinação doentia. Dias passaram depois da morte do menino e ela com olhos parados, não falava, não chorava. Os mais velhos olhavam aquela mãe tão estranha, Felício ia para O quintal, sentava-se com a cabeça entre as mãos. E Isabel? Continuava imóvel, recusava os alimentos e só aceitava água que tomava aos copos como se nunca pudesse extinguir aquela sede que a devorava. Carlos veio do quintal uma tarde, com um boneco quebrado entre as mãos, era O boneco que Zezinho abraçava todas as noites ao dormir. Colocou O brinquedo sobre a mesa; pôs-se a examiná-lo. Nesse instante Isabel levantou a cabeça e olhou O boneco. Fitou-o intensamente durante alguns minutos, depois fêz um gesto como se quisesse pegá-lo; de repente, as lágrimas correram-lhe pelas faces e ela começou aos gritos: "Meu filhinho, meu querido filhinho." Era um boneco à-toa, um arlequim desengonçado, de pernas tortas, mas cresceu, dominou, encheu a casa e foi colocado no quarto do casal, sobre a cômoda, como se fosse a imagem do Menino Jesus. Foi por isso que deixei a pensão de Irmãs onde morei durante anos, por causa do Zezinho. A casa parecia vazia sem êle, mas Isabel esperava outro filho. Felício passou dias e dias de cara enfarruscada, de mal com O mundo Não saiu do quarto, nem falou com ninguém. Quando eu chamava de manso, com cuidado: - Felício, venha jantar. - Não quero. A voz vinha do fundo do quarto, zangada. Um dos filhos perguntava com medo: - Papai não vem almoçar? - Não. - O café está tia mesa, Felício. - Não quero café. - Quer chá? - Não. - Quer beber alguma coisa? Não. Era um não seco, áspero, atirado longe como uma pedra para acertar. Êle parecia um menino brincando sem vontade, perguntando e respondendo zangado: - Onde está O fogo? - Água apagou. - Onde está a água? - Boi bebeu. - Onde está O boi? - Amassando trigo. Êle queria Zezinho, mas Zezinho fora embora num caixão azul enfeitado de ouro, amôres-perfeitos amontoados no peito, margaridas nas mãos, rosinhas nos pés. Tão bonito. Como um anjo a quem só faltassem asas; com certeza arranjou-as no caminho para alcançar mais depressa O reino dos Céus. Anjinho. As últimas dores já não me marcavam, eram como água deslizando sobre pedra. Não penetravam. Eu mè lembro de Isabel quando era solteira e ia dou bailes de vestido branco, fita nos cabelos. Nesse tempo era linda e leve, leve de corpo, leve de dores Durante todos esses anos de casada, quando vieram os filhos e os trabalhos, esperei que de seus lábios viesse um queixume ou um pedido de conselho, ou uma palavra de arrependimento Nada. E mesmo quando sofreu sua mais funda dor, seus lábios continuaram mudos. Ela passava e tornava a passar na porta do meu quarto, pesada e silenciosa; ia à cozinha buscar alguma coisa. As crianças brincavam no quintal sem barulho quando O pai estava em casa a ordem era - silêncio. Ela arrastava os pés inchados, despenteada, O rosto manchado de amarelo; tornava a passar, a testa cheia de rugas. - Quer que eu faça café, Isabel? A água está fervendo. Ela ficava por ali suspirando, apoiando-se à mesa da cozinha, olhando através da vidraça os filhos sob a ameixeira. As crianças preparavam-se para a escola. Eduardo era O mais velho, filho da primeira mulher de Felício. Tristonho e retraído, visitava a mãe uma vez por semana, aos sábados. Voltava comum pacote de doces e com os olhos vermelhos. Não sei O que Felício fêz para tirá-lo da companhia da mãe; Isabel apenas me anunciou um dia: - O filho de Felício vem morar aqui. Veio um menino magro, de olhar medroso, rosto cheio de sardas, feio. Saía aos sábados e voltava tarde, devagar, delongando O momento de entrar. Trocava de roupa e sem dizer palavra, procurava os irmãos no quintal. Tinha doze anos Carlos e Sílvia eram os de Isabel, alguns anos mais moços. Os três pareciam quietos e retraídos, só perdiam a timidez quando O pai se ausentava. Haviam residido no bairro do Cambuci, numa rua perdida no emaranhado de outras ruas, depois mudaram-se para outra casa no mesmo bairro, quase no descampado, numa rua tortuosa, cheia de capim, onde eu viera também residir. Eu costurava e ouvia O silêncio durante as horas em que os meninos estavam na escola Isabel e eu nos alternávamos nos serviços da casa, raramente saíamos; Felício trazia todas as noites pacotes de mantimentos que esparramava na mesa da cozinha, silencioso Jantávamos nessa mesma mesa e muitas vezes somente O ruído dos pratos e talheres era ouvido na casa. Estávamos em agosto, fazia um mês que Zezinho se fôra. Felício passou dias sem falar, sombrio, esbravejando por qualquer coisa, batendo portas, carrancudo. Um dia ouvi Isabel perguntar se já avisara D. Venuta; respondeu de mau humor, virou as costas, a porta estalou com O baque Uma semana depois, Felício veio ao meu quarto pedir para eu ficar com Isabel enquanto ia buscar a parteira. Estava chovendo e fazia frio. Isabel começou a gemer e a perguntar as horas, como se assim O tempo passasse mais depressa E êle pôs-se a correr de um lado para O outro, agitado; sempre auxiliava os partos da mulher, dizia que estudara medicina durante dois anos e não havia necessidade de médico. O fogo de lenha crepitava no fogão fui ficando aflita, tudo podia acontecer naquele ermo, sem telefone, sem comunicação. A água estava fervendo quando êle voltou com D. Venuta. Era uma mulher alta e forte, de braços robustos, seios grandes. Foi entrando e dizendo que tomaria vinho, com aquele frio que penetrava até os ossos. Felício trouxe a garrafa e dois copos; beberam depressa enquanto Isabel gemia no quarto, apertando a boca no travesseiro. D. Venuta tirou O casaco, arregaçou as mangas, resoluta; estalou a língua O vinho reconfortava e por que Isabel inventara de ter criança numa noite daquelas? Sua voz era forte e grossa. A que horas rompera a bolsa de águas? As roupas estão passadas? A água fervendo? Por que não dão água com açúcar para aquela chorona? Parecia mais alta, os braços nus musculosos, andando de um lado para outro, fazendo perguntas seguidas. Era um vozeirão grosso, de gigante. Forte como um homem, ossuda, peituda, O lábio superior coberto de pêlos escuros. Falou alto para Isabel ouvir: - Quem precisa hoje da Benevenuta? Quem vai pôr criança no mundo nesta noite gelada? Ria com estrondo e socava O peito: - Benevenuta. Benevenuta. No quarto baixou O tom de voz: - Vamos ver esta menina, vamos ver como vai isto. Fecharam-se. Fui para a cozinha, comecei a tremer. Ouvia a voz de D. Venuta ordenando que gritasse, agarrasse a grade da cama, fizesse força. Força. Isso mesmo. Sílvia apareceu estremunhada na cozinha, ouvira gritos. Vá dormir, volte para O quarto, durma. Crianças precisam dormir. Eu destampava a chaleira, andava, espiava a água, atiçava O fogo, mais lenha no fogão. Lavava as pontas dos dedos, enxugava-os, crianças precisam dormir. Ouvira gritos, mentira Por que vinha com aquele rosto pálido, tremendo de frio, espiar a cozinha? Segure a grade da cama, faça força, assim, grite, grite. Eu girava, via as panelas dependuradas, arrumava uma, passava a mão na outra, destampava a chaleira outra vez. A água palpitava, pulava. Gotas caíam na chapa, chiavam. Onde estavam as roupas passadas a ferro? Mostraria com a mão, ali. Zezinho morrera, outro Zezinho ia nascer. A tampa da chaleira saltava; espiei outra vez, enchi outrí panela de água, coloquei-a sobre O fogão. Gemidos. Sozinha, esperei O dia amanhecer, um dia chuvoso, O vento a sacudir as folhas das árvores. Eu perguntava se precisavam de mim, dos meus serviços, das minhas mãos que tanto já haviam trabalhado, não, não, a voz de D. Venuta era um trovão. E minhas mãos inúteis e os gemidos de Isabel a me torturarem e eu me lembrava de quando ela era mocinha, fita nos cabelos e vestido branco, longe de toda aquela miséria, toda aquela dor, a dançar, a girar, a rir. Fiquei olhando as minhas mãos inúteis e falando em voz alta como se alguém.estivesse ali e me ouvisse; falava para as panelas dependuradas para a água fervendo, para O dia que vinha surgindo. Por que tanto sofrimento? Que mocinha feliz ela fora, dançando como uma flor! Agora estava estendida naquele leito. Ruptura da bolsa, faça força, grite, segure a grade da cama, tome água com açúcar, isso mesmo. E com aquele marido... Eu batia no parapeito da janela e repetia as palavras esperando a manhã. Isabel gritava de dor, O vento urrava lá fora, eu escutava atrás da porta e mordia minhas mãos inúteis Passaram as horas da manhã de agosto eu a dizer que Zezinho viera ao mundo com sofrimento, depois morrera e antes morrer do que viver naquela casa onde quase não havia alegria. Ninguém podia ser alegre e viver sob O mesmo teto que Felício; tinha um gênio tão incompreensível, tão sombrio. Batia nos filhos, sacudia as portas com tanta força que a casa parecia estremecer. Nesse tumulto de pensamentos, vi Felício sair do quarto e ir fumar um charuto no terraço voltou dizendo que estava ventando, eu disse que lá ventava sempre, como ela ia passando, não seria melhor chamar um médico? Na mesma. Não, não para que médico? Essas coisas são assim mesmo. Sentou-se na cadeira que ocupava sempre para ler jornais e fumou serenamente O charuto, presente de D. Augusta. Por que a dor não cessava? Não acabava de uma vez? Na mesma. Tapei os ouvidos, grite, grite Percebi vaivém, movimento, passos apressados, batidas de portas, a voz de D. Venuta como um trovão a rolar. Onde estão as roupas? Corri, os gemidos cessaram, foram se encolhendo, amortecendo. Choro de criancinha. A parteira passou nos seus passos de gigante, voltou, quebrou ampolas, injeções, a menina é uma beleza. Menina? O fio de linha para O umbigo onde está As roupas? A placenta saiu. As roupas estão aqui. Pode entrar, minha mãe. Êle está radiante, me chamou de minha mãe. Lembrei de uma antiga vizinha que dizia - muito radiante. D. Venuta lidava com Isabel, parecia um açougueiro gordo. A criancinha chorava, toda vermelha. Comecei a rir, a princípio baixinho, devagarinho, disfaçando; depois O riso foi aumentando, foi sacudindo meus ombros, todo meu corpo. A criancinha berrava que era um gosto, senti alívio, toda a aflição se desvaneceu, só queria rir, até dar gargalhadas. Isabel tinha um ar cansado, sorriu de leve: - Mamãe viu a menina? Fui preparar a mesa do café, O corpo todo tomado de riso, de felicidade. A chuva caía mansinha, gelada, batia na vidraça com cuidado, não queria fazer barulho. D. Venuta começou a contar casos, falando alto, a boca cheia de pão e queijo, Isabel fora feliz, a criança era formidável. Dias antes assistira a um parto, aquilo que fora parto, O de Isabel não fora nada, brincadeira. A tal mulher berrava noite e dia que nem bicho, nada se resolvia; no fim - cesariana. - Mais um pouco de café, faça O favor. Sim senhora, cesariana ali no duro. Boca cheia, pão e queijo, mastigou forte, O marido da tal quase morrera de susto. Começou a rir, seu peito tremia com as risadas. Ah, ah, ah. Me deu com O cotovelo: - Está louca de alegria com a netinha e está disfarçando, não é? Pensa que me engana? Ri e fiquei engasgada, ela me socou as costas - Olha a avó como está orgulhosa, até teve engasgos. Sua risada ressoava pela casa, rimos juntas enquanto ela esmurrava minhas costas. Meus olhos pareciam querer saltar das órbitas. Que mulher! As crianças apareceram assustadas, olhos grandes de medo. O pai disse: - Nasceu mais uma irmãzinha, agora está dormindo, depois vocês vão ver. Ficaram olhando O pai; Carlos perguntou O nome, O pai disse que eles iam escolher, fossem pensando. Olharam-se e sorriram. D. Venuta preparou-se para sair, tudo correra às mil maravilhas, voltaria mais tarde. Deu piparotes nas cabeças das crianças, fêz recomendações, adeus foi embora. Parecia dar socos onde passava, bigoduda, mulherão. Fui espiar a criancinha ao lado de Isabel tinha O rosto sereno e dormia. Isabel também parecia dormir, uma expressão desolada de grande desânimo. Onde estava aquela morinha de fita nos cabelos e vestido branco que girava na sala e fazia caretas para os irmãos? zzz Capítulo II Zzz Com a guerra e O racionamento, a vida foi ficando difícil; era como um círculo que nos fosse apertando, até nos sufocar. Eu saía às seis horas da manhã para ir à fila de carne e de pão, depois comecei a sair às cinco, depois às quatro da madrugada. Muitas vezes Felício me acompanhava às duas horas, noite fechada, até à porta do açougue, onde eu esperava minha vez. E quantos dias voltava sem trazer nada porque O açougueiro anunciava da porta, sob a luz mortiça, O avental manchado de sangue: "Não há mais carne." Ou então era O padeiro que dispersava as filas: "Acabou-se O pão." As crianças tomavam café com polenta de manhã; O leite era cada vez mais difícil, dávamos leite condensado, quando havia. Mas quando pensávamos que, na Europa, os povos sofriam fome e bombardeios, sentíamos certo alívio pensando que no Brasil não havia uma coisa nem outra; é verdade que tudo era difícil e nem sempre havia O que comer; mas havia substitutos, mandioca ou polenta em vez de pão. A menina ficou se chamando Maria Helena, mas nós dizíamos apenas Lena. Os padrinhos que haviam batizado Sílvia, batizaram Lena num sábado à tarde. As crianças vestiram as melhores roupas, a casa foi encerada, a madrinha mandou um vestido de renda e Lena ficou muito bonitinha, rostinho redondo e corado. Fiquei preparando a mesa do lanche para quando voltassem; Felício estava muito satisfeito porque quando perguntei se podia servir, respondeu gentilmente: - Quando quiser, minha mãe. Mais tarde, lembrou a Isabel, solícito: - Não está na hora de dar de mamar, meu bem? Os padrinhos sorriam: as crianças, que haviam se reunido aos filhos dos padrinhos, brincavam à volta da casa. Na mesa da sala, os adultos tomavam cerveja, faziam brindes com vinho do Porto Isabel veio do quarto com a criança; debruçaram-se sobre O rosto de Lena e discutiram a côr dos olhos. Felício lembrou O batizado de Sílvia, fora no mesmo mês, num dia assim, há muitos anos Riram com a recordação, Sílvia havia chorado tanto. Falaram sobre O batizado de outras crianças, comentaram outros fatos; falaram do tempo, das chuvas que estavam atrasadas, da guerra. Depois da partida dos padrinhos, Isabel avisou que não havia mais açúcar em casa, a cota dava mal e, com O lanche do batizado, se acabara Felício impacientou-se, por que não avisou antes? Agora que acabou é que vem me avisar, eu poderia ter arranjado um pouco com D. Augusta Que posso fazer agora? Ficou furioso de repente: - Faz doces, bolos, balas, depois vem me avisar:. - Acabou O açúcar. Afinava a voz para imitar a de Isabel: - Acabou O açúcar. E depois de uma pausa: - Bolas! Ela procurou explicar... Êle pôs O chapéu na cabeça e saiu batendo a porta; ela parou no meio da frase. Carregou Lena e foi para O quarto. Os meninos me auxiliaram a tirar a mesa e a pôr ordem na sala. As crianças torciam O nariz diante das xícaras: - Café com rapadura? Deus me livre, - É só enquanto não temos açúcar... Ninguém queria tomar café. Dias depois Felício apareceu com um saco misterioso numa carrocinha, falou cochichando: - Arranjei com um amigo. Era açúcar do mais branco e fino. Foi escondido no guarda-roupa de Isabel, coberto com roupas brancas, como se fosse ouro. Ela tirava todos os dias um pouco, com parcimônia. O saco foi murchando; as crianças pediam um pouco de doce, só um pouquinho, vovó. Eram crianças, coitadas, queriam adoçar a boca. Chegou O dia de café com rapadura outra vez, fizeram caretas, Isabel teve dor de cabeça. Comprei açúcar preto, os meninos cuspiam, servíamos leite condensado quando podíamos, ficava caro. Um domingo, os padrinhos vieram para uma visita, trouxeram dois quilos preciosos; sentaram-se na sala, entregaram O pacote com cuidado. - Desta vez vou esconder, disse Isabel. As visitas acharam Lena crescida, discutiram política com Felício. O padrinho e Felício acabaram tirando os paletós, experimentando forças, os braços nus sobre a mesa da sala. Isabel e a madrinha sorriam polidamente, sem assunto. As crianças ficavam excitadas depois de ver a luta dos pais brincavam com brutalidade, um atirava O outro no chão; queriam também medir forças. Felício vencia quase sempre; ficava suando, todo sorrisos, amável para com todos. Depois acompanhou as visitas até O ônibus, convidou-as a voltarem, amável. Às vezes, ficava fechado no quarto lendo revistas, ou então ia passear no campo longe de casa, e os padrinhos ficavam esperando até êle voltar da cidade. Isabel inventava mentiras. Êle aparecia depois da partida das visitas, quando a casa estava novamente em silêncio. A madrinha me perguntava às vezes, delicada, um ar caridoso: - Teve notícias de seu filho que está na guerra? As crianças conversavam muitas vezes: - Quando tio Alfredo voltar... Eu me lembrava dele na última visita, a sala impregnada de fumo do cachimbo, dizendo que ia para longe, muito longe. China Índia? Para O fim do mundo? Sentia seus braços rodearem meus ombros e seu sorriso: "Então D. Lola?" Êle vai voltar e vai pôr as mãos sobre meus ombros novamente. A sós no quarto, perto da janela, eu abria a ultima carta que recebera de Alfredo, alisava-a, e depois de colocar os óculos e me sentar comodamente, lia outra vez: Mamãe: "Estou no Pacífico Sul desde 5 deste mês (Onde será O Pacífico Sul eu pensava) Se algum dia eu disse que a vida era dura para mim, menti, porque foi um mar de rosas. Rosas como as do nosso jardinzinho..." (eu achava graça e ria). Mais adiante: "Estamos nas Ilhas Salomão..." Depois: "Tomamos O aeródromo de Cucun na ilha de Guadakanal e vamos avançar agora na base nipônica de Tulagi." Depois contava que tinha tomado Gavatu e Macambo em dois dias e eu pensava: "Dois dias só, que maravilha!" Terminava a carta assim: "depois desta guerra O mundo vai mudar, sempre para melhor. Muita coisa cairá mas nossa idéia ficará de pé. Felicidades a todos." Alfredo. Pensando bem, eu achava O mundo cada vez pior onde estava O "sempre para melhor?" Vida cara, racionamento dificuldades inúmeras. Quem sabe não melhorou ainda porque a guerra não acabou, vamos ver quando estiver terminada, pensei. Logo depois de recebida esta carta, comprei um mapa do Pacífico Sul. Entrei numa loja e perguntei se vendiam mapas da guerra; O moço respondeu que havia muitos mapas e me mostrou alguns,, eu falei que queria um do Pacífico Sul e êle trouxe um onde estava escrito em letras enormes Oceania. "Mas eu quero um do Pacífico Sul, teimei. Um que tenha a Austrália também." "Está aqui a Austrália" disse O moço mostrando com a ponta da unha uma mancha no papel. "Mas eu queria um mapa grande só da Austrália, queria saber onde estão as Ilhas Salomão." O moço começou a procurar e eu auxiliei-o; encontramos as ilhas. E eu disse que queria saber onde estava a de Guadakanal. Essa foi difícil de ser encontrada, era tão pequenina, eu mal enxergava. Fiquei contentíssima. "E onde será Tulagi?" perguntei. "O que é isso? É ilha?" "Não, é uma base nipônica. De Tulagi." "Mas pode ser que seja numa ilha," êle disse. "Ah, isso pode." Procuramos e não encontramos. "E Gavatu e Macambo?" O moço me olhou muito admirado e perguntou se eram ilhas também. "Não sei, respondi, só sei que são lugares da Austrália." Êle procurou novamente, cheio de paciência, não encontrou. Comprei assim mesmo O mapa, só porque estavam lá as Ilhas Salomão. Os netos pregaram-no na parede do meu quarto, com tachinhas, e tenho-o aqui diante de mim. Começo então a imaginar que Alfredo já voltou e vive conosco; senta-se na mesa para as refeições, brinca com os sobrinhos, auxilia-os a fazer problemas. Ouço seu riso alegre, vejo seu rosto bonito, sinto O cheiro do fumo do cachimbo. Leva as crianças para Santos aos domingos, pergunta "Quem quer ver O mar?" "Tio Alfredo vai nos levar a Santos vamos brincar na praia." Voltam cansados, vêm me contar que tio Alfredo ensinou-os a nadar. "Vovó, êle nada como um peixe." "Êle foi marinheiro." O sol aparece por trás da serra, sol de dezembro, a terra queima, as crianças brincam de pegador. Os balões de S. João sobem para O céu nas noites de junho os de S. Pedro desaparecem na noite. D. Genu vem cheia de alvoroço, perguntar por Alfredo: "Como foi de guerra? Não sofreu nada?" "Nada extraordinário, um dia um tiro passou rente da cabeça, mas não O atingiu por causa do capacete de aço, bons capacetes, não acha? Outra vez machucou a perna e mancou uns dias, nada grave." "Nem com os bombardeios não sofreu?" ela tornava a perguntar. "Nada absolutamente." D. Genu suspirava e dizia: "Louvado seja Deus, que felicidade. E falaram tanta coisa da guerra, que aconteceu isto e aquilo e seu filho voltou perfeito. Deus é grande." E enquanto conversávamos na sala, os meninos me perguntavam "Vovó não viu tio Alfredo? Queremos que êle venha nos ajudar a empinar O papagaio." O papagaio é lindo, colorido, tem um rabo que não acaba de tão comprido. E eu apenas estendo O braço: "Está no quintal passou agora mesmo por aqui." "Tio Alfredo. Tio Alfredo." Ah! se tudo isso fosse verdade e êle estivesse realmente aqui Aos domingos trabalhavam na horta e no jardim cada criança tinha canteiros para cuidar; quando não estavam estudando, estavam tratando das plantas. Por isso O caixão de Zezinho foi coberto de flores, nem parecia caixão, parecia cesta de flores em dia de Natal; rosas, amôres-perfeitos, margaridão, begoninhas gerânios, tudo plantado pelos irmãos. Felício pintava móveis, pregava prateleiras, endireitava a roda do carrinho, consertava torneiras, curava pintos. Passava de avental sujo de tinta, a lata na mão esquerda, O pincel na direita, pintando tudo que encontrava. Caladão, magro, olhos pretos e nariz rubicundo, parecia viver para êle. Os cabelos lisos penteados para trás, os olhos pequeninos e separados, desses olhinhos vivos que dão uma passada rápida e vêem tudo, O mínimo pormenor. Às vezes estava contente, então brincava com os filhos pequenos, dizia - meu bem - para Isabel. Gostava dos filhos quando eram pequenos como bonecas; fazia O que queria com eles, jogava-os para cirna, aparava-os, embalava-os para dormir, brincava, achava graça em tudo que faziam, chamava-os de bichinhos. Os bichinhos cresciam, não obedeciam prontamente, revoltavam-se por isto ou aquilo, pronto, Felício punha-os de lado, enjoava do brinquedo. Irritava-se, tratava-os como se fossem grandes, exigia, ordenava aos berros, batia-lhes, puxava-lhes as orelhas nos momentos de raiva, não eram mais òs bonecos que tanto quisera. Incerto como O vento que vem do norte, outra vez do sul, deste lado ou daquele, nunca era igual nas atitudes; O que o fazia rir hoje, fazia-o zangar-se amanhã. Ficava então mau, esbravejava e batia nos filhos; fazia-os tremerem de medo e eles fugiam quando podiam. Isabel ficava rija, impassível. Êle tinha uma força física extraordinária. Era muito considerado onde quer que fosse como excelente chefe de família; trabalhava incansavelmente para que nada faltasse aos seus, tinha aparência calma, bondosa, sempre sério, um caráter firme. Ria pouco aparentava ter muito bom senso, e por mais que se procurasse negar-lhe qualidades, a evidência estava ali, viva, palpitante. Ninguém, porém, d conhecia. Sofria às vezes de insônia e quando era envolvido nas suas garras, falava com Isabel até duas, três horas da manhã e por mais cansada que ela estivesse, tinha de ouvi-lo e dar lhe atenção. Muitas vezes eu também não dormia ao ouvir O martelar monótono, lento, arrastado de sua voz; fazia perguntas exigia respostas. "Não ouviu O que perguntei?" A voz dela parecia pastosa, sonolenta: "Ouvi, como não?" "Por que não responde?" Ela precisava responder, prestar atenção ouvir tudo direitinho, dar respostas exatas. Aquilo me enervava, era como um pingo d'água a cair a noite inteira sobre uma lata ôca. Ressoava, tirava-me O sono fustigava-me O rosto, as mãos; eu então me levantava, arrastava cadeiras, quase acordava Sílvia que dormia no meu quarto, pigarreava. "Estou aqui, por que não a deixa dormir? Tirar O sono de uma criatura que trabalha, que amamenta, ora vá para O diabo. Se não pode dormir, deixe os outros que durmam. O pingo d'agua ressoava, batia na lata pin! pin! enchia-me a noite, continuava a cair; eu ia para a cozinha acendia a luz, mexia nos paus do fogão, vou fazer ena. Vinha O grande silêncio sobre a casa. E quando eu voltava para O quarto, cobria Sílvia, apagava a luz, deitava-me, puxava a colcha até O queixo, fechava os olhos, ouvia novamente a voz do desgraçado a tirar O sono da minha pobre filha, a perturbar-lhe O descanso, falando, perguntando Lembra-se daquele nosso vizinho, O Tancredo Filho?" A voz pastosa respondia fazendo-se forte: "Lembro sim" Vinha então uma história comprida sobre O Tancredo Filho e toda sua geração. Desgraçado. Às duas da madrugada cessava finalmente e dormíamos todos. Isabel levantava-se de mau humor, cansada servia-lhe O almoço mais cedo. Êle vinha abotoando os suspensórios satisfeito, descansado; almoçava com calma, vestia O paletó, beijava Lena, despedia-se com um gesto suave: - Até logo, meu bem. Bem penteado, bem vestido, cheirando a água-de-colônia ou a charutos que D. Augusta presenteava: "Adeusinho." Ia para O ponto do ônibus, leve, despreocupado, até logo meu bem. Adeusinho. Ela ia para O tanque lavar roupa, ou passar a ferro, consertar camisas, costurar. Nem a mais leve distração, um passeio de bonde, uma visita; somente O trabalho pesado, ingrato, exigente. Suspirava de fadiga. Eu então procurava a frase no meu caderno de receitas, a frase que me consolara anos atrás quando Carlos, de pé,' encostado no batente da porta da cozinha, Leu para mim.' Lembro-me ainda das palavras do meu filho, do seu sorriso de comiseração ao me ver trabalhar tanto, todos os dias a mesma coisa. "A continuidade dos pequenos deveres bem desempenhados não pede menos esforços do que as ações heróicas. E os primeiros aproveitam mais à honra e à felicidade." Eu lia alto para Isabel e as crianças nos momentos de fadiga e de desânimo. - Este J. J. Rousseau dizia coisas muito sensatas; nunca se esqueça desta frase, Isabel. Conforta e encoraja. Ensaboando a roupa, ela mal ouvia e sacudia os ombros, incrédula; e eu ficava acreditando que uma distância enorme nos separava. As crianças diziam por brincadeira: - Olhe aquele Rousseau que vovó falou. - Pois vocês deviam decorar a frase de Rousseau, se soubessem quanto me confortou anos atrás. Eles davam risadinhas, depois um deles vinha repetir alto na porta da cozinha: "A continuidade dos pequenos deveres bem desempenhados..." Interrompia para se queixar: - Vovó, olhe Carlos me beliscando porque estou decorando a frase do Rousseau... Entre beliscões e brincadeiras, todos repetiam alto para me provocar. "Aproveitam mais à honra e à felicidade." Eu fingia que não ouvia. Dependuradas na porta da cozinha, havia várias gaiolas de passarinhos que os dois meninos tinham por obrigação limpar e tratar várias vezes por semana.' Quando Felício assobiava, os pássaros batiam asas, pulavam, torciam as cabeças para ouvi-lo. Um dia Carlos esqueceu-se de pôr comida na gaiola dos pintassilgos e Felício viu os passarinhos arrepiados, com fome. Chamou Carlos aos berros deu-lhe pancadas nos ombros, na cabeça, puxou-lhe as orelhas. - O quê? Deixar morrer esses coitadinhos? Aves inocentes de Deus? É assim que você trata deles? Isabel foi socorrer O menino: - Eles não morreram, Felício, e depois é a primeira vez que êle se esquece... Felício empurrou-a e quando procurei acalmá-lo,- encontrei-lhe O olhar carregado de ódio: - Não se intrometa quando estou educando meus filhos. Carlos ficou pálido, parecia prestes a desmaiar, O pai a dizer que era para êle aprender a não se esquecer dos pintassilgos inocentes, pobrezinhos, avezinhas de Deus. Nas tardes de domingo, Felício chamava os filhos e embrenhavam-se nos campos que continuavam depois da nossa casa; iam caçar. Ouviam-se tiros espaçados; voltavam à noitinha, famintos, a sacola ensangüentada de passarinhos. Isabel enrugava a testa: - Coitados. Êle dava uma risada, abria a sacola, mostrava-lhe O conteúdo, tirava um sabiá morto e encostava no rosto de Isabel, deixe de ser maricas. Ela sentia arrepios, deixava a cozinha, enojada. Êle ficava rindo, escolhendo panela, punha água a ferver, vamos depená-los. Os filhos auxiliavam-no, contentes por verem O pai de bom humor, pronto a brincar. Penas voavam, caíam ao chão, colavam-se à mesa; limpavam e fritavam rolinhas e sabiás, ouvia-se um triturar de ossos entre risadinhas, delicioso. Homem incompreensível. E aos sábados, quando Eduardo chegava com olhos vermelhos e ia para O quarto trocar de roupa, O pai ameaçava-o, que não chorasse, que não chorasse, aquela mulher não valia uma lágrima. O pobre menino ficava magoado, dolorido, queria bem àquela mãe que era como se não existisse, ninguém pronunciava-lhe O nome, ninguém lembrava, não havia um retrato, um traço naquela casa era para ser esquecida, riscada da memória, banida, morta, mas quem pode tirar a imagem materna do coração de um filho afetuoso? Soluçando, tremendo de. medo do pai e este a dizer que todo sábado era isso, que O menino passava bem toda a semana e chegava sábado era aquela cena, que aquela mulher enchia a cabeça do menino, por isso êle voltava daquele jeito, todo tremeliques, e não queria brincar, nem jantar e ia dormir cedo. Não era como nos outros dias, por quê? Por causa daquela mulher, e isso não podia continuar, tinha que acabar, O que a mãe falara dele? Segurava Eduardo pelo braço, O menino careteava de dor: - O que sua mãe falou de mim - Nada, papai, nada. E êle dizia que sim, que falara, se não tivesse falado O menino voltaria contente para casa, não faria cara de mártir só para enternecer, provocar compaixão. "Coitado de Eduardo, a mãe tão carinhosa, tão boa e êle em casa do pai uma fera." É isso que falavam dele, bem sabia mas aquela miserável nada conseguiria, era desprezível, desprezível atormentar O menino desse jeito. Isso tinha que acabar daria um fim àquelas visitas, acabaria com aqueles sábados choramingas, haviam de ver. "Chega os aborrecimentos que tenho no meu trabalho, ainda tenho que aguentar outros em casa!" Batia com O punho forte na mesa, esbravejava, ameaçava "Ainda hei de suportar O choro deste menino?" O vento rondando a casa, acendi a luz no quarto dos meninos; Eduardo estava acordado, os olhos pareciam enormes no rosto magro. Tome um pouco de leite, você não jantou. - Obrigado vovó Lola, não tenho fome. Eu insistia para que tomasse, arrumava-lhe as cobertas, passava-lhe a mão sobre a cabeça, dava a entender que estava do lado dele, que O compreendia, pudesse contar comigo. Juntos ouvíamos O farfalhar das folhas nas arvores do quintal.. - Amanhã seu pai não se lembrará do que disse hoje, durma sossegado. Apoiado ao cotovelo, êle me perguntava: "Por que será que papai tem tanto ódio da mamãe?" Os passarinhos soltavam pios tristes na cozinha como se fossem perturbados em seu sono, eu dizia que êle era assim mesmo, forte de gênio, mas esquecia logo O que falava. Havia pessoas muito violentas no falar, mas era só um instante depois passada, esqueciam O que haviam dito. Era por ciúmes, queria-lhe tanto, eram ciúmes, tinha medo de que êle quisesse mais bem à mãe. Continuaria a visitar a mãe todos os sábados ficasse tranqüilo, não havia lei que impedisse um filho de ver sua mãe. Conversávamos Quando eu deixava O quarto, falava: - Se quiser alguma coisa, dê uma batidinha na minha porta, acordo à toa. Eu não podia dormir pensando no mundo tão desajustado. No quarto ao lado está esse menino que precisa sufocar soluços, fingir alegria, pisar sentimentos, esquecer, e como se pode esquecer O que se não quer? Como uma erva pobrezinha que por compaixão se deixa crescer num jardim, cresce êle nesta casa solitária. Pouco amado. Entre uma família que não é a sua, um pai difícil de ser compreendido, e a mãe que êle ama e que O acarinha e O entende tão longe, tendo outro lar, outros filhos, e que êle vê apenas uma vez por semana e tão rapidamente ah, tão rapidamente. É um mundo estranho este que tem O vento que passa assobiando e O sol que aquece e a chuva que faz germinar e tem tanta coisa bonita como as flores, os frutos, os pássaros, O céu, a luminosidade de um dia de verão, O ar transparente quando se respira na primavera, e O mar, e a música que enternece, as cores que brilham, as asas que refletem a luz, a melodia da beleza e O consolo e a alegria e a bondade. E nesse quarto escuro, sob O mesmo teto do pai, esse menino solitário, longe da mãe, a única que êle ama e que gostaria que estivesse ali, bem pertinho de sua mão magra e sardenta; para êle não há consolo, nem melodia de beleza. Por quê Por quê? O dia seguinte era domingo, Felício foi à feira; trouxe sacolas cheias, pediu aos filhos que O auxiliassem a descarregá-las; olhe O queijo fresquinho, as frutas" as verduras O peixe. - Eduardo, meu filho, venha me ajudar. - Quanta coisa gostosa, papai, disse Sílvia. Olhando-os carinhosamente, respondeu - Para vocês, meus queridos. zzz Capítulo III Zzz Um velho parente de Felício que chamavam de tio Damião, vinha visitar-nos aos sábados. Teria uns sessenta e poucos anos, forte, baixo, possuía uma casinha na Mooca e vivia da aposentadoria e do aluguel de outra casinha. Quando aparecia, trazia tomates da horta, hoje umas ervilhas tortas, outro dia carambolas. Cultivava rosas. A mão seca distribuía dinheiro para as crianças, sentava-se falava nas flores. Tio Damião era querido por todos, fazia versos e compunha música. Quando moço, escrevera um livro de contos e depois um romance que nunca chegou a publicar. Baixinho, magro, barrigudo, usava um relógio enorme no bolso do colete e orgulhava-se do relógio porque pertencera ao pai e batia as horas num tom agudo e fino. Quando tio Damião falava depressa, a dentadura dançava-lhe na bôca. Tio Cosme, O irmão gêmeo, morrera aos cinqüenta anos; ficara êle, rijo e sacudido. Fabricava violinos nas horas vagas; arranjava uma lata de óleo para automóvel Gargoyle Mobilou, que transformava no corpo do instrumento, as outras partes eram de madeira que êle preparava, talhava; punha de cavalo no arco, torneava as cravelhas, esmerava-se, fazia as cordas de tripas. A varinha de crinas roçava as tripas e êle tocava as próprias composições; O som às vêzes era estridente e rangia, mas um amigo dissera-lhe uma vez que suas músicas eram como as de Bach, de perguntinhas e respostas: Tra-la-la-la? Tri-li-li-li. E êle ficava ufano. As crianças ficavam de pé vendo-o tocar e começavam a ler O que estava escrito na lata enquanto ouviam: "Cuidado com as falsificações." "Lubrificação científica." Guie-se pela Tabela do Gargoyle Mobilou" E debruçavam-se para ler onde O arco esfregava as cordas: "Semidenso Especial." Ou "Procure saber se está usando O grau justo de óleo indicado na Tabela." "Não acredite em quem afirmar que outro óleo é semelhante ou mesmo igual ao Gargoyle Mobilou, nem se deixe enganar pelas imitações." "Conserva toda a potência do motor." "Reduz O gasto do combustível." "Melhora a compressão." O arco continuava subindo e descendo nas músicas de Bach. Quando alguém cobiçava-lhe O violino, vendia por trinta cruzeiros e fabricava outro. Tinha um amigo que tocava viola e quando os dois se juntavam, faziam orquestra. Discutiam música, literatura, rosas e repolhos. Quando chegava à nossa casa, tirava O paletó e O colête, encaminhava-se para O quintal, podão entre os dedos; cortava galhinhos secos arrancava folhas amarelas, podava plantas, matava formigas, explicava porque isto, porque aquilo. Orgulhava-se de ter duas coleções completas de livros: de Anatole France e de Camilo Castelo Branco. Fazia questão de dizer Anatólio, sabia trechos dos livros de cor, queixava-se porque Felício não gostava de literatura. Como não? reclamava Felício, sempre gostei muito. - Então onde está O Anatólio? Onde O Camilo?. Qual, você gosta de coisas sem valor.. - Mas não são só esses, tio Damião, tenho outros, veja. Êle sacudia a cabeça penalizado, olhando a prateleira da sala com livros desconhecidos. Fazia muxoxos. - Você não tem os luminares, aí é que está. Alguém já escreveu isto? Vinha um trecho de Camilo, O dedo seco para cima ou apontado para Felício. E olhe, quando Anatólio morreu, a França inteira chorou-o. Sabe O que êle dizia? Que suas idéias eram velhas como p pensamento e que a criação aparece na forma, não na substância. Êle era filósofo grande filósofo. Ficava com a boca seca, pedia água, tomava um golinho. Um dia apareceu com O livro de contos para eu ver; abriu-o e folheou as páginas perto do meu rosto. - É O meu modesto livrinho que quero ofertar-lhe. Está aqui: À Exma. Sra. D. Lola.. Leu a dedicatória, depois apontou O nome na capa do livro Damião Vasconcelos Souto. - Eu sou dos Soutos mais antigos do Estado do Rio, meu ramo vem de Portugal, do alvorecer do século XVIII. Tinha a voz suave e O olhar sereno, alegre como uma criança; apenas um fato O aborrecia e tornava-lhe O olhar sombrio: lembrar que seu irmão Cosme fabricara dados viciados. Em meio ao aborrecimento, não podia deixar de admirar a habilidade do irmão. Além de consertar todos os relógios da vizinhança, fabricava dados com tal perícia que iludia os mais espertos. Tio Damião juntava dois dedos, mostrava a pontinha de mercúrio que Cosme empurrava para dentro do dado, com tal habilidade, oh, tal habilidade que seria capaz de descobrir? Quem? Cobria depois aquele buraquinho quase inexistente com O próprio marfim, colava, igualava, fechava, pronto. Vendia os dados para os que roubavam no jogo, a voz de tio Damião tornava-se áspera, engrossava, censurava; seu rosto se contraía. Terminava: - Não devia fazer isso, há muitas maneiras honestas de trabalhar e ganhar dinheiro, sem ofender O bom Deus. Mas que O Cosme era hábil e capaz, era. Nunca vi nada tão perfeito, tão admirável Esquecia imediatamente O mau pensamento, voltava a falar na música, no Camilo e no Anatólio. Quando Lena completou um ano, veio tio Damião, O violino debaixo do braço, sorridente: - Antes de mais nada, quero tocar na rabeca minha nova composição para esta menininha. Ouvíamos em silêncio. A varinha de crinas subia e descia, esfregava as tripas, dava uns guinchos, rangia, mas a composição era bonita, como se O próprio Bach a tivesse escrito. E tio Damião ria, a dentadura tremia-lhe, nós aplaudíamos e pedíamos que tocasse outra, também de Bach, de perguntinhas e respostas apressadas: Tra-la-la-la? Tri-li-li-li. Êle se empertigava, ficava sério, tocava de olhos fechados; O arco esfregava as cordas com energia e vigor, feria com sentimento. Aplaudíamos de novo e êle perguntava dirigindo-se a mim: - Gostou, excelentíssima? Anunciava aos outros: - Agora uma valsinha dedicada à excelentíssima D. Lola... A rabeca realizava milagres nos Braços de tio Damião êle ria-se com nossos aplausos e quando Lena batia as duas mãozinhas, êle apertava-lhe O queixo: - Gostou, meninazinha? Quando você tiver a idade de Janina, irá apreciar melhor. Janina era a filha de tio Damião, só de imaginação. A casa de tio Damião era pequenina, com duas janelas dando para a rua, a porta de um lado; contava êle que de manhã trabalhava na horta e no jardim, e seu maior prazer durante a tarde era ficar na janela, olhando O movimento da rua, os cotovelos apoiados no peitoril. Era querido e respeitado por toda a vizinhança que O considerava e O consultava em todos os assuntos. Era O mediador e O conselheiro um pouco médico, um pouco dentista, um pouco calista. Extraía com muito jeito os dentinhos de leite de todas as crianças do bairro punha a criança sentadínha, mostrava-lhe uma carambola ou um caramelo prometia, ria, disfarçava pegava um fio forte, brincava com êle, tudo isso com muita habilidade e gentileza, conversando e contando histórias, zás, a criança saía aliviada. Indicava remédios para os homens, certos chás para as mulheres, mas sua maior habilidade era tirar calos. Conhecia todos os pés das imediações e já havia extirpado todos os calos incômodos. Nas manhãs tratava da horta e do jardim; nos aniversários das senhoras, aparecia sempre com uma rosa especial e dizia O nome, como entendedor: - Excelentíssima, uma "Condessa de Sastago" para festejá-la. - Oh, Sr. Damião, muitíssimo obrigada, é maravilhosa. - Damião Vasconcelos Souto, um seu criado. Para outra vizinha, mulher do dono do empório, vinha solene e circunspecto: - Excelentíssima, uma "Duquesa de Peneranda" para enfeitar sua mesa. E se inclinava: - Damião Vasconcelos Souto, seu criado. Para as mocinhas, oferecia um cacho de "climbing Radiance" ou "Ofélia"; para as crianças, invariavelmente levava caramelos ou carambolas do quintal. Era convidado para todos os casamentos, batizados e reuniões do bairro; mas fôsse O que fosse, abandonava a festa um pouco antes das vinte horas, desculpando-se, dizendo que era metódico, não reparassem. Ia correndo para casa, tirava O paletó, acendia a luz pegava a rabeca. Sentava-se diante da mesinha da sala de jantar coberta com uma toalha bordada e onde havia um vaso com flores um caramujo enorme que colocava todos os dias no ouvido direito para ouvir O "grande mar", um castiçal com vela e fósforo para O caso de faltar luz e um livro de orações. Ficava esperando; às vinte horas e vinte e cinco minutos levantava-se, colocava a rabeca sob O quei xo, olhando sempre O relógio que estava ao lado do castiçal, às vinte e trinta começava a tocar. Tudo isso é por método, explicava, tudo tem sua hora. Durante trinta minutos tocava suas composições, depois as músicas que tocava de ouvido e por fim a valsa de Janina. Às vinte e uma horas, guardava cuidadosamente a rabeca, colocava O caramujo no ouvido direito para ouvir O grande mar e ia para O quarto, O livro de orações na mão. Nunca verificava se a casa estava fechada; conversava com a filha sobre os acontecimentos do dia, dizia: "Durma com os anjos minha filha", ia para O quarto. Deitava-se mas antes de apagar a lâmpada de cabeceira coberta com papel de seda côr-de-rosa, rezava duas páginas do livro, para agradar O bom Deus. Às vinte e uma horas e trinta minutos, tio Damião estava dormindo. O irmão Cosme era como se ainda vivesse; tio Damião falava nele com carinho todas as vezes que nos visitava. Cosme dizia isto, contava aquilo, ria-se das piadas do irmão. Êle gostava de pilheriar, ora se gostava. Contava que êle, Damião, era mais velho quatro minutos e meio; já estava nascendo, vivo, vermelho, aos berros, quando a avó que ajudava O parto deu um grito assustado: Temos outro! A parteira largou-o nas mãos da avó, voltou-se para acudir, qual, O Cosme vinha vindo sozinho, esperto, um olho aberto outro fechado, nem precisou de auxílio. A parteira ficou espantada Este já nasceu engatinhando. Por isso O Cosme sempre mais esperto que êle, mais ladino, ganhou rios de dinheiro, pena aquela mania de fabricar dados viciados. Sua voz engrossava, franzia a testa. Sorria: - Mas que êle era hábil, ah, isso era. Ha-bi-lís-si-mo. Pois nasceu engatinhando. Durante um tempo em que Felício andou muito nervoso, batendo nas crianças por qualquer motivo, gritando com Isabel, impertinente e irritado, queixei-me ao tio Damião. Êle estava no nosso quintal plantando couves num sábado de outubro, fui me chegando e falando; contei que era difícil compreender Felício, parecia tão nervoso, tão inconstante, amável com os estranhos, bruto com os de casa, as crianças tremiam de medo do pai, Isabel sofria. Como era possível viver assim? Tio Damião escutou apoiado na enxada, passou O lenço na testa suada, esperou, falou: - Pois meu pai era assim mesmo. Bravo, violento de gênio, os filhos tinham um medão... Em casa falava sempre aos gritos, esbravejava por nada, exigia, dava socos na mesa; e apesar disso era um homem às direitas, correto e sério, nunca faltou nada em casa. Na-da. Engrossou a voz: - Falta alguma coisa aqui? Fiquei olhando-o: - Aqui em casa? Não, não falta nada. - Pois então? Deixe correr O marfim, todos os Vasconcelos Souto foram assim e são assim, violentos, capazes até de matar se fôr preciso, querem tudo ali a hora e a tempo, mas são homens bons, cumpridores de seu dever. Essa família vem de Portugal, do alvorecer do século XVIII, mas boa gente, ninguém pode dizer que não é boa. Nunca houve um que matasse, roubasse, violentasse, nada. Só O Cosme tinha aquela mania, mas nunca prejudicou ninguém... - Mas tio Damião, O senhor é tão bom de gênio, tão manso, por que Felício que é seu sobrinho não é como O senhor? - Ah! Eu não sou capaz de matar uma mosca. Sou calmo. Mas assim como os dedos da mão são diferentes, nem todos os irmãos e sobrinhos são iguais. Assim mesmo minha mulher se queixava, dizia que eu não era biscoito. Debaixo das cinzas há sempre brasa, ela falava. Casquinou uma risadinha ao lembrar a esposa: - Brava era ela. Onça pintada, mas eu fazia as coisas de tal jeito, tapeava aqui, endireitava ali que a vida inteira quem mandou fui eu e ela tinha orgulho de dizer que mandava em mim. Farofada. Sabe que nos domingos eu viro O retrato dela para a parede? Ela me azucrinava tanto nesses dias, me perseguia, me mandava fazer isto e aquilo que eu sempre lembro dela com raiva nos domingos, então por vingança, viro O retrato dela de cara para a parede. Só de raiva; na segunda-feira de manhã O retrato está de frente outra vez. Coitada Que O bom Deus lhe dê um bom descanso, é O que eu desejo. Cuspiu nas mãos, esfregou-as, preparou-se para trabalhar de novo. - Se O senhor falasse um pouco com Felício êle atende tanto O que O senhor diz... Quem sabe se O aconselhasse... Deu uma enxadada no canteiro das couves: - Não se mexe em vespeiras, excelentíssima. Deixe os Vasconcelos Souto assim como são. Nasceram assim, morrerão assim. E depois criança precisa ser castigada às vezes mulher também. Assim como está me vendo, apanhei de meu pai como boi ladrão. Em outra ocasião em que O Felício não parava em casa, voltava tarde e só falava em D. Augusta, esposa do seu colega Honório, dei a entender a tio Damião que as coisas não iam bem em casa, Isabel andava tristonha e discutia com Felício. Êle me piscou um olho malicioso: - Não se incomode, excelentíssima, tudo voltará novamente a dar certo, mais cedo ou mais tarde. E depois uma aventurazinha galante faz bem ao coração; Felício voltara mais carinhoso, mais alegre. Tudo correrá melhor, vai ver. Brava como era a Bastiana, onça pintada, preguei-lhe cada peçazinha, nem queira saber. Diante dos olhos dela, na frente mesmo, eu dizia que ia tratar dos calos dos vizinhos, coitados, com os pés escangalhados, mas eu ia era visitar a Justininha, uma pequena que era um brinco, redonda, viva como azougue. Os calos estavam cada vez pior, com infecção, qual, mentira, a Justininha suspirava nos meus braços. Pensa que a onça pintada descobriu algum dia? E que mal fêz? Nenhum. Eu voltava contente para casa, contando O diabo dos pés dos vizinhos. A excelentíssima desculpe se falo essas coisas, mas muitas Justinas passaram por aqui... Mostrava os braços sorrindo, coçava O queixo. Lembrava-se de mim - Não se incomode, tudo há de passar. O principal é sua filha não ter certeza, desconfiar mas não saber. Por que aquele idiota fala tanto na tal Augusta? Minha mulher me ameaçava: Olhe Dami, se algum dia eu descobrir alguma coisa, faço um escândalo tão grande que você não levantará mais essa cabeça para ninguém. Eu respondia: Que horror meu bem, você fala assim, nem sei O que parece, que pensa que eu sou? Algum sem-vergonha? Então não tenho responsabilidades? Assim foi a vida inteira e ela acreditando que eu era um santo. Morreu feliz... Coçava O queixo. - Tudo passará, excelentíssima, e êle voltará mais manso, mais terno, mais domado. Não há nada como isso para acalmar os gênios fortes. Não sabe que a virtude é seca, irritadiça e impaciente? Trabalhava no quintal cantando a meia voz: Os teu olhos, bem-amada são duas noites cerradas, : ' raias os lábios são de luz lá se cantam alvoradas. As crianças pediam que cantasse outra quadrinha. Êle perguntava qual, aquela que fala em camisa, respondia Carlos. Êle então sorria, cuspia nas mãos antes de retomar a enxada, pigarreava, soltava a voz: Queria ter uma camisa dum tecido bem fiado, Feita de todos os ais que O teu peito já tem dado. - São seus esses versos tão bonitos? Infelizmente não, excelentíssima. São dos livros, que por estas mãos muitos livros já têm passado. Tanto quanto as ondas do mar. As crianças ficavam escutando aquele tio que sabia Tanta coisa e falava de cor páginas inteiras; pediam para êle O trecho do livro de Camilo. Fingia-se esquecido, qual qual? Aquele que começa assim: "Oh! mulheres!", lembrava Sílvia. Ah aquele não sei se é de Camilo, talvez seja do a O Eça tinha muita coisa boa, era bom escritor. Minha cabeça está fraca, esqueci a quem pertence aquela jóia . As crianças insistiam. Êle parava de capinar, colocava a mão direita sobre O coração e ali no meio da horta, em mangas de camisa, a cinta de couro apertando as calças embaixo da barriga, as mãos sujas de terra: "Oh! mulheres! vós todas que tendes dentro do peito O mal que nada cura, nem os simples, nem os bálsamos, nem os orvalhos, nem as rezas, nem O pranto, nem O sol, nem a morte, vinde ouvir história florida!" e quando ninguém pedia que êle repetisse os trechos os, perguntava: Querem ouvir aquele outro trechozinho que sei de cor. Queremos, diziam em coro as crianças, Novamente a mão no coração, a voz comovida: "Ó amigos, ó minha bem-amada, os ramos estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar às cantigas às iras, e às orações, todos os caminhos do céu." Isso também não sei mais de quem é. Minha cabeça está fraca. Enquanto trabalhávamos na casa, ouvíamos a voz de tio Damião cantando entre as couves: "Os teus olhos, bem Além de possuir a casinha onde morava, possuía outra vizinhanças que alugava por trezentos e cinqüenta cruzeiros. Uma vez por mês ia rondar a casa que alugava para ver se tudo estava em ordem; se havia uma falha qualquer, uma sujeirinha na janela, um respingo na porta, êle pedia delicadamente que tivessem cuidado, era O único bem que possuía, era sua jóia. Os inquilinos perdoavam-lhe a impertinência, convidavam-no a entrar; com seus olhinhos miúdos percorria tudo cuidadosamente, examinava os trincos, passava as mãos pelas paredes, espiava os cantos, ia até O quintal inspecionando, inquirindo, observando. Mas era tão delicado, tão cuidadoso no falar, sua voz era tão doce que gostavam dele e faziam-lhe as vontades. Ao despedir-se, curvava-se diante da inquilina: - Me perdoe, sim? É minha única jóia, pode compreender, não é verdade? É meu tesouro, não me leve a. mal. E quando a inquilina protestava que sim, ora esta, compreendia perfeitamente, êle não a incomodava em nada, inclinava-se, solene: Damião Vasconcelos Souto, seu criado. Afastava-se no passinho ligeiro, firme. Na véspera de Natal, surgiu em nossa casa, um ramo entre as mãos, a rabeca sob O braço; encontrou-me na cozinha: Excelentíssima D. Lola, ofereço-lhe minhas modestas Crimson Glory. - Tio Damião, quanto eu agradeço... Enxuguei as mãos, recebi O ramo. São perfumadíssimas estas rosas, não sei se conhece. Tão perfumadas, perdão! Não tão perfumadas quanto a bondade da excelentíssima. Somente nesse dia do ano, saía fora dos hábitos e ficava até mais tarde conversando e tocando. Compôs um fado para esse dia e tocou-o à hora de ceia. Recostado na cadeira predileta, Felício fumava um charuto. Tio Damião interperlou-o: - Falar em fado, sabe a história do fado? Tio Damião já havia contado várias vezes, mas Felício respondeu que não sabia. Êle coçava O queixo lembrava: - Não sei se isto é do Camilo ou do Eça. Diz assim: Roma fêz O Direito, Atenas criou a escultura, Paris inventou a revolução, a Alemanha criou O misticismo, Lisboa fêz O fado. Esta é muito boa, ah, ah, ah. Isabel perguntava: - E O Anatole? - Anatole, em português é Anatólio, eu falo português. Esse foi um colosso, um monumento. Na guerra de 1914, tinha setenta anos e ofereceu-se como voluntário, amava a pátria acima de tudo. Sabe O que êle dizia para os seus soldados? "O que estais defendendo é O nosso imortal patriotismo, nossos costumes, nossos usos, nossas leis, nossa fé, nossa tradição; O trabalho dos nossos artistas, as canções dos nossos músicos, a língua materna que há oito séculos flui dos lábios dos nossos poetas, escritores, historiadores, filósofos. O que estais defendendo é O gênio francês que tanta luz deu ao mundo e trouxe liberdade às nações". Falava assim. Bebia um gole de água. - Dizia que suas idéias eram tão velhas como O pensamento e pertenciam a todos. Amou a França e ocupou nas letras O posto supremo. Foi um sábio. Desde Victor Hugo, a França não havia chorado tanto a morte de um filho como a de Anatólio. Se êle fosse vivo, não acontecia O que está acontecendo. Tenho um pressentimento, talvez me engane. Mudava de assunto: - Leram hoje as notícias? Não são nada boas. Guerra, guerra e mais guerra. Vamos esquecer essa calamidade. Tocava mais um pouco, comia algumas castanhas, guardava a rabeca, despedia-se: - A noite está escura como breu. Assim mesmo antes este breu que O frio da Europa. Coitados dos que estão lutando. Boa noite minha gente. Felicidade a todos. Às vezes fazia versos, quadrinhas que declamava com modéstia. Quando ventava, dizia: - Como é que os poetas e romancistas poderiam viver sem O vento, a chuva as estrelas, a lua? Escutem, (levantava O dedo indicador) este vento é capaz de inspirar O menos inspirado. E a chuva então? Outro dia eu estava em casa e a chuva pin-pin-pin batendo no vidro da janela; na mesma hora fiz esta quadrinha, não reparem, passatempo de velho. E lá veio mais um versinho. Batíamos palmas, êle sorria, modesto. - Ué, gostaram? Às vezes faço quadrinhas para me distrair; no bonde, no ônibus na janela lá de casa. Passa uma menina num passo ligeiro, tá, lá vai um verso para ela. Teu sorriso encantador é feito de mel e rosa. Teus olhos são dois sóis, teu olhar a minha aurora Passa aquele bando de crianças para a escola, eu já comparo com revoada de pássaros, andorinhas de verão, sai logo verso. E O vento como inspira, santo Deus. O escritor que ouvisse esta ventania pegava logo O assunto: "A ronda do vento fazia estremecer a casa do descampado..." Aí por diante. Ou então: "O vento ronda sinistramente e as folhas das árvores farfalham de medo." Farfalham fica bonito. Eu nasci errado, devia ter nascido poeta ou escritor. Agora quem tinha jeito mesmo era O Cosme. Ih, quando Cosme pegava num pedaço de papel e num lápis eu dizia: Vai sair coisa grossa. Saía, foi pena que nada tivesse publicado, também com aquela mania dos dados... Seu rosto sombreava, sua voz engrossava. - Para que, meu Deus do céu? Para que fazer dados para ladrões? Preparava O marfim, O mercúrio, eu nem gostava de olhar e sabem de uma coisa? Não gosto nem de lembrar. Vamos falar de outra coisa, vamos falar dos poetas, Como eles têm cantado a lua, lua cheia, minguante, crescente, nem sei que mais. Eu falando essas coisas bonitas, nem me lembrava que amanhã tenho que cortar os calos da vizinha, uma velhinha de oitenta anos. Imaginem, ainda tem calos. D. Inacinha, muito boa, coitada, para me pagar os calos, me manda de presente docinhos, baba-de-moça feito por ela. Não digo nada, a velha vai para a cozinha e faz tudo na perfeição; só que outro dia esqueceu de pôr açúcar no bolo. Saiu intragável. Coitada, decerto com a mania de racionamento, esqueceu O açúcar. A vida é cheia de surpresas. Olhava as horas, levantava-se. - Que é isso, tio Damião? É muito cedo. - Não é, quer ver? Com essas conduções difíceis de agora, vou chegar na minha casa às dezenove horas ou mais. Na hora de saborear meu parco jantar, café com leite e bolachas. Depois Janina está me esperando. Tenho minha aula de música, minhas páginas de leitura, depois sono. Amanhã temos orquestra em casa, é O dia do Juvêncio levar a viola. - Jante aqui hoje, dizia Isabel. Temos uma sopa de macarrão, fique. - Sou O homem dos métodos; quem quiser ter hora para tudo precisa aprender comigo. Até sábado. Puxava O chapéu para os olhos, ia embora mandando queixumes ao vento, inspiração dos poetas. No ônibus, iria fazendo quadrinhas que guardaria de memória para nos repetir na próxima semana. Chegaria em casa, acenderia a luz da sala, da cozinha, saborearia O parco jantar em companhia da filha. Ficaria na frente da mesinha, rabeca no colo, olho no relógio. Vinte horas e vinte e três minutos, rabeca debaixo do queixo, posição, sentido. Vinte horas e trinta, composições parecidas com as de Bach, depois valsas e polcas de ouvido, e a valsa de Janina, a filha de imaginação. Vinte e uma horas, guardaria O violino na caixa com tanto carinho como se guardasse uma criança num berço, levaria O caramujo ao ouvido para ouvir O grande mar, sorriria, depois tomaria O livro de orações e O levaria para O quarto. Diria boa noite Janina, durma com os anjos. Deitar-se-ia. Ficaria acesa apenas a lâmpada da cabeceira envolvida em papel côr-de-rosa e êle, grave e sério, conversaria com Deus. "O Excelentíssimo Mestre que fêz a lua, O sol, as estrelas, O grande mar, O vento que ronda, O farfalhar das folhas das árvores, por que fêz as guerras Para tormento dos homens? Isso é que não compreendo, bom Deus e Excelentíssimo Mestre." Ficaria mergulhado em perplexidade diante dessa idéia, depois fecharia O livro com respeito como havia fechado a caixa da rabeca, feliz por ter cumprido seu dever. Apagaria a lâmpada côr-de-rosa com seus dedos mirrados e dormiria O sono dos simples. Vinte e uma horas e trinta minutos, senhor Damião Vasconcelos Souto. Souto de Portugal, do alvorecer do século XVIII. zzz capítulo IV zzz O tempo passando. Vinham cartas de Itapetininga contando notícias; Clotilde queixava-se de reumatismo. "O que me faz mal é trabalhar no calor do forno, depois tomar friagem." Para ganhar a vida continuava no calor e na friagem. "Glorinha ficou noiva, O casamento é em fevereiro, contamos com você para madrinha." A cidade me recebeu num dia de sol cidade da minha infância: cabra-cega, boneca de louça, boneca de pano, ciranda-cirandinha, vamos brincar de pegador? Um, dois, três, quatro... você é O pegador. Enquanto eu não gritar - hora - você não vem, ouviu? Fui lobrigando devagar O arvoredo espesso dos quintais, espreitando nos pomares os limoeiros copados e alguns limões doces, graúdos e amarelos, laranjeiras com uma ou outra laranja atrasada, abacaxis de aspecto hostil, onde já se podia adivinhar a polpa muito branca e sumarenta, com O caldo a inundar os pratos, a escorrer pelos garfos. Flores sobre os portões, entre as grades dos terraços e acompanhando as cercas meio quebradas emaranhavam-se madressilvas. Casas pequenas rentes à rua onde brincavam' crianças; pássaros voando sobre a ramaria. Largos ajardinados onde a banda de música vinha tocar aos domingos; sons de valsas e polcas perdiam-se no ar, O bumbo era esmurrado com fôrça. Abraçados aos instrumentos, os músicos bufavam, assopravam, repinicavam, firmes nos passos de marcha um, dois, um, dois, seguidos por meia dúzia de moleques sôfregos que também marchavam atrás um, dois, um, dois, dobrando esquinas, virando ruas contornando praças: Ta rata-tchim, tchim tchim. Muros velhos de chuva e de sol onde ratos dormiam espichados, muros caiados de branco; telhdos escuros de onde subia a fumaça hospitaleira que se perdia vagante no céu Toda a cidade quieta e sonolenta pacata adormecida nesse entardecer de verão. A casa de Olga e Zeca ficava num largo, tinha uma entrada de lado, um terraço, uma roseira de rosas amarelas entrelaçadas nas grades de ferro. A farmácia de Zeca ficava na esquina; vinte vêzes por dia êle arranjava um pretexto para vir a casa; dava uma capiada, tomava um copo de agua, uma voltinha, ia embora Olga impacientava-se: um ir e vir O dia todo Ouvi vozes de criança. Vieram todos. Houve cerimônia a princípio; Clotilde apareceu de chinelos, apressada, estava mexendo O tacho de cobre, doce de marmelo. Abraçamo-nos no terraço enquanto os meninos seguravam minha mala. Os cabelos grisalhos Clotilde estava parecida com mamãe. Meus Deus Lola, há quanto tempo. Envelhecida entre os sobrinhos, pelos sobrinhos, tinha um ar cansado de quem trabalhava muito. Mãos calosas, meio corcunda de tanto debruçar-se sobre os tachos, mansa na fala e nos gestos. Olga fez uma exclamação veio lá de dentro, gorda, pesadona; fisionomia carrancuda cansada de tanto filho, tanto trabalho. Enérgica com o marido, filhos, netos. A gordura excessiva achatara-lhe O nariz; rosto avermelhado, congestionado; tinha fala forte, mandona, tudo tinha defeito precisava corrigir. Autoritária. Quando moça tivera cuidado para não engordar; apertava os quadril extintas especiais, espremia os seios, falava na mesa, cautelosa: preciso comer pouco, tenho propensão... Com a idade relaxara; deixara a gordura à vontade, e ela expandia-se entre as dobras da cinta velha; os seios vi viam quase em completa liberdade, fartos, oscilantes. Na mesa, tinha ternuras pelos pratos bons; saboreava gordas coxas de frango sobre fatias de pão encharcadas de molho esquecia as horas diante de uma travessa de massa de pastel torradinha e morena, sua mão gorda ia e vinha, levava à boca os pedaços tenros que Clotilde caprichava na cozinha e fazia em forma de coração, âncora, letras bordadas. Inventava pratos, sonhava com receitas esquecidas que procurava ansiosamente no fundo das gavetas e tratava logo de fazer. Suspirava: "Há quanto tempo não provo lombo de porco do jeito que mamãe fazia." Conversava e comia esquecida dos regimes e dos apertos. Mandara tudo às favas num dia de grande cansaço, ao ver que a idade chegava e ela naquela eterna vida de sacrifícios, apertos e cuidados. Até a autoridade parecia arrefecida, abafada pela gordura; já sua voz não tinha aquele tom enérgico de mando. Esfriara. Uma vez ou outra voltava ao tom antigo, assim como uma vez ou outra procurava conter-se na mesa; tinha então desmaios na voz: "Não posso repetir isso, preciso cuidado." Mas as palavras tinham uma leveza tão grande que O vento levava. Parou ao me ver, um ar reprovador: - Ora viva, até que enfim. Precisou Glorinha resolver casar para você vir nos visitar. Cinco anos já que não aparece. Glorinha! Zeca entrou correndo; magro, nariz proeminente no rosto chupado, nem alto nem baixo, cheirava a desinfetante. Abraçou-me, desajeitado. - Como vai, Lola? Por que não avisou, iríamos à estação. Depois Glorinha, Inês, a nova geração. Glorinha estava com vinte anos, O noivo trabalhava num cartório; como Olga, era também professora no Grupo Escolar. Levaram-me para O quarto de Clotilde; minhas irmãs faziam perguntas, falavam, mostravam os mais moços; olhe os meninos como estão grandes. As meninas foram buscar café, biscoitos. "Aqueles que fiz ontem, da lata verde." Zeca voltou apressado para a farmácia Todos falavam ao mesmo tempo; abri malas, distribuí presentes, os meninos saíram aos pulos, radiantes. A tarde caía devagar sobre a cidade e através da janela, eu olhava O largo amigo e silencioso. Essa mesma noite, tive visitas de velhos conhecidos; D. Carola entrou estendendo a mão seca: Como vai esta velha amiga Há quanto tempo a gente não se via? E os filhos? Abraçava apertando, eu sentia-lhe O hálito azedo; fazia perguntas; fizemos círculo para D. Carola. Ela foi soltando as novidades. - Lembra do Juquinha da Sebastiana? Morreu O ano passado. Continuamos a lembrar os que tinham morrido, casado, sumido. Reminiscências. - Lembra a Maria do Carmo, do Serafim? - Morreu? - Essa não morreu, comprou a chácara do Teodorico, mora lá. Soube que O Teodorico ficou viúvo? - O Teodorico da Nhàzinha? Ora, coitado... Ela cortou a frase com a mão: - Já está casado com uma mocinha de vinte e dois. Antes que eu terminasse a frase, Teodorico estava casado outra vez. Ela ficou conversando, esmiuçando, espremendo. As tardes foram passando rapidamente, as rosas amarelas a se balançarem no terraço cheias de garridice. O noivo vinha ver Glorinha; os dois ficavam de mãos dadas, alheios, falando baixinho de coisas que ninguém entendia. A filha mais velha de Olga era casada e tinha duas filhas pequenas, orgulho do avô; vinham todos os dias para a casa do largo. As horas eram cheias de trabalhos: doces as Últimas peças do enxoval, visitas, telefone, O sapato de cetim está apertado experimentar vestido. E O véu? Discussões. Olga queria que a cerimônia do casamento fosse na igreja do largo, Glorinha queria que fosse numa igreja longe para ir de automóvel. Zeca dizia: Vocês resolvam. Clotilde estava de acordo com Olga, tradição é tradição. Glorinha pediu meu auxílio: - Temos que ir a pé porque é muito perto e eu não queria atravessar O largo vestida de noiva. Não acha ridículo, tia Lola? E se chover? - Abre O guarda-chuva, dizia Olga, carrancuda. Olhava firme para a filha. Glorinha fazia um muxoxo, Olga teimava: - Quero que seja lá por tradição. O desejo de seu pai é esse também, tenho certeza. Todas as mulheres da família dele casaram-se nesta igreja, por que você há de ser diferente? Há de ser lá. Acabou vencendo; a noiva ficou mal-humorada e foi se queixar no quarto. - Sempre foi assim, O que a velha quer tem de ser feito. Procurei a velha com O pensamento, era Olga, nossa irmã mais moça. Fim de quaresma. Fazíamos jejum, rezávamos, conversávamos sobre O passado. Ficávamos recordando como se folheássemos velho álbum. O passado voltava inteiro, vivo, palpitante, quente. Retalhávamos tudo, depois rezávamos a ladainha, contritas; Clotilde puxava O terço com devoção, voz mansa. Olga pedia: - Vamos rezar O Bendito? No meio da ladainha, Olga fazia um gesto para Ciotilde esperar. - Desculpe interromper, mas você lembra Lola, da Maria da Conceição Tomásio? Eu ficava indecisa, Clotilde socorria: - A filha de nhá Belarmina, a que morava no Rio Pardo... - Ah, sei. - Sabe que ela fugiu há um ano atrás com um homem casado? Arrepios. - Largou marido, filho de cinco anos, tudo. Pegou fogo e saiu inflamada pelo mundo, não houve O que apagasse. - Que coisa horrível. - Eu sempre achei-a meio sem-vergonha, safadinha. - Refugium Peccatorum... Ora pro nobis. - Regina Confessorum... Ora pro nobis. Depois vinham as rezas para os mortos a voz de Ciotilde se arrastava, fanhosa: - Agora um padre-nosso e três ave-marias para tio Bento. - Agora um padre-nosso para a alma de nhô Quim que morreu na semana passada. - Que nhô Quim? - O vizinho do tio Batista, do Saracura. Morreu? Coitado. - Rezávamos. "Uma ave-maria para a alma de D. Merência. Nas horas vagas costurávamos; ajudei a bordar peças do enxoval; Glorinha e Inês bordavam. As crianças chega vam depois do jantar, balbuciantes Zeca ficava de quatro no chão para as meninas subirem-lhe nas costas. Olga sacudia a cabeça: - Olhem para que deu O avô. Chegou O dia do casamento. Glorinha havia feito promessa para não chover, amanheceu chovendo. A água escorria pelas vidraças, formava poças no chão engrossava enxurradas. Saiu do quarto, encostou O nariz na vidraça da sala, suspirou: - Ih, meu Deus, que chuva. Inês debruçada na xícara de café, resmungou: - Só quero ver você vestida de noiva atravessando O largo debaixo de chuva. Que azar! Vítor e José Luís, irreverentes, riam alto, sacudindo os ombros, derrubando pelotes de manteiga na toalha; Clotilde na ponta da mesa dava os últimos retoques na blusa que Glorinha iria usar na viagem. Cortava a linha com os dentes inclinada para a frente, óculos quase na ponta do nariz. Absorvida no trabalho, censurava os meninos: - Olhem a toalha... Zeca na porta do quarto perguntava onde estava a camisa branca, Olga atravessava a sala com uma bandeja de quindins amarelinhos, procurasse na terceira gaveta da cômoda. Inês chamava O pai que viesse ver Vítor; ouvia-se bater de portas, vozes estranhas na cozinha, passos apressados, ordens, chamados, gritos, apelos. Glorinha saiu do banheiro, José Luís provocou: - Chove pra burro... Vai chover O dia inteiro. Vítor socou O irmão por cima da mesa; Clotilde, alfinêtes no canto da boca, a voz engasgada: - Tenham modos, meninos. Inês tornou a chamar: - Papai, venha ver O Vítor. Eram oito horas, a cerimônia seria às nove e meia na igreja. Todos tinham pressa, falavam depressa. Inês surgiu na sala com seus quinze anos vaidosos num vestido côr-de-rosa feito por Clotilde; sua cinturinha fina parecia que ia quebrar; alisou a saia com as duas mãos, revirou-se de um lado e de outro, apalpou os cabelos. Zeca disse que Inês parecia máscara, por que tanta pintura? Clotilde correu em socorro, disse que passara creme de pepinos para disfarçar as sardas, chamou a menina, fingiu que tirou O creme com a ponta da toalha. Os meninos gritavam no quarto, parecia briga. Olga gritou, Inês fosse ver O que era aquilo, a voz aguda de Inês: - Mamãe, estão nus da cintura para cima, se socando. - Seja tudo pelo amor de Deus, respondeu Olga. Um automóvel parou no portão, passos rápidos no terraço, às meninas apareceram de azul, saias compridas, flores nas mãos. Houve exclamações, esqueceram a briga, Zeca ficou de cócoras para abraçar as duas juntas. A noiva estava pronta. Muito séria, Glorinha surgiu na porta. Todos ficaram parados, olhando-a. Estava encantadora, os cabelos anelados presos sob O véu. Inês trouxe O ramo de flores, pôs nas mãos da noiva; ela ficou um pouco indecisa, preocupada com a saia comprida, as flores, O véu. O pai disse que estava na hora. Abriram-se guarda-chuvas, houve grande confusão. Todos saíram ao mesmo tempo para O terraço perscrutando O céu. Formou-se O cortejo a pé, era só atravessar O largo, pertinho A chuva havia diminuído; O padrinho ia ao lado da noiva que dera O braço ao pai; na frente iam as irmãs pequenas. Clotilde estava comovida. Em todas as portas e janelas havia pessoas que queriam ver a noiva. Mal começamos a andar com passos vagarosos, a chuva caiu fortemente, respingando água por todos os lados, gotas graúdas como moedas. A água saltava no vestido de Glorinha enlameando a brancura; cada pingo valia um suspiro de Clotilde. Que se havia de fazer? Tradição é tradição. Quando O cortejo parou na entrada da igreja e O harmonio começou a tocar as notas graves da Marcha Nupcial, Olga abriu a bolsa e procurou depressa O lencinho. Havia muita gente; quem não conhecia a professora que se ia casar? A Glorinha, filha do Zeca da farmácia? Zeca. dava passos curtos, de braço com a filha. Antes de começarem a andar, as pequenas sacudiram as saias respingadas de chuva, como cachorrinhos molhados. Fêz-se silêncio na igreja. A noiva de olhos baixos e O pai como vido; êle não queria olhar para O povo que se aglomerava nos bancos e quando olhava, sorria e cumprimentava de leve. Ao lado do altar, onde esperávamos a noiva, eu via as cabeças voltadas acompanhando O cortejo. Lá se encontrava Sinhá, de cabeça embranquecida e cansada, minha companheira de infância. Sentávamos lado a lado no Grupo Escolar; quando a aula era de matemática, ela me ensinava, quando era de história, eu a auxiliava. Crescemos juntas e quando tivemos O primeiro namorado, brigamos por causa dele. Durante anos não nos falamos e quando alguém perguntava: "Vocês não se falam?" Eu respondia: "Estamos de mal." E continuamos de mal pela vida a fora. O antigo namorado casara na cidade vizinha. Quando Sinhá encontrou-se comigo um dia antes do seu casamento e perguntou "Você não vem ao meu casamento?" "Como não hei de ir?" respondi. E nosso abraço foi longo, como para compensar os anos em que estivemos de mal. Vi tia Candoca bem vestida; fizera vestido novo de tafetá azul para a cerimônia; enfeitara-se com jóias, broche de pérolas, pulseira de ouro e camafeu, brincos pendentes. Estava erecta, bem penteada, acompanhando a noiva com seu sorriso frio. A filha, Mocinha, nunca tivera muito gôsto para se vestir; estava ao lado de tia Gandoca, num vestido de seda verde-periquito, O rosto pintado de rouge, laço de veludo no alto da cabeça. Os filhos já crescidos, sentados no banco da frente, espichavam os pescoços para ver melhor. Dois bancos atrás, viam-se Cora e Heitor, muito sérios, muito duros. Cora fugira de casa para se casar com Heitor; há muitos anos era noiva de Raimundinho e nunca marcava O casamento. Adiava sempre. Recebia O noivo, saíam juntos de mãos dadas, faziam visitas. "Quando é O casamento?" Êle respondia que Cora é que ia marcar, ela dizia que não sabia. De noite, quando O noivo se despedia e todos em casa dormiam, ela encontrava-se com Heitor no jardim. Depois começou a recebê-lo no quarto e quando O dia avermelhava do lado do nascente, êle pulava a janela e fugia. A mãe olhava Cora e dizia: "Como você está engordando, seus vestidos já não servem." Cora corava e não respondia. Um dia, quando não pôde mais esconder a gravidez, deixou um bilhete aos pais e também pulou a janela atrás de Heitor. Os pais desolados, deixaram a cidade e foram viver no sítio que possuíam nos arredores, nunca mais saíram de lá. Raimundinho sentiu no peito O desejo de vingança, quis matar Cora e morrer, procurou-a por tôda parte, mas ela estava bem oculta numa fazenda longínqua onde se casou com Heitor e teve O primeiro filho. Outros cinco vieram, homens e viveram felizes; Raimundinho sumiu no mundo, levou a dor e O desejo insatisfeito. E Sabininha? Lá estava com sua cabeça inclinada para O lado, mal vestida, sem uma jóia. Ela que tivera tantas e tanto as amara. Possuíra brilhantes e pérolas, rubis quadrados como raios de fogo e safiras redondas, azuis profundas. Foi a mulher mais rica da cidade, mas a vida, assim como tudo lhe deu, tudo lhe tirou. Primeiro roubou-lhe a fortuna; Sabininha teve de se desfazer das grandes fazendas do pai para pagar as dívidas do marido, depois do filho mais velho. Assim foi entregando tudo: bens, jóias... Cada vez que O destino exigia, ela se revoltava e resistia, depois fazia a dádiva e chorava. Quando, por último, perdeu O filho, sua cabeça pendeu para O lado e não endireitou mais; uma doença qualquer deixou-a com O pescoço torcido e a cabeça inclinada. Com um vestido escuro e velho, relaxada, os cabelos em desalinho, olhava com indiferença O cortejo que se aproximava. E lá no fundo da igreja, avistei Adélia, de azul-marinho. Contavam que Adélia seduzira O marido da irmã; esse foi O mais feio crime da cidade, quem poderia saber a verdade? Na capital, onde viviam, Adélia ia a toda a parte com a irmã e O cunhado. Um dia os parentes e amigos foram surpreendidos com a notícia de que O casal havia se separado por causa de Adélia. Ninguém acreditou. Menos de um ano depois, ela e O cunhado foram se casar no Uruguai e toda gente começou a acreditar. A filha do casal era mocinha e bonita, estava ao lado da mãe. E agora O marido, por quem ela pecara tão feiamente, vivia em outras cidades, com outras mulheres. Mais ao lado, vi Angélica e a filha. A menina de Angélica nascera aleijada. Contavam que em uma tarde de tempestade, Angélica, já em véspera de dar à luz, fora segurar uma criança que escorregara, falseara O pé e rolara uma escada de vinte degraus A filha nascera nessa noite; uma menina bonita e forte, porém com defeito na espinha. Não houve meios de curar e ela cresceu aleijada; tinha um ombro mais alto que O outro, O pescoço enterrado, capenga. Tornou-se moça desajeitada e quando andava, jogava os braços para a frente e para trás em movimentos desiguais. Era alegre e gostava de namorar, os rapazes apelidaram-na "Aviãozinho", comparando-a aos aviões pequenos de treinamento. Pobre Angélica. Muito serena ao lado da filha que sorria para os conhecidos e cujo vestido caro não lhe ocultava O defeito; todas as vezes que a moça se movia, os braços agitavam-se como asas quebradas. A meu lado, erecta no vestido novo apertado, Olga olhava a filha com olhar crítico de observador severo. Glorinha já estava perto, sempre de olhos baixos. De repente O rosto de Olga suavizou-se e sorriu francamente para as netas. Clotilde que agora só usava óculos, ocultava a emoção. O harmonio tocou mais fortemente, e O noivo deu um passo à frente e ficou ao lado de Glorinha, Zeca suspirou e entregou a filha. Começou O sermão Toda a gente se abanava com leques ou lenços, as crianças foram se tornando impacientes e pediam para sair. A mãe perguntava: "Querem alguma coisa?" Elas faziam não com a cabeça. "Então fiquem quietas e esperem." O padre falava. As pequenas puxaram O vestido de Olga, choramingaram. Quando os noivos deixaram a igreja, um pálido sol brilhava no largo e Glorinha cumprimentava para os lados, acenava aos conhecidos que se acotovelavam nas calçadas, dependuravam-se nas janelas. Na casa cheia, recebiam cumprimentos, abraços. Zeca passava O lenço na testa, suado e comovido Os amigos davam-lhe palmadas nas costas, chamavam-no sogro pela segunda vez. Olga recebia apertos de mão, dava ordens, trouxessem as bandejas, fazia sinais para as negras da cozinha: "Onde estão as bandejas de salgados?" Angélica e a filha entraram; a moça agitava as asas quebradas, abraçava outras moças. Havia gente no terraço, na cozinha, nos quartos; bebiam e comiam. As pequenas corriam tropeçando nas saias compridas, preocupando todos dando gritinhos de susto. Muitas famílias haviam levado crianças; estas perderam a cerimônia, tiravam doces das bandejas que passavam, falavam alto, as mãos lambuzadas, as bocas sempre mastigando. As pequenas protestavam que estavam pisando em suas saias; uma delas, com O vestido rasgado no ombro, reclamava esbaforida. Em vão os pais chamavam, prometiam, pediam elas escapuliam novamente e saíam correndo dando encontrões. Clotilde fazia exclamações alegres: - Mariquinhas, que saudade. Só mesmo em dia de casamento você aparece. Senti um apertão nas costas e um braço pesar no meu pescoço: - Como vai esta simpatia? Me dá um abraço, Lola. Era Cora, depois Heitor que também me abraçava de longe. Depois Sinhá que me apresentava O filho moço e explicava: Sabe que êle está estudando engenharia? Gosta de matemática como eu gostava. O rapaz cumprimentava. E Sinhá entre risadinhas, perguntava se eu me lembrava do nosso tempo. Rimos juntas. Como não? Como não? Ela suspirava, saudosa: - Mas hoje está tudo tão diferente, você não acha? Olga me chamava com veemência para um lado, queria saber se eu me lembrava do Epaminondas. O Nondas, Lola. Lembrava sim. Quando éramos crianças, nós e Nondas roubávamos jabuticabas da chácara do Antônio Matias. Glotilde exclamava da porta: - Nossa Senhora, mas ela está moça e bonita... Vítor e José Luís, dentes grandes e ares provocadores, escondiam-se por trás dos grandes e faziam caretas aos outros meninos. Na sala de visitas grupos de pessoas conversavam pelos, cantos. Homens graves discutiam política no terraço. - A lei de estabilidade veio transformar O bom empregado em mau. Não há mais estímulo. Protege O vagabundo. - Isso não. Então um bom empregado que trabalhou dez anos' para uma casa pode ser despedido de uma hora para outra? - Mas qual é O patrão que tendo um bom empregado quer privar-se dele Não há de querer perdê-lo. - Pode-se demitir O mau empregado mediante processo... - Qual O quê. Isso dá mais dor de cabeça e no fim a justiça acha que não houve causa e que se deve pagar todo tempo que O vagabundo esteve descansando... Outro grupo discutia guerra. Clotilde oferecia empadinhas amavelmente, perguntava se queriam cerveja, com este calor... Seu Raposo continuava: - Que adiantou a linha Maginot? Gastaram milhões, não se prepararam porque tinham a linha Maginot na fronteira e no entanto.. nada adiantou. - Porque desta vez a Bélgica não lutou; se ela tivesse escorado uma semana, a França não cairia. - Desta vez não adiantava a Bélgica escorar nem que fosse um mês, a França não estava preparada, não foi como na outra guerra. Seu Raposo confirmou gravemente, a França estava carcomida pela política, não se preparara, não possuía aviação eficiente, não possuía armas, por isso perderá logo no princípio. O exército francês tão valoroso em outras guerras, encontrava-se agora em farrapos, perdido. A França estava contaminada) dividida em partidos, separada pelas idéias pelo pensamento, pelos políticos, por isso a queda rápida. As crianças vinham da sala, passavam pelo terraço, brincando de esconder. Outro tinha a impressão de que a Inglaterra salvara-se da invasão por ser ilha, se não fosse isso... estaria também perdida. Não tinha aviação suficiente, e como era possível lutar hoje sem a primeira arma de guerra? - O que não posso compreender, dizia um terceiro, é como esses países que estavam vendo O perigo se aproximar há tanto tempo, ouvindo a ameaça dos totalitários, não se prepararam. Até nós sabíamos que a guerra era inevitável. Outro respondia, eram países democráticos, as democracias são lentas, não são como as ditaduras, levam tempo para preparar O espírito do povo. Roosevelt preparou O povo americano para a guerra. Alguém lembrava: - Imagine a luta entre a Alemanha e a Rússia, as duas ideologias - comunismo versus nazismo, os maiores inimigos do capitalismo. O Dr. Estêvão explicava que os comunistas e os outros extremistas eram os inimigos do capitalismo porque acre ditavam que êle era O único culpado pelos milhões de desempregados que havia antes da guerra e pela miséria que havia no mundo. Eram antagonistas Falava com voz sonora: - Li um artigo que explica: O comunismo ataca O capitalismo pela frente, O fascismo ou nazismo pelo lados, esquecem que O capitalismo em si é bom, não prejudica ninguém. Há dois capitalismos, um prejudica outro não. O bom capitalismo se resume em ter coisas, possuir bens; é natural que O homem que produza mais que O outro, possa acumular O fruto de seu trabalho. É O capitalismo benéfico e humano. O outro é maléfico, é O capitalismo dos imperialismos, da subordinação das indústrias à finança, é O que tem a moeda e manipula alterando-a em suas verdadeiras finalidades. Esse capitalismo prejudicial, é que os extremismos querem eliminar, mas O artigo diz que eliminando O mau capitalismo, eliminam também O bom, daí a desorganização completa, O fracasso. Não resolvem coisa alguma porque eles atacam os efeitos, não a causa. A causa fica. - E qual é ela? perguntaram. - Diz O artigo que é a moeda regressiva.. Se de três em três meses O governo declarasse que O dinheiro em circulação já não tinha valor, ninguém podia acumular, teria que empregar esse dinheiro em bens, comprar coisas, girar com êle, não acumular. As fortunas acumuladas é que formam O mau capitalismo e causam essa inquietação, essa miséria que sempre houve, mesmo nos países mais ricos e industriais. - Será possível? O dinheiro perder O valor de três em três meses? E quanto custa ao governo fazer dinheiro assim? Viver fazendo dinheiro? O Dr Estêvão ficou de mostrar O artigo. Houve protestos. Senhoras e moças elogiavam O vestido de Glorinha, cumprimentavam a noiva pelo bom gosto. Glorinha sorria, a cauda do vestido dobrada no braço esquerdo, agrade cia e conversava. Distribuía botões de laranjeira. Os que discutiam política e desancavam O governo, calavam-se diante dos noivos que passavam vagarosamente. Elogiavam então as famílias, boa gente, de tradição. Acompanhavam Glorinha com O olhar, gabavam-lhe a beleza. O mais entendido dizia que Inês, a filha mais moça do Zeca ia ficar mais bonita que a irmã, estava ficando um primor. Voltavam a falar da política, esqueciam a beleza. - Eu digo sempre que O que falta no Brasil são estradas, meios de comunicação. Já houve um governante que disse essa verdade e outras, por isso foi parar no exílio. Êle falava que governar é abrir estradas, essa é uma grande verdade. Alguém reclamava, esse não era O primeiro problema, havia outros importantíssimos: acabar com os analfabetos, ensinar a ler, a escrever; esse O primeiro, O magno problema, O Brasil não sabia ler. O que falara primeiro engolia cerveja, voltava: - Confirma O que eu disse. O Brasil tendo estradas, terá escolas por toda parte, terá O ensino difundido por todo O interior, terá professores mesmo nas mais longínquas paragens, mesmo nos sertões. Os governantes deviam pensar seriamente nisso, ligar por meio de boas estradas cidades e Estados unir O Norte, O Centro, O Sul: Quando eu falo estrada, falo estrada pavimentada como nos Estados Unidos, na Europa, estradas tanto nas chuvas como nas secas, estradas de verdade. Outro dizia que isso custava uma fortuna, milhões e milhões de cruzeiros. - Para fazer política há dinheiro, para outras coisas há dinheiro, por que não para abrir estradas Por que não cobram taxa de pedágio, tanto por carro? Num instante O governo receberá O que gastou e O Brasil ficará mais forte, mais rico. Vocês já pensaram no que as estradas significariam para O transporte de coisas? O que O Norte podia mandar para O Sul e O Sul para O Norte e O Centro também? As riquezas em madeira, coco, cacau, café, borracha que há no Brasil, estacionadas por falta de transporte? E tantas outras coisas? Sabem que no Paraná há uma quantidade incalculável de madeira apodrecendo há anos nas estações, por falta de vagões e sabem quanto custa uma tábua de pinho vagabundo em São Paulo? Poucos brasileiros conhecem O Norte, por quê? E se tivéssemos estradas? Viajaríamos por todo O País, conheceríamos nossa própria terra e muita gente havia de preferir isso a ir ao estrangeiro. Seria um intercâmbio formidável de idéias e de gêneros. Alguns confirmaram, seu Lúcio falou com voz arrastada, mole sim, era isso mesmo.. As boas estradas haviam de ajudar muito, tinha a filha e oito netos morando em S. Paulo; ela comprava leite, manteiga, verduras, tudo por preço alto e nem sempre bom produto, e a sitioca que êle possuía nos arredores da cidade dava bom leite, ovos, frangos, verduras, manteiga Pois bem. Êle podia mandar tudo isso para a filha, mas de que jeito? Se a estrada de rodagem Itapetininga-S. Paulo fosse mesmo das boas, em quanto tempo um caminhão cobria essa distância? Fizeram O cálculo, cada um deu opinião, entraram em acordo. Pois é, de três em três dias a filha teria em S. Paulo todos esses produtos, faria economia e ainda venderia as sobras para os vizinhos. Pela estrada de ferro não era negócio. Isso mesmo, seu Lúcio, e como O senhor tantos outros, nem tem conta. O outro voltou ao assunto das escolas; não, O Brasil precisava era de mandar ensinar a ler, e também ensinar a todos os caboclos como criar um filho, não ser tão ignorante, ensinar a comer, a comer, minha gente! O Brasil não sabe comer. Riram, comer O quê? A questão é que não havia O que comer. Êle exaltou-se: - Porque não sabem plantar; O caipira come feijão, farinha e carne seca quando tem, O que é isso para uma criatura? Enfraquece, a raça não desenvolve. Vocês que viajam por aí, me digam uma coisa, O que é que O caboclo planta à volta da casa? Nada minha gente, nada. Nem um pé de xuxu, nem couve, por quê? Por ignorância. Se êle soubesse ler, saberia que xuxu é bom para a saúde. Já vi na minha fazenda a mãe dar à criancinha pedaços de rapadura porque a criança tinha fome. Quando eu disse que aquilo fazia mal, respondeu que criara os outros assim. Mas os outros O que eram? Uns molambos de gente. Vivem numa miséria horrenda e nunca receberam tanto dinheiro como agora, mas não têm nada. Você entra numa casa daquelas, vê só pobreza; minha filha foi dar injeção numa criança, não tinha mesa para ferver a agulha teve que ferver no chão. E no entanto eles têm terra para plantar, plantam pouco e só milho, feijão, quando poderiam plantar incuto mais. Também, penso às vezes para quem comprar? O das estradas voltou, triunfante: - Se houvesse boas estradas, venderia O produto da terra nas cidades próximas. Isso é verdade, confirmaram os outros. O fazendeiro continuou: - O maior defeito deles é que não criam raízes, são verdadeiros nômades. Hoje estão trabalhando na minha fazenda, amanhã vão para outra, e assim vão vivendo. Não a criam raízes. Seu Lúcio sentenciou: - Pedra que rola não cria limo. . - E são doentes, maleitosos, têm tracoma, vermes, O diabo. Era preciso que O governo criasse uma Brigada da Saúde e mandasse percorrer O interior e ensinar nossa gente a comer, plantar e criar filhos. Teimava O apologista das estradas: - O território de Mato Grosso é maior que a Holanda, centenas de léguas de matas e campos sem estrada de ferro, sem ligação alguma; O avião não resolve, não pode trazer carga, fica caríssimo, era preciso estradas pavimentadas cortando esses sertões, unindo tudo. Aí O Brasil ficaria grande, não só em território. - Ficaria caro do mesmo jeito, a não ser que tivéssemos gasolina. - Temos gasolina, como não? O próprio Mato Grosso tem petróleo, a questão é explorar.. - Se tivermos gasolina, talvez teremos de pagar cinco cruzeiros O litro, O governo lançaria tantas taxas que atrapalharia tudo. Quanto custa uma garrafinha de água Caxambu? E vem de Minas, pertinho. O ferro nacional era mais caro que O estrangeiro, agora está mais barato porque O estrangeiro, dizem, está com impostos fortíssimos. Assim a gasolina, - de qualquer jeito pagaremos mais caro a nossa e a que vem dos Estados Unidos, que vem de longe, sairia cara por causa dos impostos, de qualquer maneira não é negócio... Seu Lúcio deu uma risadinha: - Falam em abrir estradas, pois se nem as ruas de S. Paulo estão abertas para O trânsito. Outro falou: -. Outro dia ouvi uma enfermeira falar no rádio em S. Paulo; disse que graças ao governo a vida havia melhorado muito para a classe dela, nunca havia ganho tanto, nem tido tantas garantias como agora. Esqueceu-se de que um par de sapatos que ela comprava por cinqüenta cruzeiros custa agora quatro vezes mais, que a comida subiu, que O vestuário subiu, a moradia subiu e ela continua tão pobre como antes. O povo não enxerga isso, só enxerga que recebe mais nota no fim do mês e fica iludido, agradecido. Jamais ganhou tanto, mas também jamais gastou tanto. Pura ignorância. Na roda que discutia a guerra, O Dr. Estêvão falava: - Desde a era feudal, O mundo vem se transformando rapidamente. Na Idade Média, havia os barões feudais e O poviléu. Depois isso desapareceu, ficou a aristocracia e a plebe que a revolução francesa derrubou. Veio a era da burguesia; hoje quem domina é O burguês. Na Rússia não, é O proletariado derrubaram também O burguês. Vejam por que transformações O mundo tem passado; tem passado por uma peneira. Que veremos mais? - Nós talvez não, mas nossos filhos e netos O que hão de ver ainda? O das estradas conseguia convencer os do outro grupo: - Com estradas haveria facilmente escolas, haveria professores, haveria civilização, jornais. Estradas pavimentadas salvariam O Brasil. - É um país novo. Tenho a impressão que está como que fermentando. É um fermento que está crescendo aos poucos. Teremos estradas e tudo mais. O brasileiro é inteligente. Nisso é que está O mal. O Brasil tem fama de rico, é O que se aprende nas escolas: ouro, ferro, pedras preciosas, madeiras de primeira qualidade, tem tudo. O brasileiro é inteligente, pronto. Ficou com a fama e dormiu. Alguns riram. - Todos os países novos são assim, muita bravata, muita prosa, muita esperança, muito desperdício no começo, depois virá outra fase, a fase dos empreendimentos, então teremos um grande país, não só em terras. - Se Deus quiser, alguém falou. Clotilde auxiliava Glorinha a trocar de vestido; abo toou a blusa errada trocando os botões, teve que desabotoar para fazer tudo de novo. As amigas de Glorinha, foram entrando sem cerimônia, examinavam os presentes sobre a cama. Crianças espreitavam pelo vão da porta e corriam. As amigas contavam casos, liam os cartões dos presentes, examinavam O vestido de noiva sobre a cadeira, comentavam. Passavam pessoas com as mãos cheias de arroz; Vítor dizia a José Luís: - Jogue bem na cabeça deles, bem na cabeça. Os homens esqueceram novamente a política e a guerra. O casal passou depressa procurando esconder os rostos entre os braços levantados, numa saraivada de arroz e gritos, Olga estava com os olhos úmidos, Zeca sorria. Partiram. Os convidados despediram-se e deixaram a casa, apressados. Olhamos as salas vazias, papéis de bala pelo chão, pedaços de doces pelos cantos, copos esquecidos sobre os móveis. Zeca olhou tudo meio desanimado, coçou a cabeça, passou O braço pelo pescoço de Olga que chorava baixinho; - A debandada continua, minha velha. Há de chegar O dia em que O ninho ficará vazio. Inês juntava cálices e copos numa bandeja; passava dançando e equilibrando, sua cinturinha volteando no ar. Vitor chutou um pedaço de empada. De repente vozes se elevaram na cozinha, ruído de tapas, imprecações. Que seria? Vítor passou correndo perseguido por Inês. - Será possível, meu Deus? falou Zeca com voz de choro. Clotilde veio atrás, acalmou-o: - Não é nada, Vítor chamou-a de "rainha morta", ela ficou furiosa. Ouvimos Vitor dizer várias vezes: "Olha a Inês de Castro, a rainha morta... " E os gritos de Inês. Trabalhamos para pôr a casa em ordem; bateram treze horas no relógio da sala. As rosas amarelas a se balançarem no terraço, alguém perguntou: - Onde estão as pequenas? Foram encontrar uma delas deitada no sofá, dormindo com um dedo na boca, O vestido amassado e sujo de geléia. A chuva recomeçara a cair. Silêncio na casa do largo. Sentadas no terraço Clotilde e eu conversamos serenamente. Esquecida por momentos do trabalho, as mãos vermelhas, grossas, Clotilde começou a se queixar de Olga, dos sobrinhos. Olga era culpada, única culpada, não sabia educar aquelas crianças; era mole, elas faziam O que queriam. Zeca, coitado, tinha a farmácia, a vida dele era apertada, mas Olga? Deveria ser mais enérgica, ora esta. Olhava as rosas. Tinha a escola, era verdade, mas só três horas de aula por dia, O resto do tempo em casa, mas qual, era mole por natureza. Com os mais velhos fora autoritária, danada para os mais moços era aquilo que se via. Ela procurava não ser pesada, ganhava dinheiro com as tachadas de doces, ou marmelo, ou goiaba, bananada, figada; Deus a livrasse de ser pesada, enquanto tivesse forças, seus braços haviam de trabalhar. Mostrou as mãos calosas; olhe os calos. Fêz uma pausa, depois continuou dizendo que os meninos não a respeitavam, imitavam-lhe O modo de rezar, de falar; Olga em vez de zangar-se, ria, imagine. Uma vez estava descascando goiaba, e quando viu, Vítor estava atrás imitando-a. Ficou indignada, Olga também riu e na hora do almoço contara a Zeca, contara mesmo, desaforo Clotilde movia as mãos, abria e fechava os óculos a ponto de os quebrar, nervosa. Os meninos eram insuportáveis, não obedeciam nem O pai, eu não havia reparado? Endiabrados. Houve um silêncio, baixou a voz para perguntar: - E Alfredo? Não teve mais notícias? - Não. - Que coisa. Houve tempo que êle escrevia, cartões com poucas linhas, mas dava notícias. - Veio a guerra. Ficou papuda de raiva: - Por isso é que tenho ódio de guerra. Maldita. Por que há de haver guerras? Mortes, doenças, vida difícil, fome, tudo por causa dela, tenho ódio. Fungou, fêz cara de nojo: - Mas Alfredo há de voltar, qualquer coisa impede-o de escrever, mas êle volta. Não pensa assim? As rosas amarelas balançavam-se na grade de ferro; falavam de Alfredo cochichando, como se êle tivesse morrido. Ninguém perguntava em voz alta, cara a cara, com firmeza, com franqueza: "Como vai Alfredo? Tem tido notícias? Quando volta?" Clotilde estava ocupada na cozinha; Olga ao meu lado conversava. Comentou a beleza do dia, falou da festa do casamento, da chuva. Ouvimos a voz de Clotilde chamando Inês na cozinha, Olga pegou O assunto; perguntou se eu havia reparado na predileção que Clotilde tinha por Inês. Antes que eu respondesse, falou que toda a gente notava e achava as duas parecidas, eu também achava? Abri a boca para responder, ela continuou, Clotilde era boa, ajudava-a a criar os filhos, mas também tinha seus defeitos, quem não os tinha? Com toda aquela bondade, ela perturbava a educação que ela gostaria de dar aos meninos. A princípio Zeca se aborrecera, depois não se importara mais. Clotilde fazia todas as vontades dos sobrinhos. Inês, então, era a predileta. O vestido côr-de-rosa de seda cara? Presente da tia. Aquele outro de pintinhas? Presente da tia. Tudo, tudo. O lucro dos doces ia em presentes para os sobrinhos, acostumava mal as crianças, isso não se faz. Vítor quis uma bola grande, a tia deu. Zé Luís quis um sapato para jogar futebol, a tia comprou. Agora estava ajuntando dinheiro para dar uma bicicleta aos dois. As bicicletas estão caríssimas, mas ela compra. - Imagine, até bicicleta. A mão de Olga, gorda e pálida, volteou no ar. Clotilde fazia mal, mimava-os muito. Já lhe chamara a atenção tantas vezes e nada adiantara. Olga fez uma pausa e disse um não enérgico ao homem que oferecia frangos no portão. - Uns frangos magros, pelados, doentes. Pedem um dinheirão. As tias Clotildes queriam auxiliar e atrapalhavam, por isso os filhos dela eram assim mal-educados, que havia de fazer? Clotilde era culpada; todo castigo que Zeca ou ela gostariam de infligir aos filhos, a tia vinha logo intervir que não, eles não fariam mais, prometiam. Uma pena ela não se ter casado. Olhou as rosas, fêz uma pausa, queixou-se da gordura, tinha que fazer um regime qualquer, tirar uns quilos, estava muito gorda; depois, confidencial: - E Alfredo? Não teve mais notícias? - Nunca mais. - Que pena. Sabe que dos seus filhos sempre achei Alfredo O melhor? Mais simpático, mais carinhoso para todos. Olhe Julinho: nunca mais nos procurou nunca mais nos visitou. Ficou rico, importante, esqueceu-se de nós. Nem nos participou O nascimento dos últimos filhos Alfredo nunca se esqueceria, era delicado, bom. Para você foi um ótimo filho, eu me lembro; deu algumas dores de cabeça, mas era bom menino. Elogiavam Alfredo com insistência, como se êle tivesse morrido, só se elogiam assim os mortos; quando êle estava em casr ninguém se lembrava dessas coisas. Ouvimos gritos no quintal; Olga sobressaltou-se e escutou melhor. Não se mexeu. Que será? Vieram correndo, acompanhando Vítor que chorava e mostrava O braço. O corpanzil de Olga movimentou-se, que foi meu filho? Vítor caíra do muro. Clotilde estava branca, segurando O braço do menino. Zeca chegou correndo da farmácia, fraturou? Vamos para a farmácia. O braço estava inflamando, Clotilde perdeu a hora da reza, não houve fratura, Vítor chorava e punha a cabeça no colo da tia. - Mais compressa quente, titia. A tia punha compressa, acarinhava, falava, isso passa, isso passa. Dava-lhe sopa às colheradas se queria mais, se queria O doce de goiaba que estava fazendo, coçava-lhe a orelha. Clotilde estava feliz, alguém precisava dela, dos serviços, das horas, do tempo dela. Alguém exigia sua presença, não a deixava dormir, nem descansar, que bom. Na véspera da minha partida, disse a Olga que gostaria de levar Clotilde para S. Paulo, descansar. Queixava-se sempre do reumatismo. Olga olhou-me interrogando. Se eu queria levar Clotilde? - Meu Deus, Lola, ela é meu braço direito, é tudo nesta casa, não viu como foi dedicada quando Vítor se machucou? É sempre assim, as crianças não podem passar sem ela. Ficou me olhando, admirada por eu não ter percebido a eficiência de nossa irmã. E rematou: - Convide e leve-a, se ela quiser. Clotilde não quis. Iria mais tarde, Vítor ainda não estava completamente bom, a ausência de Glorinha entristecia a casa, Inês precisava de vestidos, José Luís precisava de camisas, mais tarde, mais tarde. As rosas amarelas balançavam-se ao vento da tarde. ficaram minhas irmãs na vidinha de interior fazendo doces, ensinando amostras, recebendo visitas de D. Carola, ralhando com as crianças, Clotilde com um chalinho preto na cabeça, correndo para não perder a missa, Zeca de quatro no chão para as netas sentarem nas suas costas, correndo da casa para a farmácia, remédios, desinfetantes. Seria sempre assim até a morte chegar para cada um. Glorinha, Inês, a filha casada, Vítor, José Luís seguiriam a mesma rotina. As pequenas também. Envelhecendo sentados nas cadeiras do terraço nas tardes amenas, olhando as rosas. Clotilde visitando os pobres e doentes, levando consolo aos que precisavam, ensinando orações aos que não sabiam. Fazendo novenas. Pedindo hortênsias a todas as crianças da cidade para enfeitar O altar da Capela do Santíssimo, ajoelhando-se contrita e cantando a ladainha acompanhada por toda a Irmandade: "Mater Prudentíssima - Ora pro nobis." Zeca recebendo os amigos na farmácia para dois dedos de prosa: discutindo política, contando novidades, falando mal do governo, comentando a guerra, mostrando os erros, corrigindo, consertando. Sentados nos bancos da farmácia ou de pé, encostados à porta, êle e os amigos corrigiam a humanidade e salvavam O mundo todas as tardes. A noite caindo lentamente no largo amigo, todas as noites seriam iguais. , Voltei, enfim. Distribuí pacotes de doces, muita coisa por fazer; Rousseau em todas as bocas desde manhã as roupas das crianças precisando de reforma, Lena crescidinha. Sílvia estava estudando piano, haviam alugado um piano, e tinham professora uma vez por semana. Já tocava escalas e quando a professora dizia 1 oqué um lá, ela tocava um dó. Toque um fá, ela tocava um ré. Tio Damião fizera um novo verso. Perguntei se não havia cartas para mim. Carta? Espera alguma? Não, perguntei à toa, por perguntar. Sílvia abria e fechava os dedos para alcançar as oitavas, dizia que O exercício é bom, os pintassilgos cantavam quando ouviam as escalas. Dó-ré-mi-fá-sol-lá-si. Perguntei por perguntar. Que bobagem, não posso perguntar? No sábado tiu Damião veio com Anatólio, distribuiu rosas, cantou Camilo; trouxe também O lado bom do Cosme. O mau ficou esquecido esta vez. Lembrou, acarinhou, O lado bom. Excelentíssima. Excelentíssima. Falou muito em Janina, a filha da sua imaginação. Durante muitos anos, êle e a mulher esperaram a vinda de Janina, discutiram-lhe a côr dos olhos, desejaram, ânsiaram. Foram envelhecendo. Um dia, depois da morte da esposa, êle declarou que se não fosse a filha, sua velhice seria muito triste, mas tinha Janina que O acompanhava sempre e sem a qual não poderia viver. Felício atreveu-se a perguntar a idade de Janina, êle pensou um pouco e disse que estava com vinte e dois anos. Isso mesmo, vinte e dois. Anos depois, a moça estava ainda com vinte e dois, às vezes vinte e cinco. Falava nela, moça sensata, ajuizada, não é como essas cabeças de vento por aí, nunca me deu um desgosto, um aborrecimento. Sempre em casa bordando, não quer saber de namoros, leviandades. Sua pele é como um cetim, e é corada, sabem esses pêssegos que principiam a amadurar do lado do sol? Tem pele assim, e os olhos? Os olhos da minha Janina são como as noites sem lua, têm O brilho das estrelas que surgem na noite escura. Dedicava versos e músicas à filha, falava nela durante horas. Lia alto para ela ouvir, iam juntos à igreja todos os domingos, de braço. Janina manda lembranças. Por que não a trouxe, tio Damião? Uma amiguinha foi passar O dia com ela. E êle raramente aceitava almoço ou jantar, não podia deixar a filha sozinha. Cultivavam juntos os canteiros, Janina era alegre e gostava de cantar. Chamava-o paizinho e êle dizia - minha filhinha. Era enternecedor ouvi-lo falar na filha. Às vezes dizia: "Quem me ouve pensa que sou louco." Ria-se com a idéia e continuava a falar na filha, felicíssimo. Uma vez por ano, em maio, tio Damião anunciava uma semana antes: - Não se esqueçam, terça-feira próxima é aniversário de Janina, espero-os para O chá. Os dias de aniversário variavam, mas era sempre em maio e nunca era sábado, nem domingo. Isabel, eu e as crianças íamos para casa da Mooca, êle nos esperava no portão, sorridente. A casa cheia de flores nesse dia, a mesa arrumada com toalha bordada, havia um bolo encomendado na confeitaria, havia sanduíches e chá. O principal eram os "sonhos" que tio Damião fazia na hora de servir e vinham ainda quentes, macios, acompanhados de calda grossa e espêssa. "Como estão fofos, deliciosos, tio Damião." Êle esfregava as mãos: "Feitos por Janina, tudo O que ela faz é perfeito." Tornava a esfregar: "Perfeito." Dando para a copa, próximo ao quarto de tio Damião, havia um quartinho que podia servir de despensa, era O quarto da filha. Tinha um pequeno sofá, uma mesinha ao lado coberta com toalha bordada, um vaso com flores, livros e no fundo, encostada à janela, uma sapateira coberta com toalha igual à da mesinha. Se se levantasse a ponta da toalha, não se via sapato, era a sapateira de Janina. Depois do chá, íamos para lá conversar, ver O quarto. Numa prateleira na parede, estavam enfileirados os livros preferidos da filha; êle nos mostrava um por um, explicava: - Quando ela era menina, adorava os livros de Mme. de Ségur. Ih, os de Júlio Verne, também, agora gosta de outros Com a idade a gente vai mudando. Lá estavam eles, manuseados, Janina devia ler muito, ah, ela gostava de ler, desde meninazinha. Contava que à noite conversavam juntos, ali no quartinho, ela no sofá, êle najcadeirinha baixa perto da janela. De vez em quando, ela ria alto, contente, êle até se assustava, tudo era tão silencioso na casa. "Janina, venha tomar O leite antes de dormir." Isabel a princípio teve suspeitas: - Impossível, Felício, essa Janina deve existir em qualquer lugar. Êle fala tanto nela. Mas passaram-se os anos e Janina só existia na imaginação de tio Damião. Era como um sonho bom, enternecedor e vivo; Janina era sempre moça, bela e pura, tinha sempre vinte e poucos anos, nunca dera um desgosto, filha adorável com pele de pêssegos e olhos negros. Êle mandava bordar toalhas por bordadeiras peritas e nos mostrava, olhe que beleza, bordado de Janina; sobre as cadeiras, em todas as mesinhas, na sapateira, havia toalhas bordadas pela filha. E quando êle passava as tardes perto da janela olhando a rua, Janina ao lado bordava, bordava, fazia coisas lindas; que mãos primorosas Quando êle pegava a rabeca, dizia que fizera aquela valsa para O aniversário da filha; ficava de pé muito sério, preparava a rabeca sob O queixo, segurava O arco, olhos fixos no espaço, levantava a ponta do pé direito para marcar compasso. Começava, uma pancadinha no chão e duas no ar, uma para a direita, outra para a esquerda - um, dois, três. Um, dois, três. Quando tocava polca havia quatro compassos, dois no chão, dois no ar. O jantar era sóbrio. Êle dizia: "Fique aí, Janina, eu mesmo vou preparar." Estendia a mesinha, aquecia O leite, O café, cortava O pão e O queijo em fatias finas, passava manteiga, abria a lata de bolachas. "Pronto filhinha". Comia fazendo comentários sobre O tempo, os vizinhos, raramente sobre a guerra, para que lembrar aquele horror? Êle tornava a se levantar, já mostrei O último bordado feito por Janina? Estendia-nos a toalha, examinávamos, elogiávamos, uma beleza. Ela borda muito bem sempre gostou de bordar. Perfeição. À saída, depois de festejarmos os aniversários, recebíamos rosas, enviávamos beijos a Janina, íamos esperar O bonde. Eu então ouvia tio Damião chamar a filha e iam juntos tirar a mesa, lavar a louça, guardar, e êle a dizer: - "Mais um aniversário, hein filhinha? Sabe - Janina? Você não envelhece, filhinha, você é sempre a mesma sempre moça". Os olhos da minha Janina são como as noites sem lua têm O brilho das estrelas... Enxugando a louça e cantando, tio Damião era feliz, feliz. "Quem me ouve, pensa que sou louco." Ria, felicíssimo...._. Ainda de madrugada, eu ouvia ruídos na cozinha, juntamente com O chilrear dos pássaros; perguntava com os olhos fechados: - "É você, Alfredo?" Êle enfiava a cabeça na porta: - "Bom dia, mamãe, que tal um cafezinho quente?" "Bom dia. Está acostumando mal sua mãe..." - "Por causa do café quente?" - "Por causa de tudo, nem parece que você veio da guerra." Êle assobiava e acendia O fogo, eu continuava de olhos cerrados, escutando. Ouvia-o assoprar, a lenha estava úmida, custava um pouco. Ponha um pouco de álcool, Alfredo, só um pouquinho. Ouvia-o destampar a garrafa, entornar O álcool, riscar O fósforo. A chama subia, crescia, percorria a madeira, O fogo estava feito. Alfredo assobiava, enchia a chaleira de água, colocava-a sobre O fogão; abria a porta da cozinha, espiava O céu, a madrugada surgia avermelhando O horizonte. De mãos nos bolsos, êle percorria O quintal, assobiando, não parecia ter vindo da guerra, tão alegre sempre. Menino alegre. Eu sorria, as cobertas aconchegadas no meu peito, imaginando O frio àquela hora, sem coragem, sem coragem. Alfredo colocava as gaiolas na parede de fora, falava com os pintassilgos, dava-lhes comida. Entrava e fechava a porta, ia espiar a água, quase fervendo. Preparava as xícaras sobre a bandeja, procurava as colherinhas, estão na gaveta da mesa, isso, na gavetinha, nunca aprende. Enchia O açucareiro, cuidado, economia no açúcar. Tolice, a guerra acabou, não acabou? Não há mais racionamento. Tinha-me esquecido, é verdade. Sempre assobiando, Alfredo coava O café, eu sentia O cheiro do café fresco caindo nas xícaras. Você escaldou as xícaras? Naturalmente, naturalmente. Uma leve pancada na porta do quarto, pronto D. Lola, O café está servido. Ouvindo-lhe O riso, eu também ria; sentava-me então na cama e me espreguiçava, estou ficando como tio Damião, estou ficando como tio Damião. Inclinava a cabeça para ouvir a voz de Alfredo, em vão procurava ver-lhe O rosto na porta, não ouvia O assobio, nada. Tio Damião, tio Damião. A cozinha fria e deserta, no fogão só havia cinzas e através do vidro da janela, O quintal imerso ainda em sombras, somente os galhos das árvores a se balançarem, a se moverem tristemente. Alfredo, eu vou para a fila da carne, vá descansar, vá se deitar, você veio da guerra. Eu vou, estou acostumada a me acordar cedo, ora esta, sempre fui assim, fique dormindo, descansando. Eu gosto, sempre gostei, já disse que estou habituada. Cansada? De quê? Não sabe que sou velha forte? Sou como essas árvores que resistem a tudo no meio do caminho, às tempestades, às chuvas de pedra, aos raios, aos lenhadores que de quando em quando cortam os melhores galhos, ao tempo. Sempre fortes, altaneiras, com novos galhos, seiva nova, brotando em todas as primaveras, protegendo os ninhos, espichando folhas para todos os lados, muito verdes, protetoras, hospitaleiras. Não ria com minhas comparações, mas sou a árvore forte que há na beira dei todas as estradas. i Acha graça? Fique descansando, depois do cafezinho quente é bom dormir mais um pouco, imaginando que lá fora está fazendo frio e você está no quente, no calorzinho da cama. Você até se esquece que veio da guerra, oh guerra danada, matou tanta gente, mutilou, aleijou, você está aí forte e alegre, Deus protegeu, teve dó. Sim, tudo terminou, estamos tranqüilos de agora em diante. Vida nova. Você agora vai ficar conosco, trabalhar, casar... Por que você não quer casar? Case-se com uma moça distinta, constitua seu lar, você que foi sempre meio boêmio, meio aventureiro. É isso mesmo, aventureiro. Não dá para a vida caseira? Nem diga isso, dá sim, tenho a certeza, O tempo das aventuras já passou, agora vem a idade madura, a idade do juízo, vamos ter um Alfredo diferente, calmo em casa, com sua mulher, seus filhos. Quero que você compreenda que nada no mundo vale tanto como uma afeição sincera. Um grande homem que não me lembro agora O nome, já escreveu isso: "Nem a glória, nem O dinheiro, nem O sucesso na vida valem tanto como uma verdadeira afeição. A amizade de um filho, ou de uma mulher ou de um amigo ou de um irmão, uma amizade que você possa contar com ela, ter certeza que pode contar com ela a qualquer hora, que possa chegar e dizer: "Estou em aflição e quero que me ajude." Isso é que vale. Olhe, O dinheiro nem sempre traz felicidade, já tenho visto famílias se desmoronarem por causa do dinheiro, tenho visto irmãos se odiarem, tenho visto discórdias, separações, suicídios, mortes por causa de dinheiro. Glória? É tão passageira, tão efêmera., Você mesmo que esteve na guerra, que combateu para libertar os povos escravizados, que lutou em nome da Liberdade é considerado hoje um herói. Mas amanhã quem se lembrará disso? Ficará esquecido, será somente O soldado que veio da guerra, que lutou, ou nem isso, todos esquecerão O que você fêz. O tempo passa e as gentes esquecem depressa. E uma boa amizade? Quanto não vale? Por isso eu quero que você case, forme seu lar, sua casa. Os idealistas como você são os que mais precisam de lar, não sabia? E quero que tenha filhos, não vê como ajudo Isabel a criar os dela? Ajudarei a criar os seus também, gosto tanto de crianças, e depois são meus netos, dormirão no meu quarto, não darão quase trabalho, vai ver. Seremos felizes, viveremos todos juntos e quando eu fizer setenta e cinco anos ou setenta e seis, daí por diante, quem sabe viverei até oitenta Julinho virá do Rio com a tribo como êle diz, e festejaremos todos juntos, a família aumentada, numerosa unida. Todos juntos, Alfredo, como no tempo da Avenida Angélica, juntos de novo, unidos. Os mortos terão os lugares ao nosso lado como se fossem vivos. Virá um bolo grande na mesa, um bolo de aniversário com uma porção de velinhas, todo enfeitado de branco e vocês dirão: "Vamos ver se mamãe é capaz de apagar todas, todas de uma só vez." Estarei muito trêmula, é verdade, toda trêmula e cansada, como a árvore do caminho que já viveu muito e deu muita sombra, mas apagarei as velas, oh, sim, terei forças para assopra-las duas, três vezes até que todas tenham se apagado e vocês à minha volta baterão palmas e dirão Viva mamãe. Sílvia tocará uma música em minha homenagem e os netos dirão batendo palmas Viva vovó. Hei de sorrir, achar tanta graça, você sabe que nunca me fizeram uni bolo de aniversário? Eu já fiz muitos mas não para mim, para vocês quando eram crianças, agora para os netos. Também hei de bater palmas com minhas mãos secas, mirradinhas como folhas amarelas, mas hei de rir vendo vocês todos juntos e reunidos, a festejarem minha velhice, minhas rugas, meus cabelos de algodão Viva mamãe. Fique dormindo, descanse, você veio da guerra, quem vem de uma guerra precisa dormir, descansar. Estou habituada a levantar cedo, gosto das madrugadas, sempre gostei. "Como tio Damião, como tio Damião." O que estou falando? Nada, brincadeiras; de um lado O céu está côrde-rosa, do outro lado está azul. Se está bonito? Lindo, um céu lindo. Sinto um friozinho, vá descansar meu filho. - Oh meu filho, onde estás? Sílvia aprendeu a primeira música; seus dedinhos andavam, voltavam, ficavam indecisos, firmavam, corriam, paravam. Os irmãos chegavam perto do piano, ficavam olhando. Como é O nome da música? Pour Élise. Os dedinhos corriam. A professora dizia que queria a posição bonita, os dedos curvos, assim. Recomendava antes de sair: - Não se esqueça, técnica todas as manhãs. Exercícios e escalas pelo menos duas horas por dia. Isabel ouvia com atenção, a professora havia falado em ouvido absoluto. Que seria? Se ela tivesse ouvido absoluto? Ficava olhando as orelhas da filha, querendo descobrir. Outro dia a professora falava em liberdade de ritmo; Isabel franzia a testa e enquanto dava de mamar, pensava na liberdade de ritmo. Que seria? Impacientou-se, pergunte para a professora O que quer dizer; imagine, está aprendendo música e não conhece esses termos. - Sílvia, toque Pour Élise. Eu mexia a panela, Pour Élise deslizava, corria, saía pelas janelas, entrava pela porta da cozinha, subia ao teto, sentava-se na mesa, dava um passeio no jardim. Pulava sem ritmo, depois ficava séria e andava bem direitinha marcando passo: um dois, um, dois. Travessa, alegre, não parava, enchia a casa com seus sons, suas peraltagens. Às vêzes subia pela fumaça do fogão, menina levada, tornava a descer dando uma risada das travessuras que fazia, a risada parecia uma escala parava um pouco e marchava feito soldado: um, dois, um, dois. Eu tinha vontade de perguntar: Não está cansada, sua levadinha? Fazia piruetas em cima do fogão, olhe que você se queima. De repente sentava-se na mesa da sala e fazia Lena mostrar O primeiro dentinho numa risada, depois saltava como se estivesse pulando corda, depois safe outra vez e dava corridinhas loucas pelo jardim, espiava pelas frestas das portas, olhava os meninos, olhava Isabel, saía correndo e rindo, de repente parava cansada e ficava quieta, silenciosa como se fosse uma santinha. Santinha, hein? Os dedinhos de Sílvia foram ficando mais ágeis e firmes, Pour Élise se desenvolvia. Às vezes ainda hesitava Toque um dó, ela tocava mi. Por que não toca dó? Vinha uma lá. Tocou no aniversário do pai, êle se entusiasmou: Formidável. - Beethoven não é aquele músico alemão que ficou surdo? Que todo pianista célebre toca em concertos? E Sílvia já toca música de Beethoven? Mas há quanto tempo ela está estudando? Êle e Isabel fizeram as contas nos dedos. Tio Damião esfregou as mãos, a sobrinha ia ser pianista, estava se vendo, tinha, como êle, O mesmo pendor pela música. Em três meses tocava Beethoven, haviam de tocar juntos muitas vezes. Levantando a cabeça e coçando O queixo, começou:"Há no caminho da vida, muitas paragens alegres, se O caminheiro as sabe ver com os olhos já cansados de perseguir as fugitivas ilusões..." Voltando das alturas, olhou-nos com ar piedoso: - Isto é Camilo puro. Felício disse que os filhos dão grande satisfação, contou aos colegas do Departamento que a filha estava estudando música de Beethoven, um colega chamado Emílio disse que ia um domingo a nossa casa para ouvir Sílvia tocar. Diante dos amigos O pai elogiava a filha, que ia ser i pianista, era uma boa menina, ajudava todos em casa e ainda arranjava tempo para estudar piano. Os compadres vinham almoçar aos domingos, Sílvia ficava ruborizada com os elogios, procurava agradar O pai, ia buscar cigarros, cerveja, ia depressa. Depois do almoço, ainda na mesa, Felício e O amigo lutavam; os cotovelos apoiados na tábua lisa os nós dos dedos brancos pelo esforço, os meninos de lado admirando O pai forte. Quando perdia, Felício ficava exasperado, não se conformava, provocava Quer luta livre Isabel pedia, não, mais tarde, poderiam se machucar. Tiravam as camisas, nus da cintura para cima, fincavam os dedos nas carnes das costas, feito tenazes. A princípio pareciam leves, ágeis, depois começavam a arquejar; O suor escorria-lhes pelo corpo; arfavam, gemiam, estrebuchavam, sapateavam no mesmo lugar. Quando um ia perdendo as forças, adquiria-as de novo, mais vivas, retesava os músculos, as veias cresciam no pescoço, saltava nos pés, desviava. Apertavam-se as carnes comprimidas espirravam por entre os dedos brancos de esforço; depois mudavam de lugar aos poucos, iam virando, torneando O corpo, inclinando O busto para a frente, para O lado. Arquejavam. Parecia um arco, O arco endireitava de novo, firmava, enrijecia; O outro fraquejava por segundos, firmava novamente cada vez mais certo de vencer. O suor pingava-lhes pelos rostos, cegava-os, os cabelos grudavam-lhes nas cabeças, viravam pasta Davam impressão de invencíveis, como bois lutando num campo, animalescos, brutais. Parecia luta de morte. Felício, por favor. Era a voz de Isabel sem convicção, enfraquecida. Felício, pare com isso. Surdos e cegos, caíam, levantavam, grunhiam como bichos. As duas mulheres cada vez mais aflitas: Almoçaram tanto, pode fazer mal... Felício acabava vencendo, O amigo caía extenuado na grama. - Toque Mi bemol. Não, esse é Si bemol falei Mi. Por que tocou Dó? Este é Fá. Toque Ré bemol. Agora Si. E O Fá sustenido onde está? Por que não tocou certo? Toque Lá, vinha um Dó. Quando a professora saiu, Felício chamou Sílvia: - É assim que você estuda Assim que corresponde aos meus esforços? Faço serviço extra de noite para esta menina poder estudar piano olhem que lição ela deu hoje. Péssima, ouvi tudo. Os olhos de Sílvia bilharam de medo, os lábios embranqueceram, começou a tremer, Isabel veio lá do quarto. - Papai, eu estudo, eu estudo duas horas por dia. Pergunte para vovó. Uma tapa na cabeça. Soluços. A voz de Isabel implorando, não batesse na menina, não fizesse isso, Sílvia estudava todos os dias. Aproximei-me. Fui falando depressa, ,fi dando tempo ao tempo. - Ela estuda duas, três horas por dia. Às vezes acontece que a lição não está boa, é por causa da escola, dos outros estudos, lá puxam muito por ela. Está em véspera de exames... Mais tapas, mãos fortíssimas, de ferro, de bronze. Felício, por favor. A voz de Isabel nunca foi ouvida; Sílvia dava gritos finos, agudos de medo, tremia, conhecia a força daquelas mãos. - Eu estudo papai, juro que estudo. Eu juro.... Cobria a cabeça, O rosto com os braços, coitadinha, suplicava, implorava, por favor, lágrimas, bebia lágrimas. Felício, Felício... Sílvia cambaleava. - É assim que corresponde, hein? Trabalho noite e dia, é assim? Isabel deixou Lena no chão, avançou para O marido. Por favor, não faça isso. Levou um empurrão; segurei-o pelo braço, era como se segurasse ferro, finquei os dedos, puxei, chamei, não bata em Sílvia, não bata. Papai, eu juro, papai... Êle continuava a bater, Isabel e eu avançamos, lutamos os três. Eu tinha ímpetos de derrubá-lo, puxar-lhe as pernas, fazêlo cair. Fui tomando gosto na luta, adquirindo forças vontade de morder, bater. Lembrava da luta de domingo, queria imitar. Força. Força. Êle roncava para mim: - Não se atreva, não se atreva. Não me atrever? Então pensava que podia bater na minha neta? E eu ficar assistindo? Puxava-lhe O braço, desviava a tapa, segurava-lhe a mão, empregava força, suava. Não pôde bater mais devido à nossa intervenção, largou Sílvia com um soco nas costas. Voltou-se furioso para nós, os olhos fuzilantes de ódio, ganiu para meu lado: - Da outra vez, procure não se intrometer na educação que quero dar aos meus filhos. Entrou no quarto, bateu a porta. Muito bem. Muito bem. No domingo seguinte, os compadres vieram almoçar de novo. Êle elogiou Sílvia, menina trabalhadeira, tocava cada vez melhor, estudiosa. Boa menina. Os compadres felicitavam, davam parabéns, ela sorria, ruborizava-se e corria para trazer cerveja, cigarros para O pai, depressa, depressa. De noite, na cama, esticava os dedos durante muito tempo para fazê-los crescer, alcançar as oitavas. - Eduardo, você precisa estudar. - Estou estudando, vovó Lola. Isabel fêz pão de macarrão, a comadre havia ensinado, ninguém comeu, duro como pedra. Quando O marido chegou, ela procurou esconder os pedaços. Felício perguntou: - Isso é pão? Tomou um pedaço entre os dedos, apertou; não disse nada. No dia seguinte trouxe do Departamento um embrulho em papel de seda amarrado com fitinha Isto é que é pão, querem ver? Desembrulhou, cortou um pedaço com as mãos e disse para Isabel disfarçando desprezo: - Você precisa aprender a fazer pão com D. Augusta; veja que pão gostoso e é feito de macarrão. Saboreou um pedaço; Isabel corou, examinou O pão, cabeça baixa. D. Augusta era perita na cozinha, sabia fazer tudo. Se êle chegava atrasado explicava: - Passei em casa do Honório, comi um doce feito por D. Augusta, você precisava ver que doce. D. Augusta outra vez. Noutro dia falava enquanto tomava café - Tomei um café hoje em casa do Honório, que café bom. Perguntei quem tinha feito, foi D. Augusta. Delicioso. Até O café era melhor. D. Augusta sabe fazer. D. Augusta fêz um doce esplêndido. D. Augusta faz umas broinhãs de fubá... Nunca comi nada tão bom. Isabel odiava e sorria. - Estude, Eduardo. - Já estudei, vovó Lola. Na época dos exames, Isabel debruçava-se sobre os cadernos dos filhos, Lena no colo. Chuva lá fora. Saíam para a escola, os livros sob os braços. Beijavam a mãe, abotoavam os casacos, colocavam papelão dentro dos sapatos, pediam que eu fizesse broa de fubá para O lanche, até logo vovó, saíam na chuva. Eu os via partir sob rajadas de água e vento. À tarde entravam sacudindo as roupas molhadas, tirando os sapatos encharcados, pedindo café com broa. Em princípios de dezembro soubemos que Eduardo fora reprovado em latim, tinha que fazer segunda época, entrou chorando em casa. Parecia mais magro, mais feio, as grandes sardas salientes no rosto. Que Natal triste. Isabel ralhou, êle soluçou debruçado na mesa da cozinha, tremendo de medo do pai. Falei antes da chegada de Felício: - Não contem nada ainda, deixem que eu mesma conto. Eduardo, enxugue os olhos e vá sentar-se na sala como sempre. O pai entrou pela porta da cozinha, mais cauteloso do que as outras vezes, mal se lhe ouviam os passos. Trazia alguns brinquedos, pediu-me para esconder na despensa. Viu os três filhos sentados ao redor da mesa, conversando. - Como foram de exames? Mentiram, tinham ido bem, hesitaram titubearam, sorriram ao ver O rosto calmo do pai. Isabel entrou com Lena, êle foi dizendo que trouxera uma esplêndida receita de pudim de laranjas, receita de D. Augusta. - Fazer pudim com este racionamento? Respondeu que arranjara açúcar com Honório traria no dia seguinte, podiam fazer O pudim. Na manhã seguinte, fui fazer compras e preparei O jantar. Ouvi a exclamação de Felício ao ver O prato predileto na mesa: - O quê? Hoje é dia de festa? Ou algum aniversário que me esqueci? Eu encontrara língua defumada comprara, um precinho bom, sabia que êle gostava. Vira as laranjas, comprara também, fizera O pudim. Para O Natal faria outro, naturalmente. Um pensamento chama outro, vira as laranjas, pensara na receita de D. Augusta. Engraçado. Felício jantou com enorme prazer; repetiu a língua, tomou cerveja, quis que todos tomassem, fêz trocadilhos, conversou com os filhos E O pudim? Mulher danada D. Augusta, tinha livros de receitas, cozinhava à perfeição, com delicadeza e bom gosto. Falava com olhos brilhantes, a colher de pudim no ar, olhando os filhos, provando devagarinho. Delicioso. Sente-se O gosto da laranja, não se perdem as vitaminas. Ela arranja açúcar no câmbio negro, descobre pão de macarrão, até farinha de trigo ela encontra, tem guardada em casa, quilos e quilos. Mulher danada. E sem mistura, sem mistura. A colher no ar, repetiu O pudim. Tomou cerveja, estalou a língua, esplêndido. - Agora um café fresco bem quentinho hein D. Lola? Satisfeita, fui fazer café. As crianças me olhavam, Eduardo seguia meus movimentos com ansiedade. Depois auxiliaram a tirar a mesa, enxugar os pratos. Felício elogiou O café, só D. Augusta sabia fazer assim. Foi para O pequeno terraço fumar; Isabel sentou-se ao lado. Fui me chegando também, conversamos. - Calorzinho, hein? Contei O que os meninos esperavam no Natal, só falavam em Papai Noel; Felício falou sobre O sacrifício em comprar aqueles brinquedos modestos, mas os filhos receberiam alguma coisa, tudo estava caro, caríssimo. A bonequinha para Lena custara dinheiro, sacrifício enorme, que fazer? Êle sempre fora assim, generoso. Chamei a atenção sobre O brilho das estrelas; depois da chuva ficam afogueadas. Também chovera tanto aqueles dias, um dilúvio. O céu agora está limpo, azul, descarregou. Percebi um vulto na sala, escutando. - Felício, não quero que você fique zangado com Eduardo, mas... coitado, não bata nele, não faça nada, creio que foi reprovado em latim. Não foi em latim, Isabel? Ou matemática? Êle tirou O cigarro da boca e me fitou na meia escuridão do terraço. - Reprovado? - Não se zangue, para tudo há remédio, vai fazer segunda época em fevereiro, há de passar. Não é um caso perdido, faz segunda época e passa. É inteligente. Também latim é tão complicado, eu nunca poderia estudar essa língua, as declinações todas: Hora-Horae-Horam-Hora. Ou então aquela outra frase sobre Cartago, você se lembra, Isabel? Êle estudava alto andando no quintal: Quem destruiu Cartago? Scipião. "Quis Carthaginem delevit? Scipio." Vejam como é diferente, que embrulhada. Êle pigarreou grosso: - Quando souberam disso? Por que não falaram antes? - Soubemos hoje, Felício. Somente hoje quando chegou veio desesperado, chorando na rua. Coitado. - Mas isso não pode ficar assim, preciso fazer alguma coisa Tinha tanta esperança nesse menino, êle era estudioso, agora é que está vagabundo. Meus sacrifícios de nada valem? Isabel, chame Eduardo. O vulto da sala sumiu. Queria botar energia, mas falava mole, com preguiça O jantar fora puxado, repetira os pratos, comera três vezes O pudim de D. Augusta. Não era a voz dos outros dias, enérgica, apressada, retumbante; Eduardo. Não era aos gritos, era mansa, tom delicado. Voz cansada. Isabel que nada dissera, aconselhou, pacata: - Já ralhamos tanto com êle.... Mamãe e eu falamos tudo que tínhamos de falar. A choradeira foi grande, deixe para amanhã, você precisa descansar... O amolecimento foi geral; comecei a falar outra vez do calor, da côr do céu, das estrelas, do pudim. Falava rápidamente, mudava de assunto, pulava, voltava, olha O vento, será que vai recomeçar a chover? Também é tempo de chuva, que chova, que chova. É bom para as plantas, estavam ressequidas. Escutem, O vento está começando, vou me deitar, boa noite. Fui deixando O terraço e falando: "Quis Carthaginem delevit? Scipio." "Lex-Legis-Legibus. Qui-Quae-Quod." Língua atrapalhada. Na manhã seguinte, Felício quis bater no menino, não queria meninos vadios em casa, por que fora reprovado? Não dizia sempre que estudasse? Então Deu um puxão na orelha de Eduardo. Vim da cozinha com a panela, mostrei-a a Felício, gostaria que misturasse a sobra da língua no feijão ficava muito bom; perguntei se lembrava, já fizera outra vez dá um gosto especial, quer que misture? Interrompia de propósito, onde se viu? Pensava que na vida era só levantar O braço forte, bater, bater? Aproveitava a força para bater. Bruto. Por que não batia na minha filha? Em mim também? Queria ver. Os olhos pretos fuzilavam quando perguntei de perto quase encostando a panela no nariz dele: - Quer que misture, quer? - Pode misturar. Eduardo saiu cambaleando por causa do puxão de orelha. Ainda bem, se não fosse encostar-lhe a panela na cara, batia, mostrava a força, músculos fortes, braços de aço, mãos de ferro, brutalidade. Almoçou mais cedo, saiu apressado, respiramos. Eduardo me agradeceu não foi nada. O pai vingou-se, passou mais de quinze dias sem falar com O menino, passava por êle sem ver. Passou O Natal, tudo na mesma. Nos primeiros dias de janeiro Eduardo fêz anos; O pai não deu presente, nem respondeu quando êle perguntou: - Papai viu as coisas que ganhei? Fiz um pequeno pudim que êle comeu sozinho na cozinha, nem os irmãos fizeram companhia, fingiram que estavam com sono, medo do pai. E a primeira vez que Felício falou foi para chamá-lo "Cavaleiro da Triste Figura". Eduardo estava no quintal trabalhando, as calças arregaçadas, as pernas muito magras, compridas, com pêlos raros e algumas sardas. - Que está fazendo ali O Cavaleiro da Triste Figura? Ó D. Quixote da la Mancha, vem cá. Ah, ah, ah. Mais tarde tornou a perguntar onde estava O Sancho e quantos moinhos de vento êle havia derrubado. Muito desanimado, Eduardo chorou à noite no quarto, sem saber porque O pai O chamava daquele jeito. - Vamos perguntar ao tio Damião, cochichou Sílvia. Sábado à tarde quando tio Damião chegou com as flores, os tomates, as ervilhas tortas, as crianças chamaram-no para um lado, fizeram perguntinhas. Tio Damião escutou, prestou atenção, sorriu, coçou O queixo, depois levantou os braços e romantizou O Cavaleiro da Triste Figura. - Quem foi? Um herói, um valente. Combatia os mouros, ninguém podia com êle, corajoso como êle só. Vestia uma armadura de fepro, inteirinha de ferro, naquele tempo os guerreiros andavam cobertos de armaduras aqui, ali, nos braços, na cabeça, nas pernas. Na cabeça tinha uma espécie de capacete e quando êle queria, abria uma janelinha, então aparecia a boca Do contrário nada, tudo fechado. Esse D. Quixote de la Mancha foi um homem extraordinário saía do castelo dele acompanhado pelo fiel Sancho a matar mouros. Matava todos que encontrava, matou mais de quinhentos. As crianças abriam a boca, Eduardo sorria, queria saber porque" O pai O chamava assim. - Porque êle era muito magro e alto, parecido coni Eduardo, por isso. Um valente, homem extraordinário para aqueles tempos. Eu gostaria de ser um D. Quixote, palavra. ... Queriam saber mais, porque diziam Cavaleiro da T riste Figura, isso Eduardo não compreendia. Por quê? - Ah isso por brincadeira, respondeu tio Damião. Por brincadeira, desses apelidos que pegam em criança, vocês sabem. Apelido que ficou, mas tinham medo dele, todo O mundo O respeitava, um valentão daqueles. Eduardo não se importava mais quando O pai O chamava de D. Quixote, ficava até orgulhoso. Felício tinha serviço para fazer à noite em casa, batia horas na máquina de escrever, era preciso ganhar mais, vida cara. Logo no princípio do ano, tornou-se apreensivo cochichava com Isabel; ela andava tristonha, suspirando pelos cantos A máquina de escrever continuava a trabalhar àrduamente, apressadamente todas as noites. Êle ficava com os olhos vermelhos, dedos duros. As crianças estavam em férias, Sílvia começou a estudar a "Moda da Carranquinha O pai ficou entusiasmado. Minha filha está tocando mu- f sica de Villa Lobos. Será que vou ter uma neta pianista? Celebre? Uma neta que aos dez anos toca Beethoven, Villa Lobos, ficará célebre. Os irmãos pediam: Toque, Silvinha, a "Moda da Carranquinha. Quando a tarde caía e as sombras da noite faziam manchas no jardim, O silêncio também vinha pesado, fingido. As crianças recolhiam-se O rádio emudecia, Isabel ia para O quarto, os passarinhos ocultavam as cabecinhas, ninguém mais falava, silêncio. Êle vinha nos seus passos cautelosos, mal se ouvia O andar manso na calçadinha que rodeava a casa, quieto, quieto, para surpreender, zangar-se, expandir a força, irradiar. Certa manhã veio um homem e falou com Felício no portão; falava alto, áspero e a voz de Felício se desculpava, se encolhia. O homem tornou a voltar, a reclamar; Isabel passava por mim, boca fechada, guardava tudo bem guardado, para eu não perceber. O homem falava com pouco caso, cigarro na boca, mão no bolso. Reclamava O aluguel da casa. Por que não me contou, Isabel? Eu não estou aqui para trabalhar, chorar junto, sofrer e rir junto? Dei O dinheiro das minhas economias; não, não, a senhora já dá tanto, paga pensão, dá seu trabalho. - Para quem hei de dar então? Se a filha não aceita quem vai aceitar? Desde então Felício entrou em casa embriagado. Nessa noite bateu em Carlos jogou um prato no chão porque Lena estava chorando, gritou que não havia sossego naquela casa, toda a gente fazia barulho para atormentá-lo, onde poderia ter paz? Os meninos correram para O quarto, Isabel desapareceu com Lena, recolhi os cacos, comecei a pôr ordem na cozinha. Quando a voz dele serenava, eu ouvia O vento a sacudir as portas. Sentei-me e olhei O fogo pensando em tio Damião. Tudo poderia transformar-se em cinzas, mesmo O fogo destruidor. Não senti O silêncio, nem O vento, nem a voz de Felício, lembrei de Alfredo; sua última carta viera do Pacífico, mas era tão grande O Pacífico, em que pontinho êle estaria? Combatendo? Prisioneiro? Vivendo? Por que não dava mais notícias? Esquecera a velha mãe? Pensamento de romance, "velha mãe". O endereço que mandei foi O da pensão de Irmãs; pedi à Irmã Maria confidencialmente: Se vier alguma carta do estrangeiro, mande logo um portador levar, é de meu filho Alfredo O que está na guerra, a senhora sabe. Outro dia vi um menino que se aproximava procurando uma casa, um número, quase gritei: "É aqui. Traz a carta? Que silêncio tão profundo, e a chamazinha? Apenas um montinho de cinzas. Dizem que os bosques apodrecem e se extinguem, a nuvem se desfaz em chuva, O homem lavra a terra e jaz sob ela, O fogo se transforma em cinza fria. Todas as manhãs, a voz de Felício mostrava irritação e mau humor: - Mais de uma vez já tenho reparado nas blusas com que vão à escola, nem sempre estão limpas. Você precisava ver os filhos de D. Augusta. O ódio era um punhado de coisas no peito de Isabel; surdo, impotente, disfarçado. - E é D. Augusta que lava e passa; é uma mulher digna de ser imitada. - Este pão está horrível, por que não procura fazer melhor? Com mais capricho? O ódio crescia, se avolumava. - É aquela receita que D. Augusta mandou? - É Ela sorria. Odiava e sorria. Na porta do quintal, êle gritava: - Onde está O Cavaleiro da Triste Figura? Vem cá, D. Quixote. zzz capítulo VI zzz O frio era forte na madrugada; Isabel veio com um xale nos ombros: - Mamãe, não vá, O frio está fortíssimo, Felício disse que a senhora não deve sair, pode tomar um resfriado. - Vou bem agasalhada. E como as crianças podem ficar sem carne? Lena está fraquinha depois da gripe, precisa de caldo de carne. Ela fechou a porta atrás de mim. O vento frio que soprava parecia gelar os ossos; eu caminhava depressa para alcançar a primeira rua que tivesse luz, aquela escuridão assustava. Com a cabeça baixa andava rapidamente, pensando nas crianças que precisavam de carne; enquanto pudesse faria por eles O que havia feito"por meus filhos. Não queria pensar no frio que me envolvia nem sabia onde punha os pés na rua escura; gostaria de assoprar as mãos que estavam esfriando enroladas no xale, mas se as tirasse dali, poderiam esfriar ainda mais. As crianças, pobrezinhas, não eram alegres como as outras, não podiam expandir-se, O olhar do pai era severo, estava sempre censurando e exigindo. Tinham que trabalhar, os gritos incomodam, cinema era proibido, cinema para quê? Aprender coisas? Amigos por quê? Não viviam bem assim? Só tinham a escola, ou então ficar sentados como gente grande, a conversar; ou estudar seriamente, muito seriamente. Enquanto eram pequenos pertenciam ao pai, eram coisas dele, aceitavam; cresciam um pouco, havia a revolta que O pai procurava abafar com gritos, com a força bruta, com as mãos de ferro. O vento fustigava meu rosto; quando vi a luz mortiça na porta do açougue, suspirei Havia uma fila de trinta pessoas, fiquei atrás de uma mulher que lamentava a guerra O frio, as dificuldades; dava uma pancadinha no peito e dizia: - Com esta idade, nunca precisei levantar de madrugada por causa de um quilo de carne. Sempre tivemos tudo; agora falta isto, falta aquilo, como se pode viver? Isso tudo desanima O mais forte. A senhora e eu temos idade para estar aqui a esta hora e com este frio que penetra a alma? Esfregava as mãos. O tempo não passava e enquanto se estava parada, O frio aumentava. Eu ouvia a voz da mulher cheia de queixas, batia os pés no chão para aquecer. O vizinho da frente falava na geada que estava caindo, nunca sentira frio como esse ano, nada aquecia. Assoprava as mãos; a mulher batia no peito e tornava a falar: - Nunca vi isso em minha vida. Por que O governo não toma providências? Por que deixa O povo sofrer assim? Outro respondia - Governo não vê nada, só política, não tem pena do povo... - Não é isso, dizia um senhor que chegara depois de mim, um xale azul enrolado no pescoço. Eu penso que O que está faltando para nós, vai para ajudar os povos aliados. Estão mandando arroz, carne congelada, café, feijão. Para os nossos soldados também, tenho um neto na guerra... Ao ouvir isso, todos se voltaram para ver O homem que tinha um neto combatendo na Itália; houve um silêncio de simpatia, um mocinho que estava mais na frente, perguntou - Na Itália? - Na Itália. - Foi no primeiro vapor? - No segundo, disse p velho suspirando. Outras pessoas que estavam na frente da fila e não haviam ouvido bem, perguntaram de lá: - Seu filho está combatendo na Itália? - Meu neto. Está, sim senhor. - Foi no primeiro vapor? - No segundo. No segundo. A mulher deu outra pancadinha no peito e repetiu para a pessoa que chegara por último: - Esse senhor tem um neto na guerra... Na Itália? - Na Itália. - Foi no primeiro vapor? - Não, foi no segundo... Eu podia contar que também tinha um filho combatendo no Pacífico. Imagine, no Pacífico! Que coisa linda. Tão longe. Num mar desconhecido, junto ao exército americano. Chama-se Alfredo, está combatendo os japoneses, os japoneses do Pacífico. Êle me escreveu uma vez que a Austrália podia ficar sossegada, eles expulsariam os japs de lá escreveu japs sim senhor. Estão combatendo como demônios e estão vencendo. Isso mesmo, vencendo; quando começou a guerra, foi com os americanos para O Pacífico. Êle estava na marinha americana, era marinheiro, sim senhora. Êle me escreveu do Pacífico uma carta muito bonita, está combatendo para um mundo melhor. O mundo vai melhorar depois desta guerra como não? Voluntário, sim senhor. Apresentou-se como voluntário. Que maravilha. O melhor era não falar porque, eles poderiam perguntar: Quando recebeu a última carta? A última? Três anos. O quê? Três? Falou três? A velha está louca, há três anos recebeu a última carta do filho e conta como se O filho tivesse escrito ontem. Velha louca. O melhor era ficar quieta, quietinha. Olhei para os lados, bati os pés, cala a boca, velha louca. Imagine três anos sem notícias e ela a dizer que O filho escreveu isto e aquilo, Austrália, japs, mundo melhor. Quando isso? Três anos. Está louca? Quem sabe os japoneses nem estão mais na Austrália? Preciso perguntar isto antes de falar, preciso indagar, alguém deve saber. No princípio e no fim da fila estavam falando sobre O neto que estava na Itália. Foi no primeiro vapor? Não, no segundo. Foi para a Itália? Sim, para a Itália O açougueiro abriu a porta, apenas uma portinha estreita e lá. dentro uma luzinha meio morta, piscando Minhas mãos estavam duras e meu pensamento entorpecido a fila começou a andar, a andar devagarinho. Estava muito escuro, galos cantavam nos quintais, deve estar amanhecendo. Toda a gente estava calada, pensando no quilo de carne, a fila ia indo devagar. O homem que tinha O neto na guerra dava gemidos e assoprava os dedos. Eu tinha um filho combatendo no Pacífico. Sabe onde é O Pacífico? Lá para os lados da Austrália, êle está expulsando os japoneses e combatendo para melhorar O mundo. Foi O que me escreveu. Galos cantavam, estava amanhecendo. Vi a mulher enxugando as lágrimas diante do açougueiro que mostrava as mãos vazias. Fechei também minhas mãos sob O xale e apertei-as sentindo-as geladas. Não tem mais? Gritei. Ninguém respondeu. O homem que tinha O neto na Itália deixou a fila e foi embora quase correndo; O açougueiro dava explicações, a carne era pouca, não havia mais. Só toucinho, quem queria toucinho? Eu apertava minhas mãos e esticava O xale como se O quisesse rasgar, mais um dia sem carne. A velha foi embora se lamentando, tropeçando no escuro; voltei para casa, O caminho de volta foi mais longo e mais frio. Isabel estava na cozinha preparando café; com um gesto mostrou-me as camisinhas de Lena que haviam ficado lá fora no varal e estavam duras de geada. Perguntou penalizada: - Não trouxe carne? A senhora está pálida. Continuei a olhar as camisinhas que O vento sacudia e que pareciam rir de mim, agitando os braçinhos duros. Genu continuava me visitando. Largos gestos, pesada de corpo, fronte serena, alegria calma. Aparentava, na velhice, a submissão e a serenidade que lhe faltaram na idade madura; nos seus olhos tranqüilos transparecia paz absoluta. Suas palavras já não eram amargas, nem traduziam ódio ou inveja; sua impassibilidade diante da vida significava estabilidade e segurança. Falava de Deus com amor e simpatia - Deus é grande. A filha mais moça que no tempo da Avenida Angélica era ainda uma criança, casara-se bem, residia numa casa confortável e convidara a mãe para morar com eles. D. Genu tinha um bom quarto, boa mesa, uma pensão que a filha lhe dava todos os meses e paz de espírito. Amou Deus, freqüentou missas, tornou-se piedosa, bondosa, fêz caridade e censurou aqueles que eram indiferentes à igreja. Como se pode viver sem Deus? Deus é um só. Censurou também acerbamente os que continuaram pobres Não compreendia como é que Fulano ou Sicrana depois de tantos anos de economias e trabalhos, continuavam pobres. Isso é falta de juízo, não é? A pobreza irritava-a, considerava pecado os que pediam, que precisavam do auxílio do próximo, que se queixavam. Conseguia perdoar a pobreza resignada, que baixava a cabeça e não ostentava, mas os necessitados que faziam alarde, que gritavam e pediam, não suportava. "Que diabo, como é que eu me arranjei?" perguntava. "Gastaram em ninharias O que ganharam, agora toca a pedir, toca a importunar os outros." Seu rosto plácido e gordo se enternecia quando lembrava os meus filhos, conhecera-os pequenos, vira-os crescer. Interessava-se por Julinho: "Esse está rico hein?" Queria saber como era a casa dele, por que não ia mais vezes ao Rio. Contava O casamento das netas, casos de família, censurava Joca, a filha mais velha e O genro - aqueles pobretões sem cabeça. Mas falava sem amarguras, sem desejos; sua voz que fora arrogante e ríspida, tinha agora inflexões suaves de água corrente Deus acima de tudo. Estava rica. O genro já falava em comprar automóvel, só esperava terminar a guerra; Naná guiaria O carro e ela, D. Genu só me visitaria de automóvel. Seu rosto cheio sorria ao falar. A casa onde moravam era deles, casa própria. Esticava as pernas sob a mesa da cozinha, dava um leve suspiro, os cotovelos apoiados à volta da xícara, tomava café muito calma, muito tranqüila. Não era mais aquela mulher invejosa, irritada, tinha agora a vida segura em casa de Naná e do genro, O que está vencendo na vida. Sentia O terreno firme sob os pés e pisava terra sólida; no meio dessa ilha de segurança, espiava com desdém os que lutavam em baixo, sorria e censurava. Que diabo, como é que eu me arranjei? O sossego que lhe faltara antes, sobrava-lhe agora, por isso a ausência de inveja, O ar de bondade que lhe proporcionava a vida sem tropeços. Não desejava mal a ninguém, nem rogava pragas, apenas censurava os que não haviam conseguido O que ela conseguira. A idade e a estabilidade financeira deram-lhe a calma necessária para ser boa e amar Deus com ardor. Deus acima de tudo. Queixava-se às vezes do genro mais velho, falava mal, irritava-se, de repente colocava a mão direita sobre a boca: Cala-te boca. "Por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado. Não se deve falar de ninguém, cada um sabe O que faz, não acha? Serviu-se de mais uma xícara, pouco açúcar, mexeu a colherinha, provou um gole, depois outro, olhando pela janela a tarde radiante. - Uma coisa que eu não faço é falar mal dos outros, a vida alheia para mim é sagrada. Jesus disse: "Por tuas palavras serás condenado." E eu respeito as palavras de Deus Tomou um gole, elogiou meus netos, exaltou a bondade de Felício e a felicidade de Isabel. - Quando se cumpre O dever como nós cumprimos, podemos morrer tranqüilas. A senhora assistiu à minha luta, quanto eu trabalhei para educar minhas filhas, tiveram boa educação e foram honestas; O resultado está aí, casaram-se bem. Naná está rica, sempre digo: Deus é grande. Todas... Tio Damião entrou com passinhos corteses, trazendo umas Gloire de Dijon. Inclinou-se: - Damião Vasconcelos Souto, seu criado. D. Genu, que ainda não O conhecia, interessou-se, voltou-se para sussurrar-me: Que homem galante, hoje em dia não se vê mais esses espécimes. Perguntou-lhe: - O seu Souto será parente do meu Tive uns primos Soutos no Norte, perdidos por aquelas bandas... Solícito, êle esclareceu: - Não posso ter certeza, excelentíssima, apenas tenho certeza de que os meus são de origem portuguesa, vêm de Portugal, do alvorecer do século XVIII. Espalmou a mão para mostrar O século. Minha amiga mexeu-se na cadeira: - Pois não, seu Souto. E é parente aqui da casa? Tio Damião explicou O parentesco, contou casos, ser- viu-a de mais uma xícara de café; falou que fazia versos e compunha música, simples músicas para rabeca. - Não sei se a excelentíssima lê Anatólio... Não esperou resposta: - Anatólio e Camilo são meus prediletos. Sei de cor até hoje a história de Gonçalo Malafaia e do bigorrilhas de Mirandela. "Poeta é O amante da noite, da solidão, da lua, das estrelas, do mar, da fonte, da viração, do rouxinol, dos mil ruídos do silêncio noturno, das mil notas que salmeiam cantares a Deus" Houve um silêncio na cozinha: tio Damião continuava Com O dedo indicador para O alto apontando O céu. Explicou: - Camilo! D. Genu deu uma risadinha: - Coitada de mim; de leituras não conheço nada. Quando era mocinha e tinha tempo, li "A Moreninha", "O Moço Loiro", gostava muito do Moço Loiro. Li um outro que tinha um índio bonito chamado Peri, lembro tão bem... Fiquei louca para ter um namorado índio. A gente é burra quando moça. Depois casei, tive filhos, trabalhei que nem besta de carga, esqueci os Moços Loiros, os Peris, só tinha tempo de ler - Falecimentos - no "Estado". Isso eu gostava de ler, quem morreu. Más ler livros? Cadê tempo? como diz O caipira. Novo silêncio. Tio Damião não parecia ter ouvido; esticou os pescoço, abriu os braços: - "Morrendo por um nada, que desejado aflige, e havido enfada." - Não é bonito, excelentíssima? E escute esta: "Os dedos rosados da Aurora afastavam a cortina da noite." Não é divino? E a história de Januário Pires de Miranda, natural de Mirandela? O tal da batalha do Bussaco? E isto aqui: "Nos campos que circuitavam O outeiro, em que O século XIV vira surgir O solar dos Camelos, pastavam algumas vacas com os novilhos, e uma égua farejava e lambia a cria que se espolinhava na relva. Ouvia-se a preguiçosa toada de uma cantiga pastoril. Tem uma suave tristeza este cantar dos campos..." Parou um pouco. Estava de pé em frente à janela, olhando O quintal e com os braços estendidos e mãos abertas, mostrava-nos O campo com as vacas, os novilhos, a égua, a cria, e chegava-se a sentir a tristeza do "cantar dos campos..." De repente chamou Sílvia e mandou-a tocar "A Moda da Carranquinha"; repetiu: "Morrendo por um nada, que desejado aflige e havido enfada." Marcou compasso, solene. O rosto da minha amiga exprimia admiração por aquêle homem raro. No momento de ir embora, baixou a voz, confidencial. Nenhuma notícia de Alfredo? - Nenhuma. Pôs a mão no meu ombro, aconselhou calma, confiança. Pedisse à Mãe do Céu, pedisse. - Olha, Nossa Senhora está sentada no trono de Salomão, rodeada por quatro leões. Na sua testa tem sete pombinhas que representam os sete dons do Espírito Santo: Da Crença, da Piedade, da Ciência, da Força, da Clarividência, da Inteligência, da Sabedoria. O que a Mãe do Céu não há de poder com todas essas coisas na testa? Peça para Nossa Senhora, peça... Juntava os dedos da mão direita: Sete pombinhas. - Como é que Deus vai permitir tamanha injustiça? Deus é um só D. Lola... Conhecia-a há tanto tempo e ela ainda me surpreendia. Conviver com uma pessoa não quer dizer conhecê-la. Muitas vezes os pais não conhecem os filhos que geraram, os cônjuges não se conhecem entre si. A natureza humana é tão misteriosa e variada que sempre nos surpreende, assim como O tempo num país tropical, sempre incerto. E só depois que alcançamos a velhice, compreendemos a resposta para muitas perguntas. A idade nos ensina a tudo esperar, a tudo aceitar, a tudo crer. Julinho e Maria Laura me escreveram, eu não iria ao Rio? Estavam esperando, Júlio César ia fazer doze anos. Vou sim. De dois em dois anos eu os visito, passo vinte ou vinte e cinco dias com eles. É um mundo tão diferente O de Julinho, tão cheio de etiquetas que eu não compreendo muito bem. Compreendo, mas não assimilo. Moram numa bonita casa em Ipanema, têm duas filhas e O menino. As filhas estão mocinhas, são muito modernas, vão à praia de maio e quando faz muito calor ficam O dia todo de caleinhas curtas andando pela casa. E com blusas que cobrem só n parte da frente do corpo. Elas têm amigas, aprendem inglês, conversam com desembaraço, dançam e recebem tele-foliadas de rapazes. São meus amigos, respondeu Ivone, um dia cm que perguntei. Eu não entendo muito bem a vida que a família de Julinho leva; é como se me mostrassem um livro escrito em língua diferente da minha, impossível decifrar por mais esforços que faça. Maria Laura tem idéias avançadas, dá inteira liberdade às filhas; creio que ela é um pouco diferente das outras mulheres e eu não poderia explicar em que é diferente. Bonita, cheia de corpo, elegante, possui vestidos deslumbrantes, freqüenta bailes, dança e usa jóias finíssimas, principalmente anéis com pedras de todas as côres. Cabelos e olhos castanhos, dentes brancos e é um gôsto vê-la rir; pele muito alva, mãos finas e compridas, macias feito seda. Admiro-a, mas não a compreendo. Parece que ela não dá muita atenção ao marido, aos filhos, é O que penso, mas não sei se estarei certa. Tem vestidos de linho, vestidos de seda fantasia, de bolinhas, risquinhos, flor, vestidos de todas as cores. Possui tantos pares de sapatos que poderia abrir uma lojinha; é muito elegante e fala muito bem. Perto dela sinto-me sempre constrangida, meio acanhada, mas ela me trata com distinção e não sei porque este meu sentimento de inferioridade. A casa deles é bonita, dá para O mar; há um jardim na frente, uma escada de mármore, um terraço com mesa e cadeiras apropriadas; duas salas, uma maior e outra menor que chamam de saleta onde há um piano que ninguém toca. A sala de jantar é grande, pratos pelas paredes e um aparador num canto coberto de objetos de prata: cestas, bandejas, caixinhas, aves, cachos de uvas, tudo em prata. Os quartos são em cima, espaçosos e confortáveis. Julinho e Maria Laura ocupam um de dormir, outro de vestir; este tem espelhos até O teto, pode a gente se virar de todos os lados, está sempre se refletindo; as duas meninas ocupam outro e Júlio César outro. Quando vou para lá, Júlio César vai dormir na rouparia e eu fico no quarto dele, por isso minha nora queixa-se de que a casa é pequena, é preciso mais um quarto e aumentar a sala duas vezes, as meninas estão moças e precisam receber as amigas. Fico deitada na cama de Júlio César olhando os objetos que êle tem no quarto: luvas de boxe dependuradas na parede, um par de sapatos enormes forrados de pedacinhos de ferro, algumas revistas; e pelas paredes, fotografias de lutas de box e de artistas de cinema. Sobre a mesa de estudos, livros de histórias, uma geografia, um mapa colorido, cordões de sapatos, fotografias de cachorros e cavalos, um vidro de goma, uma caixinha de tachas; no outro lado do quarto, uma bola grande e um par de patins. Ao lado da cama, uma mesinha com lâmpada, no chão um tapete azul. Na janela larga, uma cortina de um tecido grosso azulado e na parede em cima da cama, outros quadrinhos com retratos que devem ser de artistas de cinema. Esse O quarto do meu neto Júlio César. Preciso repetir muitas vezes mentalmente que êle é meu neto, que Ivone e Lídia são minhas netas, para eu acreditar, para entrar na minha cabeça, pois eles são tão diferentes dos outros netos e de todo O resto da família que nem parecem meus netos. Julinho, Maria Laura e os filhos mais moços foram me esperar na estação; Ivone havia ido a um chá. No trajeto da estação a Ipanema, foram perguntando pela viagem, pelos parentes, Julinho perguntou pelas tias de Itapetininga pelos filhos de Isabel, mas sem interesse, com voz mole, por perguntar. Pois um dia chegou a me dizer: Não sei mais O nome do tio Zeca, José de quê? Esquecera. Esquecera O pobre Zeca que O vira crescer, que brincara com êle. José de quê? Isso me doeu, José de quê. Nada interessava a Julinho a não ser sua bela situação, sua riqueza, sua família. Maria Laura perguntou com displicência: Como vai Isabel? E quando eu respondi Isabel vai bem, Sílvia toca muito bem piano, Carlos é estudioso, Eduardo fez segunda época de latim, ela interrompeu: - Segunda época? Quem? Só ouviu a última frase. Frango com farofa, filé mignon, pudim de pão... De pão? E O racionamento? Havia pão até para pudim? Eu não perguntava, colecionava as perguntas umas sobre as outras, em ordem. Era um trocar de pratos na mesa... Serviço à francesa. A salada vinha num prato diferente, enviesado, colocavam ao lado do meu; às vezes eu fazia confusão, colocava O prato enviesado na minha frente, ficava vermelha, suando com as complicações. O olhar de Maria Laura era mudo e levemente complacente, de crítica disfarçada. Trocavam outra vez de prato, depois outra vez, para a fruta; os pratinhos de fruta eram coloridos, com cerejas e uvas pintadas no fundo. Eu me esquecia de conversar, calculava quantos pratos a cozinheira teria de lavar. Com estes serão trinta e seis, barbaridade. Vinha a água para lavar as pontas dos dedos nada mais antipático. Eu percebia os nomes que as meninas davam àquela antipatia - bóis. Falavam pronunciando O ó abertíssimo. - Mamãe, estes são os bóóóls que você comprou agora? De porcelana inglesa? - Não, estes são para O uso diário. Os de porcelana estão guardados. Pétalas de rosas bailando na água. Imagine como Julinho subiu na vida, tem bóis com pétalas de rosas na mesa. Impliquei com aquilo desde a primeira vez que fui para lá, nunca lavei os dedos naquela baciazinha, ou lavava a mão inteira ou nada, que adiantava aquilo? Depois, meus dedos eram grossos, feios, cheios de nós, unhas amarelas, chatas, aquilo era para mãos delicadas, de unhas vermelhas, polidas. Não usava de propósito. Bobagem. Eu observava meu filho; estava forte, parecia mais alto, corpulento, bem nutrido, bem vestido, O bigode tratado sombreando-lhe O lábio superior, lenço levemente perfumado, ar sério, compenetrado, convencido de que mereceu aquilo tudo, aquela casa, aquela mulher, aqueles filhos, pelo trabalho, pelo esforço próprio. Falava com ênfase, certo do que afirmava, a consciência tranqüila. Eu lembrava do meu Julinho tímido, indeciso naquela longínqua noite de pobreza e hesitações, quando me pediu, suplicou para ir para O Rio. "Mamãe, lá está meu futuro, tenho certeza." Eu a ouvir cantar O galo de D. Genu â noite inteira e a pensar se deixaria ou não Julinho partir. Estava ali O futuro que êle esperara, ali naquela mesa, rodeado pela família, bafejado pela fortuna, lavando as pontinhas dos dedos nas pétalas de rosas. Muito bem, Julinho. Subi os degraus cobertos de tapetes macios, acariciando O corrimão dourado da escada, fui para O quarto de Júlio César; Julinho me acompanhou até a porta, deu uma tapinha delicada no meu ombro, perguntou num bocejo: - Mamãe não teve mais notícias de Alfredo? - Nunca mais. Ficamos olhando um para O outro, depois êle murmurou: y - Que louco. Lá estavam a bola de borracha, as chancas, os retratos dos artistas, das lutas de boxe, as luvas enormes como balões abandonados, as particularidades do meu neto Júlio César. Meu neto, meu neto Júlio César. Meu.... A copeira bateu de manhã na porta do meu quarto: café. Não precisava, eu ia tomar lá embaixo. Ordens de D. Maria Laura Eu ficava acanhada, ela espiava a mala debaixo da cama, mala emprestada. Por que eu estendera a cama? A arrumadeira viria fazer O serviço; ah, estou acostumada. Pensava nas minhas camisolas remendadas; servia-me um pouco atarantada. A bandeja era de prata, tudo muito delicado, toalhinha bordada a mão; sim, a mão. Eu ficava sozinha dando um arranjo "ias roupas, olhando O quarto do neto; haviam posto flores na jarra em cima da mesa, O guarda-roupa tinha espelho, tudo fino, bonito. Só em casa de Julinho eu via essas coisas; êle vencera, conseguira. Eu passava a mão pelos móveis num gesto de caricia, devagarinho, suavemente. Móveis de rico Batidas leves na porta, eram as meninas que iam para a praia. Estavam com dezesseis e quinze anos, Ivone e Lidia. Ivone tinha traços de Julinho, era morena, corada, alegre; as pernas eram fortes, rijas, eu ficava constrangida diante da quase nudez das minhas netas. Elas cruzavam as pernas e ficavam me olhando; eu olhava os retratos dos artistas. Faziam-me perguntas "Dormiu bem?" "Não estranhou a cama do Jota César?" "Quer ir à praia?" Andavam pelo quarto cantarolando, fazendo trejeitos com O corpo. E Julinho? - Papai? Não sei se já levantou, você sabe, Lídia? Mamãe acorda às onze. Onze? Ah, muito bem. Lá fora a voz esganiçada de Júlio César: - Vocês não vêm? - Estamos no quarto de vovó... Lola. Êle subia correndo a escada, eu ouvia um tropel dá licença? Moreno e forte, risonho, um pouco dentuço; sentava-se na beira da cama, outras perguntas, "Dormiu bem?" "Gosta do Rio?" "S. Paulo não é cidade bonita, a senhora acha?" Os dois cachorros entravam atrás dele, baixinhos, compridos, uns rabos esguios, muito feios. Cheiravam tudo, davam voltas pelo quarto estranhando minhas coisas, minha mala. Tinham línguas vermelhas e longas que desenrolavam para fora da boca, depois enrolavam outra vez. Júlio César dava um soco na bola, os cachorros pulavam para abocanhá-la, as duas meninas gritavam Vamos então?" Saíam todos em tropel, os cachorros corriam, uni barulhão na escada, eu ouvia a voz do neto: - Uísque-an-soda, por aqui. Que coisa, Uísque-an-soda, nome estrambótico, nunca vi. As manhãs eram longas, eu não tinha com quem conversar, falava com O jardineiro, a cozinheira; passeava pelo jardim, lia jornais, sentava-me no terraço, ficava marombando pelos cantos, espiava O piano na saleta, estava esquecido, ninguém estudava, preferiam ouvir rádio. Sílvia estudava no piano alugado, desafinado e velho. a Fiz camaradagem com a cozinheira, visitei a despensa; latas de todas as qualidades, de todas as marcas nas prateleiras, O açúcar não está racionado? Não senhora, não faltava nada, compravam no câmbio negro, tinham tudo. Latas de. doce, vidros de geléia, eu embasbacava: sim senhora, não falta nada. Maria Laura apareceu à hora do almoço, bem vestida e perfumada, mãos finas como seda. Julinho chegou da cidade; queria saber como eu passara a noite, descansara da viagem? Durante O almoço falou nos negócios, a firma progredia, ia longe. As meninas conversavam, faziam planos, essa tarde não tinham aula, iriam à casa de Didi. Haveria reunião, pouca gente. O pai chamou a atenção: "Sua avó chegou ontem, vocês já querem sair?" Olharam para mim sorrindo. Não, por favor, faço questão, sou eu que peço para irem à casa de Didi, não quero interromper a vida de vocês. Conversava-se depois no terraço, tomava-se O café, todos tinham projetos para a tarde, para a noite; Julinho vollava para O escritório, Maria Laura continuava no terraço, bocejava. Fazia esforço para prestar atenção ao que eu falava, procurava conversar, levava a mão à boca, outro bocejo. Eu pedia que saísse, continuasse a vida a que estava habituada, fizesse O favor; eu trouxera costuras para fazer, vestidinhos para as crianças de Isabel, e outros trabalhos. Ela se levantava, distendia O corpo, endireitava as pregas da saia, tinha hora no cabeleireiro, eu não reparasse por ficar lá, ia embora num passo elástico e rápido. Absolutamente não reparo. Iriam jantar fora essa noite, estavam compro- metidos desde a semana passada, não reparasse. Absolutamente, ora esta. Eu andava pela casa, tudo era silêncio; sentava-me na cama, tinha sono, preguiça. A copeira trazia café, conversava, os patrões jogam muito, toda a semana. Diz que a senhora tem um filho na guerra? Eu sentia as pálpebras pesadas de sono, que seria? Vadiação. Pensava na chegada, nas ocupações que todos tinham, nas perguntas de Julinho. José de quê? Isso me doeu, coitado do Zeca. No pensamento, marcava O dia da minha volta. Os pais de Maria Laura visitaram-me uma tarde. Seu Raimundo era surdo, baixo e gordo, não tinha pescoço. Vermelho e suarento, perguntou com voz profunda, passando O lenço na testa: - Tem tido notícias de seu filho? O que está na América? Contei que Alfredo me escrevera do Pacífico, estava combatendo no Pacífico; êle perguntou para a mulher - "Onde fica isso?" Ela não sabia, respondi com voz gritante que ficava muito longe, do outro lado do mundo. - Do lado de onde? Julinho socorreu, explicou, êle se acalmou; depois que compreendia, ficava satisfeito, sorria e se recolhia de novo ao isolamento. No meio da conversa tornou a perguntar: - Êle escreve de vez em quando? - Há tempo não recebo notícias. - Quanto tempo? - Três anos. - É muito tempo. - É muito mesmo. Sacudiu a cabeça sem esperança. Maria Laura começou a falar sobre vestidos, êle prestou atenção, percebeu O assunto, fêz ar de pouco caso, recolheu-se de novo, desinteressado. Perguntei mais tarde: - Por que não usa aparelho? - Diz que só quando ficar surdo vai usar, por enquanto ainda pode ouvir. As cunhadas de Maria Laura me faziam visitas rápidas de cortesia, despediam-se com pressa acenando adeusinhos. Julinho declarou um dia na mesa: - Nunca a firma ganhou tanto como nesta guerra. Que coisa, pensei, a mesma guerra que mata os filhos das outras mulheres. E Alfredo? Estava em qualquer parte do Pacífico, lutando. A última carta: Estou combatendo. - "Nunca a firma ganhou tanto como nesta guerra", isto não me saía da cabeça. As meninas contavam os desquites das amigas com de, talhes felizes, Lídia era contra casamento. Ficavam horas na saleta pondo discos na vitrola, de shorts brancos, sem meias, as pernas sobre cadeiras em frente, cantarolando. Às vezes discutiam por causa de filmes, brigavam; Ivone ficava amuada dizia para Lídia - você é uma bestinha, colocava um bonézinho listado de vermelho sobre os cabelos, ia para a casa da vizinha, sandálias brancas, tóc, tóc, tóc Lídia continuava a pôr discos e comer bombons; quando O irmão voltava do colégio, gritava: - Jota César, venha ouvir O novo disco americano. Júlio César comparava O saxofone com mugidos de boi, Lídia ria e segurando os dois joelhos com as mãos, levantava as pernas para O alto e sacudi-as, ah, ah ah, boi, imagine! Eu via-lhe as coxas rosadas, ela comia bombons. Sem modos. Ivone entrava tarde balançando as cadeiras, ia vestir-se para O jantar. Lídia me contava em segredo que Ivone estava namorando um homem muito mais velho, desquitado, jogador e ainda por cima - pobre. Os pais não queriam, principalmente a mãe, por isso Ivone andava de mau humor, briguenta por causa do homem. Falou arregalando os olhos: - Mas êle é formidável, parece artista de cinema. Alto e loiro. Ela está louca de paixão, mamãe está des-gos-tosís-si-ma. Disse que nunca permitirá essa loucura, ela disse que casa nem que seja para fugir. Imagine que situação de inferioridade. Uma noite, depois do jantar, Julinho e Maria Laura ficaram na sala esperando os companheiros para O jogo, as meninas tinham programas, iam ao cinema. Julinho examinava os baralhos pedia cinzeiros, perguntava pelas bebidas, cigarro na boca, preocupado. - Mamãe, hoje vamos ter jogo. Sim? Gostam de jogar, não? Muito bem. Nunca joguei, mas deve ser um passatempo agradável. Êle parecia inquieto, um pouco nervoso, Maria Laura olhava-o sem nada dizer. Boa distração O jogo, para quem tem tempo e dinheiro. Julinho tomava um baralho entre as mãos, fazia como se fosse um leque, as cartas davam estalos. Carrancudo, cigarro na boca, ia até a porta, escutava, olhava para Maria Laura, ela olhava para êle. Boa coisa O jogo, distrai, diverte, O tempo passa mais depressa. Jogam, vão aqui, ali, vida divertida eles levam. - Mamãe, preferimos que a senhora vá para O quarto ou para a sala de jantar, assim os amigos ficarão mais à vontade. - Pois não, quer que eu me retire já? Vou para O quarto, estou com sono, tenho dormido tão bem aqui. Boa noite. Os dentes de Maria Laura brilhavam de tão brancos. - Boa noite, D Lola. Subi. Ouvi retinir de campainhas, bater de portas de automóvel, vozes. Pois não, muito natural, os amigos são moços, O que faz uma velha no meio da mocidade? Não que Julinho se envergonhe de mim, afinal sou uma velha como outra qualquer, não, nada disso, quem poderia pensar uma coisa dessa? Mas que destoa, destoa. Depois, êle teria que me apresentar aqui e ali, seria fastidioso, cacete. Tenho sempre sono aqui, tenho dormido tanto. Vergonha não, por que êle teria vergonha de mim? Meus vestidos são muito modestos, minhas mãos são grossas e cheiram a cebola; desde que cheguei deixaram de cheirar. Não é nada disso, querem ficar à vontade, é muito justo, muito natural, são moços. Mas, também, êle não precisava dizer - vá para seu quarto. Eu ia mesmo, não era preciso falar. Não sei jogar, não conheço ninguém, eu não ia ficar, mas para que dizer - vá para seu quarto? Isso me doeu, vá para seu quarto. Tudo me dói, decerto é por causa da idade. Que mundo este. As luvas de boxe estavam inchadas, pareciam balões que flutuariam logo mais. Nas tardes de domingo, me levavam a passear de automóvel; os netos mostravam casas e terrenos pertencentes ao avô, ao pai; riam-se da minha admiração. Aquele terreno é de Ivone, O outro é de Lídia para quando se casarem. Mostravam os alvos dentes em risadinhas de entusiasmo. Os três falavam em dinheiro, em prédios. Na frente do carro, Julinho guiava e conversava com Maria Laura sobre O jogo da véspera. Carrancudo, perdera dinheiro. Em casa, os netos me chamavam a atenção para os quadros; este é de um pintor do século XVII, dizia Lídia. - Dezoito, corrigia Ivone. - Papai falou dezessete - Dezoito. Ficavam teimando enquanto Júlio César apontava um quadro pequeno. - Este custou dez mil cruzeiros. As meninas achavam caro, um quadrinho daquele tamanhinho. Júlio César protestava, O que valia era O nome do pintor. - Como é O nome? Não sabiam. Mostravam os tapetes, as jarras antigas, a escrivaninha de esconderijos e gavetas minúsculas do século... Que século mesmo? Haviam esquecido. E a novidade que mais se orgulharam de mostrar numa das minhas visitas, foi a cama que a mãe comprara num antiquário. A cama de Maria Laura era grande, funda, complicada, trabalhada em rosas e dourados. Os netos me chamaram a atenção, apontando O móvel, era de uma época muito antiga, viera de Roma. Lídia juntou os lábios e apertou-os fazendo boca pequena para dizer que custara um dinheirão. - De que época? perguntei. Titubearam, parece que da Renascença. Não sabiam com certeza, ficaram pensativos. - É isso mesmo. Renascença, falou Ivone com firmeza, encerrando O assunto. Lídia me mostrou os arabescos dourados, as flores esculpidas. Rimos dos anjinhos eram quatro muito gordos, barrigudos, faces redondas, sorridentes, arcados sob O peso do dossel que se apoiava em quatro colunas Coitadinhos, deviam estar cansados, há séculos escoravam aquele peso, desde a Renascença, comentou Júlio César. - Dizem que uma princesa italiana tem uma igual. Redobramos de atenção para a cama igual à da princesa. Rosinhas e gordos querubins. Contavam que a mãe ia comprar um tapete chinês autêntico O pai não queria mas acabaria comprando. - Quando mamãe quer as coisas... falou Ivone e assobiou. Quando descemos os quatro, Maria Laura perguntou se eu havia gostado da cama. Lindíssima, falei. - Lindíssima e caríssima, comentou Julinho mascando um charuto. E O quadro novo? Eu já havia visto? Estava na saleta. Era um quadro pequeno, escuro, representava O vestíbulo de uma casa rica, onde uma velha estava sentada, inclinada para a frente, e mal se lhe via O rosto, quase coberto por um chapeuzinho que mais parecia uma touca; tinha um guarda-chuva junto aos joelhos e apoiava-se com as duas mãos sobre O cabo, numa atitude inconfundível de espera. - Bonito vó Lola? - Muito bonito. Parece que ela está ali para fazer algum pedido, não parece? - A velha? - Deve ser uma dessas importunas que vêm pedir emprego para O filho, disse Lídia rindo, ah, ah. E a gente tem que receber e ser importunada por elas, ah, ah. - Eu sei que custou caro. Voltavam então a falar de suas preferências, seus pianos; queriam ter barcos, cavalos, automóveis das melhores marcas, realizar grandes viagens. Então eu falava de Sílvia, que ela tocava Beethoven, Villa Lobos, ia ser pianista, grande pianista. A professora disse que logo ela tocaria Schumann, músicas de um caderno com O título "Peças Fáceis de Schumann". Este compositor escrevera coisas lindas. Tocaria Bach também, as músicas de Bach eram parecidas com as de tio Damião - Tra-la-la-la? Tri-li-li-li. Olharam incrédulos. É? Não se interessaram. Saíam quase diariamente, só se reuniam para as refeições; quando Julinho e Maria Laura iam jantar fora, as duas meninas pediam para ir ao cinema com a vizinha; O filme era formidável, todas as amigas já haviam assistido. À meia-noite eu via quando as duas chegavam; desciam de um automóvel perto da casa; enquanto Lídia entrava, Ivone continuava no carro conversando com um rapaz. Ficavam em cochichos durante meia hora, então Lídia assobiava do quarto, já de camisola, na janela, chamando a irmã. Uma noite, era quase uma hora, Lídia impaciente gritou: - Você quer que mamãe te pegue, não é? Uma hora da manhã! Ivone desceu e, de pé na calçada, continuou a conversar debruçada para dentro do carro; depois puxou O braço que alguém segurava e não queria largar. Vi que a beijaram. Afinal, desvencilhou-se e correu para casa; ouvi as vozes discutirem no quarto. Maria Laura me contou, contrariadíssima, O namoro de Ivone; um rapaz que perdera a fortuna no jogo, sem juízo, boêmio, tinha um emprego ordinário, quinze anos mais velho que ela, quase pobre. Ao pronunciar essa palavra, tornou a repetir com ênfase para ficar bem gravada: - Pobre! Sem vintém. Ela acostumada com a vida que leva, que é que está pensando? Vão viver de que maneira? Já avisei muitas vezes Se eu a vir em companhia desse sujeito, faço um escândalo que vai deixá-los envergonhados diante de toda a gente. Sou capaz de fazer as piores coisas, ela sabe disso. Batia O pé; Ivone se encolhia, por que mamãe falava daquele jeito? Não havia nada, há muito tempo não se encontrava com êle, não havia mais nada, nada. Houve jogo numa quinta-feira; as meninas pediram para ir ao cinema com a vizinha. À meia-noite O automóvel estava na esquina e Lídia entrou na frente para sondar, tudo em ordem. Ivone ficou quarenta minutos a se despedir do dono do carro, O busto para dentro e O resto do corpo, que estava fora, se contorcia, se inclinava, se encolhia, se virava, voltava para trás, por pouco entrava no automóvel de novo e os braços pareciam mais compridos, presos no escuro do carro, sempre com as mãos lá dentro, ela puxava, puxava e êle não queria largar. Até que O assobio fininho de Lídia, três em intervalos regulares, fiu-fiu-fiu, avisou que estava na hora. Ivone deu um puxão, parece que O braço ficou dentro do carro, mas ela correu e entrou em casa. zzz Capítulo VII Zzz As meninas liam livros de nomes arrevesados depois f discutiam com as amigas "problemas do sexo". E quando Júlio César se aproximava, calavam-se ou mandavam-no embora, "isto não é assunto para menino". Ivone, muito séria: - Devia haver uma espécie de casamento experimental para se conhecer O futuro marido, assim a gente viveria quatro meses com O noivo, se não desse certo desistiria do casamento. Deu uma batidinha no boné listado e continuou: - Como é que se pode viver com um moço sem se conhecer. nada dele, nem O corpo, nem a alma. Você não sabe se êle tem algum defeito, ou ferida na perna, ou falta um dedo no pé, ou tem O corpo manchado. Pode ser que seja diferente em tudo, goste de coisas que você não gosta, goste de deitar cedo, de ler na cama, de andar de chinelos, de pôr O pijama para jantar... Lídia interrompeu com um gritinho: - Ou não escove os dentes e nem tome banho... Riram e fizeram caretas; uma das amigas pensou um pouco: - Eu acho que quatro meses é muito, dois bastariam. - Dois só gritaram. Então você pode conhecer um homem em dois meses de convivência? - Para se conhecer de verdade, é melhor um ano, falou Ivone atravessando a sala para pôr um disco na vitrola. Em um ano ninguém pode esconder coisa alguma, nem disfarçar. De ano em ano a gente troca, até dar certo. - E como é que dá certo? perguntou Lídia fervendo de curiosidade. Como é que se sabe quando dá certo? O saxofone que tocava O fox-trot deu um guincho agudo; Ivone fêz uns passos de dança, ninguém respondeu à pergunta de Lídia. Ela ficou pensativa, as pernas dependuradas no braço da poltrona. Escutavam a música, depois falavam em vestidos e jóias. _ Mamãe disse que para O fim do ano vai me mandar fazer um vestido de cetim finíssimo, nem que seja para pagar cinco mil cruzeiros, mas quer coisa boa. Quanto você pensa que custou aquele meu cor-de-rosa? De baile? Três mil e cinqüenta cruzeiros, disse Ivone.. Houve uma pausa. A do vestido de cinco mil cruzeiros voltava:,.. _ E vai também me comprar um relogio-pulseira de ouro e safiras. Será O. meu presente de Natal este ano. Ivone não queria ser derrotada, lembrou: - Sabe aquele anel de brilhantes e pérolas que mamãe usa algumas vezes Vai ser meu quando me casar, ela ja disse Lídia entrou na conversa, voz enguiçada. _ E você sabe (cara a cara, para a amiga) e você sabe realmente quanto está custando esse anel de mamãe que Ivone falou? Mais de cem mil cruzeiros! - Muito mais, replicou Ivone num risinho de mofa, muito mais! A amiga retrucou com energia: Por falar em jóias, não sei se vocês se lembram daquela pulseira que mamãe tem, larga assim toda de brilhantes ela mandou avaliar outro dia, adivinhem por quanto avaliaram..... Ninguém queria saber, ela continuou, triunfante. Duzentos e cinqüenta mil cruzeiros Imaginem Uma simples jóia. _ Mamãe também tem um de brilhantes, vovó deu O ano passado, disse Lídia inquieta, receando ficar em segundo plano. E as jóias que vovó tem, que maravilha... - Papai vai comprar um automóvel novo, um Lincoln, falou Ivone arquejando para ver se conseguia levar vantagem agora, já que perdera nas jóias. Está na fila há muito tempo, adoro O Lincoln! - É mesma, gritou Lídia agudamente. Já encomendou, já encomendou. - Mas tem. que esperar acabar a guerra, lembrou a amiga. j - Mas já encomendou, tornou a guinchar Lídia. E sabe O que êle vai nos dar de presente? Dois cavalos lindos, vamos andar a cavalo todas as manhãs; estou louca de alegria. Pulava com as pernas compridas, batia palmas, Ivone exultava, a amiga retrucou friamente: - Cavalos? Ah, não gosto de andar a cavalo, não aprecio esse esporte. Ar de pouco caso. Ivone e Lídia falaram em cavalos puro sangue, meio sangue, a amiga não se interessou. A outra amiga começou a discorrer sobre a chácara que possuíam perto de Petrópolis, aquilo que era chácara, cada vez t mais bonita. O pai iria oferecer uma grande festa, um ai- moço, serviria apenas champanha; apesar da guerra, possuíam caixas da mais fina champanha. Convidariam muita gente, seria um sucesso. Assobiou de leve. Lídia lembrou, impaciente, a voz mais aguda: - Vovô vai comprar também uma chácara, não é Ivone? Disse que nós é que vamos escolher, já vimos três mas não gostamos de nenhuma, queremos que tenha piscina de azulejos. - A nossa tem piscina, gritou a amiga. - A nossa terá piscina, cavalos e um bar. Quero um bar. Quero ura bar rústico, todo de madeira ao lado da piscina. Vamos nadar e tomar cocktails..., falou Ivone, ofegante. E terá guarda-sóis listados à volta, com mesinhas e cadeira de ferro, triunfou Lídia. Tudo isso vovô vai nos dar. Ficaremos horas inteiras de maio, bebendo Martinis, depois mergulharemos outra vez... Vai ser uma delícia.. A amiga interrompeu: Não gosto de Martini, prefiro Gin tônica com canudinho. Lídia continuou: - Então você toma Gin tônica, eu prefiro Martini seco O bar vai ter tudo, cada um beberá O que quiser... E tomaremos banho de sol no gramado, falou Ivone. Convidaremos muitos rapazes, depois do banho de sol puí ff... piscina outra vez. Vai ser formidável. Lídia passou os braços sob os joelhos, levantou as pernas e sacudiu-as. Ta-ra-ra-rim... Ta-ra-ra-rim... A amiga sentiu-se derrotada. Pensou um pouquinho, então contou que quando acabasse a guerra, iriam aos Estados Unidos, depois à França; O pai já reservara passagem no primeiro vapor. Que vapor? gritou Ivone, incrédula - O primeiro que partir do Brasil depois da guerra... - Ah, isso é muito vago, cantarolou Ivone e deu uma risadinha irônica. Lídia riu agudamente e repetiu: - Ah, isso é muito vago, va-guís-si-mo. Prefiro a minha chácara com piscina, bar e Martinis. Para você (apontou para a amiga O braço comprido) garçon, uma Gin tônica bem gelada com canudinho de palha, ta-ra-ra-rim. Sacudiu energicamente as pernas no ar. Ganhara a batalha. Falei vagamente em voltar para S. Paulo. Como? E as festas de aniversário da firma? Fagundes Vaz e Cia. Limitada ia fazer cinqüenta anos de vida e eu ma embora sem assistir a esse acontecimento? Seu Raimundo esfregou as mãos gordas, cobertas de pêlos escuros, perguntando se eu queria partir sem esperar as festas da firma. Ora essa, ora essa! Fui ficando. Convidaram-me para almoçar no apartamento deles. Havia uma sala dando para O mar, muitas pratas pelas paredes, na mesa, nos aparadores: bandejas, açucareiros, jarras. O paliteiro era uma ave com bico comprido que baixava, abria O bico e tirava O palito, tudo de prata. E muitos tapetes. Senti-me honrada com O convite. Serviram um cozido à portuguesa com muito azeite, legumes, carnes cozidas, pedaços fofos de toucinho, tudo bem tenro, de derreter na boca. À sobremesa serviram trouxinhas de. ovos deliciosos, amarelinhas, macias. Julinho me fêz tomar vinho, eu implorava, não pusesse mais vinho no meu copo. Reclamavam todos: "Ora essa, não gosta do bom vinho português?" E meu copo estava novamente cheio; eu tornava a beber, era saboroso, adocicado, um néctar, e há quantos anos eu não bebia vinho! Senti os olhos úmidos, O coração muito terno, carinhoso. Tornei-me amável, de uma amabilidade insistente, afetuosa. Queria saber quando iriam a S. Paulo, queria oferecer-lhes um almoço, mas um almoço todo especial, feito por mim. Ninguém sabia, iam raramente mas aceitavam O convite, iriam um dia almoçar em minha casa. Lembrei-me então de que não tinha casa, morava em casa do genro, mas continuei a oferecer, insistindo sobre O almoço. Qual era O prato predileto de seu Raimundo? E da D. Aninhas? Não queria mais vinho, obrigada, mas Julinho a teimar, a dizer que O vinho era fraquíssimo, O bom vinho português; eu não estava habituada, não podia abusar. Seu Raimundo exclamava: Ora essa, ora essa. E dizia que O vinho era como água, só fazia bem. Meu coração cada vez mais carinhoso, como se fosse derreter, meus olhos mais úmidos, uma vontade de derramar lágrimas, vontade louca de chorar. Seu Raimundo, com voz muito grossa, perguntou: - Onde está seu filho? Onde está? - Combatendo no Pacífico. - Aonde? Inclinou-se, segurou a orelha. No Pa-cí-fi-co. Fica muito longe daqui, do outro Fiz um gesto vago; êle enfiou unia trouxinha de ovos na boca. - Mas O Pacífico é um oceano, oceano Pacifico Como pode êle combater num oceano? Fiquei pensando, depois lembrei e falei aos gritos: '- Êle é marinheiro. Ma-ri-nha. É O quê? É da Marinha. Marinheiro. - Muito bem. Então vamos beber à saúde do marinheiro! Sirva-se de vinho, sirvam vinho aqui. Agora eu vou chorar, não posso mais, vou chorar. Mas não devo, tenho que beber à saúde de Alfredo, quero ver se agüento mais um pouco. Preciso ficar firme. Firme - Pela volta do marinheiro que está lutando pela Liberdade. Pela Liberdade! Virei mais meio copo pela Liberdade. Meu coração transbordava, me oferecem almoço de luxo, brindam pela volta do meu filho, gente boa e honesta, creio que vou chorar. Firme. Firme. Bebemos pela volta de Alfredo por todos da mesa, pelo almoço, pelo vinho por Alfredo outra vez. Pela Liberdade. Li-ber-da-de Comecei a analisar, O que é pela? "Pela... pela... E Liberdade? Cantarolei -Liberda-a-de! Liberda-a-de! Abre as asas sobre nos! Virei brinquedo a que dessem corda e a corda desconsertasse; falei, falei... Julinho mudou um furo na cinta de couro, esparramou O corpo na cadeira, abriu as pernas, suspirou Continuei: Liberda-a-de! Liberda-a-de! Abre as asas sobre nos Naquela meia tontura que senti, vi as flores da mesa mudarem de côr, a princípio azuis, depois vermelhas, depois verdes; as confundia com as flores bordadas da toalha. Recitei As Pombas de Raimundo Correia "Vai-se a primeira pomba despertada, vai-se outra mais, mais outra, enfim dezenas... de pombas vão-se do pombal apenas raia sangüínea e fresca a madrugada..." Atirei miolo de pão na cabeça de Julinho e êle ria, ria e parece que dizia: "Que tal é O vinho?" Lembrei de um homem chamado Pinduca; meu pai dizia: Pinduca vive na água. Bebia pinga e vivia na água, nunca compreendi. Vou chorar, não, não vou. Firme. Olavo Bilac tinha uns versos que falavam em máscara da face. Por fora estou rindo, por dentro estou chorando. Cantarolei um trecho do hino da bandeira, esqueci O resto, Julinho me auxiliou, fomos nos amparando até O fim e repetimos O estribilho, bateram palmas e eu voltei à Liberdade: Liberda-a-de! Liberda-a-de! Abre as asas sobre nós Das lutas na tempestade.. Marquei compasso com O garfo, como tio Damião. A garrafa de água ao meu lado ia entortando, eu endireitava e colocava-a de pé outra vez, ela tornava a entortar, eu tornava a endireitar. Que coisa. O paliteiro tomou proporções grandiosas, a ave de bico comprido tirava dois, três palitos de cada vez e oferecia às visitas Seu Raimundo palitava os dentes com palito de prata, a prata rodava na sala. D. Aninhas mandou vir café; seu Raimundo trovejou: - Ó Aninhas, não vem esse café? Repeti cantarolando: "Ó Aninhas, não vem esse café?" Um, dois, três, marcando compasso. Esse café, esse café. De vez em quando eu fixava Julinho, Maria Laura, a D. Aninhas e seu Raimundo para ver se estavam rindo de mim, me ridicularizando. Não, não estavam, estavam marcando compasso e cantando. Depois tomaram café e usaram os palitos de prata. Tudo era de prata. Tomei café em tragos largos, apressados; olhei Julinho de novo, estaria rindo de mim? Tornei a convidá-los para O almoço em S. Paulo, seria um prato diferente, feito por mim. Insisti que marcassem O dia, queria que fossem logo, no próximo mês. O brinquedo continuava, quebrado, a corda girava, girava. Reco mecei batendo O pé: "Liberda-a-de! Liberda-a-de!" Marcaram compasso me acompanhando. Quando, afinal, levantamos da mesa e fomos para O terraço, meu filho deu uma pahnadinha amistosa no meu braço: - Então, minha velha, gostou do vinho? Fechei carranca e fingi-me zangada: - Por que me fêz beber tanto? Você é culpado. Êle riu sacudindo os ombros, charuto na boca, homem rico. - Ora essa, a senhora bebeu porque gostou, não sou culpado coisa nenhuma. Veio-me então um peso, uma sonolência, uma tristeza e fiquei murcha num canto, sem vontade de falar nem de fazer convites. Vontade de emudecer, sair dali, voltar para casa. Quando entrei no meu quarto uma hora depois, chovia torrencialmente e O vento dobrava as árvores Aborrecida por ter falado demais, como um brinquedo desandado, apreensiva pelo filho soldado que combatia pela Liberdade, sentei-me na cama e esperei a noite cair. Chovia e ventava. Ivone dizia, sorridente, mostrando um rapaz que passava num automóvel verde: - Aquele é O Edgard, O que desquitou de Marina Seixas. Enquanto falava acenava para O rapaz que correspondia da mesma maneira; as amigas e Lídia inclinavam-se para vê-lo melhor, curiosas e irrequietas. Lídia achava-o um colosso Outra vez, trouxeram para casa uma mocinha de vinte e poucos anos, morena e simpática. Dias depois, eu ouvi comentários: - Vovó Lola lembra-se de Leda? Aquela morena que apresentamos à senhora? Divorciou-se O ano passado, tem dois filhinhos. Diante do meu espanto, continuaram a falar de Leda e quando fiquei penalizada, riram com gosto. - Mas ela já vai casar outra vez, está noiva de um rapaz corretíssimo. Eu batia a cabeça, como é que todo O mundo aceitava essas coisas tão naturalmente? Tinha vontade de contar a história de uma parenta que se separou do marido porque era um homem muito ruim e ela nunca mais saiu de casa. De desgosto. Mas não conto; haviam de dar gargalhadas e perguntar: Mas quando isso? Só se foi no tempo de Adão e Eva. Não conto. Houve um caso de desquite de um casal conhecido de Julinho enquanto estive no Rio; deu muito que falar. Todos os dias chegavam notícias acerca dessa separação; as meninas comentavam O fato, davam palpites, falavam sobre outros casos, davam opinião, diziam como é que O casal deveria agir. Era O assunto do dia. Eu tornava a bater a cabeça, sem compreender. Julinho chamou minha atenção. Eu pensava que aquilo só acontecia no Rio de Janeiro? Em toda parte, em toda parte. Respondi que nunca percebera da maneira como estava agora, tantas separações seguidas, devia ser próprio das cidades grandes, das capitais. Riram-se. Julinho falou pausadamente: Mamãe, a senhora não sabe desses fatos em S. Paulo porque a senhora pertence a outra camada social e nessa camada onde a senhora vive, há poucos desquites. Fêz uma pausa e continuou dizendo que a minha classe era mais comedida nos divórcios, não porque vivesse em harmonia, mas porque não tinha dinheiro e um desquite custa caro. A classe deles no Rio, a classe em que eles viviam era onde havia mais separações, ninguém suportava nada, era a alta burguesia. Riu-se: - Os ricos, os burgueses ricos. Perguntei como se chamava minha classe em S. Paulo, humildemente. - O pequeno burguês, a classe média. As D. Genu, as Isabel e Felício, etc - As D. Lola..., rematei. Êle riu-se e me abraçou como a desculpar-se. Ri-me também, mas fiquei magoada. Êle não precisava falar assim com desprezo: A classe média, as D. Genu, as Isabel. . Fora rude. Para que dizer que somos burgueses pobres? Pequeno burguês. Para quê? Estou cansada de saber que sou burguesa e pobre, desde O tempo em que Carlos e Alfredo discutiam na Avenida Angélica; não precisava dizer as D. Genu, as Isabel e Felício, para quê? Alguém tem culpa de ser pobre? ' Pobreza é como doença, alguém tem culpa Êle também fora, pertencera à classe média, agora estava orgulhoso de ser da alta. Grande coisa pertencer à alta burguesia, grande coisa. Julinho ficou assim orgulhoso depois de rico. Êle era delicado, atencioso, modesto, simpies, inteligente. Agora até parece que perdeu a inteligência, quanto ganhou em dinheiro perdeu em inteligência Imagine, as D. Genu... As Isabel... Para que ofender? Está gordo, cheio de dinheiro, chamando a gente de pequena burguesia. Antes pertencer à pequena burguesia sem muito dinheiro e sem desquites do que pertencer à alta com muito dinheiro e pouca vergonha. Isso é que eu deveria dizer. Tulinho teve coragem de falar assim sabendo que D. Genu, é minha amiga. Desaforo. As D. Lola... Não falou mas pensou. Também, por que fui perguntar Só para ver como êle respondia, eu conheço muito bem minha camada, minha classe; desde a Avenida Angélica. Êle também pertencia a essa camada, a essa pequena burguesia; agora porque tem uns caraminguás, automóvel, casa, quadros na parede, tapete no chão, fala assim: Sou da alta burguesia. Alta O que, já esqueceu que um dia chorou por que não tinha manteiga na mesa? Dinheiro às vezes é um mal. Outra noite, ouvi-o contar com entusiasmo: - O Durval fêz um negócio esplêndido. Foi esperto como O diabo; imaginem que deu um jeitinho naquele negócio do algodão, distribuiu umas notas, comprou um, tapeou outro e saiu ganhando um dinheirão. Rapaz de sorte. Risadas de Maria Laura, risadas de todos da mesa. Tive vontade de dizer: "Isso nos outros tempos seria roubo. Hoje quando dizem tapeação, esperteza, seria roubo no meu tempo." Não digo nada. Eles haviam de rir mais e perguntar: Quando? No tempo de Adão e Eva? Fico quieta e penso que sou demais neste mundo. Não compreendo muitas coisas, preciso deixar meu lugar para os outros. Em vão procuro entender O que vejo. Fiquei mais uma semana por causa da festa da firma. Fizeram vestidos novos, haveria baile que a firma ofereceria aos empregados da casa. Todos estavam excitados e Júlio César contava os dias que faltavam. Certa manhã recebi carta de Sílvia; estava estudando outra música de Villa Lobos: "Garibaldi foi à missa". Nós também fomos a uma, na Candelária, em ação de graças pelo cinqüentenário de Fagundes Vaz e Cia. Limitada. Ao meio-dia os chefes reuniram-se novamente para O almoço em casa de Julinho e Maria Laura. O almoço foi demorado, acompanhado de champanha. Julinho era, agora, um dos principais chefes de Fagundes Vaz e Cia. Limitada; falava com voz grossa cheia de autoridade, porém com certa benevolência para os subalternos. Vendo-o dirigir aquêles homens, alguns mais velhos que êle, não pude deixar de me sentir orgulhosa. Era O meu Julinho: firme, respeitado, rico e importante. Tinha um modo de falar diferente: - Ó Santos, sirva-se de vinho, homem, que está delicioso. - Você, Trancoso, não repete os frios? - Ó Amaro, não venha me dizer que não gostou do peixe. Conversou com todos, fêz discurso: "Se não fossem vocês homens de critério e bom senso, que seria de Fagundes Vaz e Cia. Limitada? Eu, um simples trabalhador..." "Não apoiado!" "Nada poderia realizar sem O auxílio valioso dos meus sócios e amigos." Ouviam em silêncio, apoiando-o mudamente com as cabeças, sim senhor, ou repetindo "não apoiado" quando êle se fazia modesto. Seu Raimundo esforçava-se por ouvir, inclinava-se, dobrava a orelha; olhava os outros e sacudia a cabeça. Novos goles de champanha, palmas, muito bem. As mulheres abanavam-se com leques, constrangidas, apertadas naquela mesa coberta de iguarias e bebidas. Um dos sócios tirou então um papel do bolso, leu outro discurso; historiou a firma desde O nascimento, lembrou Camões, elogiou seu Raimundo. D Aninhas comoveu-se, enxugou discretamente os olhos; O orador continuou, citou antigos nomes de fundadores: "O defunto Cunha Vaz..." Seu Raimundo redobrou de atenção, confirmou, isso mesmo, muito bem. Novas palmas. Espalharam-se depois pelo terraço na sonolência da boa digestão, fumaram charutos, estenderam as pernas, palitaram os dentes, elogiaram O almoço. Sim senhor, seu Julinho. Batiam-lhe nos ombros, cochichavam anedotas, sim senhor. Afinal, foram se retirando, pesados ainda do almoço, acenando até mais tarde, no baile. Preparamo-nos para a festa às vinte e uma horas. Maria Laura, apareceu de azul, com diamantes e pérolas, um decote atrás que ia até a cintura. Ivone e Lídia de vestidos compridos, brancos vaporosos; estavam lindas. D. Aninhas quando as viu, sus-.'.> surrou-me ao ouvido: - São duas açucenas. Veja que galanteza, duas açu- cenas! Ivone comentou: - Vovó Lola com O cabelo puxado assim está sofistiqueited. Não sei O que quer dizer isso. Será um elogio? Lídia e ela riram-se. O salão de baile estava cheio; quando entramos bateram palmas e gritaram: "Viva O senhor Júlio! Havia lugares especiais reservados para os chefes. Maria Laura havia me emprestado um vestido prêto, enfeitado de renda e eu não podia quase andar, com a saia a bater-me nos pés. Sentamo-nos. A orquestra começou a tocar e os pares foram se espalhando pelo salão; dançavam uma dança esquisita, que era aquilo? Quase não andavam, O par ficava, abraçado no meio da sala, de quando em quando um passo para a frente, outro para trás, um para a frente, outro para trás, faces coladas uma na outra, sonolentos. Ivone e O filho de um dos sócios cambaleavam no meio do salão; Lídia com outro rapazinho fazia O mesmo. Perguntei a Júlio César que era aquilo, riu-se e respondeu: Blue vovó Lola. Quando a dança terminou, tornei a perguntar às netas: Isso é dança? Riram-se muito. - Que há de ser vovó? - Pensei que era algum jogo. A música era muito lenta, parecia canto de embalar berço, os músicos tocavam de olhos fechados, os pares não saíam do lugar. Que coisa. Repetiram aquela esquisitice, Que diferença do meu tempo; a gente virava, volteava, marchava, dava uns passinhos, uma volta, outros passinhos, havia animação, ritmo. Agora era aquela malícia, muito colado, vai - não vai, dança boba. Vieram rapazes cumprimentar os chefes, senhoras falavam com Maria Laura, com D. Aninhas, que beleza, a festa está linda De repente O saxofone deu gemidos lancinantes, ora parecia sapo, ora boi; a clarineta guinchou, O pistão acompanhou, O trombone fêz fuen... com toda a força, e O bumbo: tum.... tum.. tum... O salão parecia ensurdecer com O barulho. Onde estão os violinos? Não havia nenhum. Ah meu tempo. Um rapaz encaminhou-se para a frente, segurou O microfone, cantou em inglês, a voz era lúgubre, sinistra. As netas disseram que era uma beleza. A dança era um sacudir de corpos, um balanceado de quadris, que é isso agora? É fox-trot, vovó Lola. Qual, sinto-me perdida, não entendo esta geração. Outro dia vi no jornal O. quadro de um pintor célebre; virei O jornal de todos os lados, procurei, não percebi nada. Chamei Maria Laura, que significa isto? Ela também nao entendeu, mas disse que era bonito, O pintor era notável e toda a gente queria ter um quadro dele. Fiquei olhando aquela mancha do jornal e me lembrei que antigamente apareciam figuras assim em jornais e uma frase embaixo: Onde está O coelhinho?" Ou "Onde está O homem a cavalo? Quem acertasse, recebia um prêmio. Li dez vezes uma poesia e não descobri sentido algum, perguntei para as meninas se ali não faltava nada, deve faltar alguma palavra, estava incompreensível Riram, e assim mesmo. Onde está O ritmo? Não precisa. E a rima? Não existe. Agora eu ouvia música: um socava O bumbo, outro dava batidas aqui e ali, a trompa e O pistão apostavam para ver qual gritava mais, outro ficava inchado de tanto assoprar outro gemia, outro gania e miava, todos os animais estavam ali representados Geração estranha. Sou demais no mundo, não compreendo nada, preciso ceder meu lugar aos outros. No meu tempo... Que tinha eu de falar para as netas "no meu tempo. Que tinham elas com isso? Cada um tem O seu, acabou-se Fagundes Vaz e Cia. Limitada divertia-se. Havia bebidas, mesas de doces, salgados. A orquestra recomeçava, toda a gente se espalhava, O moço que segurava O microfone cantava languidamente Júlio César disse que era outro fox-trot; depois a música saltitou, disseram que era samba. Perguntei se não tocavam valsas. Valsas? Valsas? Ninguém gosta, dão risada. De repente toda á gente enlouqueceu; os rapazes jogavam as moças para trás, davam um giro, puxavam-nas para a frente, outro giro; tudo muito depressa, muito rápido, mal dava tempo para se acompanhar aquela maluqueira. Nossa Senhora do Carmo, que é isso meninas? Nesse instante Ivone saiu de perto de mim, como um vendaval nos braços de um rapaz; estremeci. Lídia riu e falou um nome esquisito; perguntei se era assim mesmo, disse que sim, barbaridade. Mal acabou de falar, desapareceu, um rapaz magrinho de grande cabeleira arrancou-a com força. Que coisa desesperadora. Às vezes as moças pareciam ficar sem cabeça de tanto se inclinarem para trás, voltavam outra vez, a cabeça estava no lugar: giravam, depois O rapaz largava O par e ia segurar lá adiante, nem sei como não trocavam. Os músicos riam, Julinho e Maria Laura riam, os sogros riam, todo O mundo ria. D. Aninhas sacudia a cabeça reprovando e ria. Divertiam-se enormemente, perguntei outra vez: - Que dança é essa? O mesmo nome esquisito. Está certo isso? É assim mesmo? A clarineta dava guinchos como se estivessem matando um porco, O saxofone ria ha, ha, ah, ah. O pistão dava urros, O trombone roncava e O bumbo quase se arrebentava de tanto ser esmurrado. Coisa louca. Os casaizinhos se atiravam um contra O outro, se apartavam, se juntavam, rodopiavam; de repente os rapazes atiravam as moças para O ar, aparavam, jogavam para um lado ou para debaixo das pernas, tornavam a puxar, a aparar, a segurar Procurei as açucenas, estavam perdidas no vendaval, levadas pelo tufão. Mas isso é dança? perguntei pela terceira vez. Pareciam loucos. Será que enlouqueceram? Os que V não dançavam estavam de lado aplaudindo, rindo, batendo palmas; quanto mais forte eram os arrancos, os puxões, os encontrões, mais aplaudiam. Onde estão os violinos? Ah, meu tempo. Cada um tem O seu, ora esta. Toda a gente ria, era para rir. Isso é dança? Bárbaros. Novo intervalo; respirei aliviada, a loucura passara. Os rapazes enxugavam os pescoços, as testas, as moças se abanavam frenéticamente; todos foram beber. Ouvi Ivone dizer com admiração: - O Carlinhos bebe dez whiskies seguidos e não tica tonto. Êle é formidável! As amigas também admiraram O Carlinhos. Formidavel. Perguntei quem era O moço; era filho de um dos sócios, estava noivo pela terceira vez. Os noivados não deram certo Desmanchara dois? Nada disso. Fora casado duas vezes, tinha um filho da primeira, ia casar-se com a terceira. Muito bem, perfeitamente. Veio outra vez a dança mole, ninguém andava; os pares se abraçavam e os corpos iam para a frente, para trás uma preguiça, uma moleza como nunca vi. Que dança e essa Blue. Não dançam valsa Ninguém gosta, dão risadas As netas apoiavam aquela maluqueira, gostavam de dançar assim, corpos colados, rostos colados, indolentes, moles Uma hora correm e pulam feito loucos, jogam as moças pelos ares como se elas fossem de pano, desengonçados, desarticulados, desajustados, agora é essa preguiça, essa indolência contraste louco. Geração desgraçada. Soiistiqueited." Vamos embora? Despedimonos e saímos depressa, graças a Deus. Saí tropeçando na saia comprida, ainda com os ouvidos cheios daquela música de gritos e guinchos Fagundes Vaz e Cia. Limitada dançou até de madrugada daquele jeito: esperneando, tremelicando, pulando, atirando O corpo para os lados que nem boneco que a gente puxa a. cordinha e eles ficam saltando sem parar. Sou demais neste mundo, não compreendo coisa alguma. D Frida surrava Maria Laura três vezes por semana; no silêncio da casa ouvia-se O ruído seco das tapas. As vezes as mãos de D. Frida deviam estar meio cerradas, côncavas, porque O som era rouco, como que fechado a surradevia ser no dorso; às vezes O som era aberto e forte tla-tla-tla, provavelmente nas nádegas. Dava palmadas seguidas e rápidas depois lentas como se contasse: tlá-tlá-tlá para finalizar desse lado. Quando não se ouvia barulho de tapas, era a voz estridente de D. Frida falando alto. Era a hora dos apertões, dos beliscões, como se fizesse massa de pão. Esticada na cama, coberta com um lençol de linho, Maria Laura apanhava em silêncio, só a voz de D. Frida perturbava a quietude. Era uma alemã robusta e sardenta, cabelos côr de cobre, suarenta, com mãos grandes, quase brutais. - Eu digo para a senhora que O mundo está ficando cada vez mais ruim. Cada vez pior. Essa guerra só pode trazer desgraças. - Hum, fêz Maria Laura rebolando-se como gata satisfeita. D. Frida apertava-lhe agora a barriga. - A senhora vai ver, nunca mais haverá paz; será uma guerra depois da outra. Tlá! A bofetada ressoou, Maria Laura falou qualquer coisa, a frase saiu entrecortada por causa dos apertões na barriga. A voz da alemã trovejou: - Respire! Outra vez. Outra vez. Pausa. - Pode virar agora. Eu não gosto de Hitler. As solas dos pés eram espremidas com força, D. Frida devia estar suando, os cabelinhos pregados na nuca, na testa. - Não gosto daquele homem. Acho que êle é um sádico. Manda matar tanta gente... - Hum, repetiu a gata. Falou com voz abafada, como se a estivessem estrangulando. - A outra faça O favor. Assim está bem, muito bem. Não gosto de tiranos, acho que êle é um tirano, a senhora não acha? Não veio resposta. D. Frida continuou: Já sé foi O tempo era que O povo agüentava os tiranos. Eles mandavam distribuir vinho e abrir circo quando havia muitos descontentes, pronto, O povo ficava alegre outra vez, esquecia sofrimento, fome, tudo. Palmadinhas, beliscões. Agora está diferente, nem que Hitler mande dar vinho e festas depois desta guerra, ninguém ficará contente. Tudo mudou, madame, O mundo está mudando sempre, as gentes também. Apertões. Deitada de bruço, olhos semicerrados de animal satisfeito, Maria Laura concordava enquanto D. Frida amassava suas costas morenas e nuas. Vinha do jardim eco das vozes de vários meninos brincando. Júlio César e os amigos voltavam juntos do colégio. Um deles, devia ser O vizinho, distribuía papéis. - Você é Aramis, Carlinhos é Porthos você é Athos, eu sou D'Artagnan. Chego e venço todos. Athos perguntou porque D'Artagnan escolhia sempre os melhores papéis, não era justo; começou a dar pontapés nas pedrinhas do jardim. D'Artagnan encolheu os ombros, era O mais velho, ora esta e tivera a idéia. Atirando os livros numa cadeira do terraço Júlio César propôs: - E se brincássemos de Tarzan? Os outros não aprovaram e depois de confabularem entre si, resolveram continuar brincando de mosqueteiros, D. Frida passou pela copa e tomou café, não podia passar sem O cafezinho brasileiro; perguntou-me se eu estava gostando da temporada, olhou O relógio mais de uma vez e disse que ia agora para Copacabana, tinha que fazer massagens numa senhora que pesava noventa quilos. Repetiu: - É bastante noventa quilos. Puxa. Despediu-se e passou pelo jardim onde os mosqueteiros conspiravam. Era sábado. Em S. Paulo àquela hora, tio Damião sentado na cozinha, contava a Isabel a história de Maria Isabel Traga Malhas, a barregã d'el rei D. João IV. E enquanto nossa Isabel escolhia pacatamente O arroz para O almoço, tio Damião de pé, em mangas de camisa, a barriga saliente acima do cós das calças, fazia desfilar diante dela os amores dos reis portugueses. Enumerava nos dedos: Temos a Terçsa Martins, amante de D. Diniz, a Maria Manuel, amante do rei D. Duarte, a Isabel Moniz, amante de D. João III, a Maria Pais, de Sancho II, Ana de Mendonça, de D. João IL E lá disse O grande Camões, justificando O amor de D. Fernando por Leonor Teles: "Mas quem pode livrar-se porventura, Dos laços que Amor arma brandamente?" Haveria uma pausa na cozinha enquanto Isabel escolhia docemente as folhas de alface para a salada. A voz de tio Damião cresceria no silêncio: - E que monta ser rei, quando se é frágil como qualquer homem?" Ninguém responderia a pergunta de D. João IV e Isabel estaria cansada de ouvir falar nos amores dos reis porque quando tio Damião principiava O assunto, ninguém O fazia calar; até eu sabia de cor esses amores e a paixão d'el rei pela Traga Malhas. Tio Damião haveria também de cansar-se e terminaria declarando: "Camilo! Camilo!" Como a pedir socorro. Maria Laura ainda não descera para O almoço, seu Raimundo chegou: - Aquela preguiçosa teve massagem hoje? Ainda não desceu? Êle gostava de falar para não ter que ouvir. Ivone e Lídia beijaram O avô; vieram da praia e ali mesmo na saleta enquanto perguntavam - como vai vovô? - foram desabotoando as saias de flores berrantes e ficando só de roupa de banho, as pernas muito fortes e morenas terminando em sandálias abertas. Falavam juntas perguntando se estavam atrasadas, onde estava mamãe, teriam tempo de tomar um banho de chuveiro? Subiram as escadas correndo, as saias multicores sacudidas no ar como bandeiras desfraldadas. Seu Raimundo achou assunto: - No meu tempo de rapaz seria um escândalo andarem assim. Pior que escândalo, seria degradante, sem palavras para definir. Eu me lembro... Fêz comparações, divagou largamente. Seu rosto avermelhado era plácido quando conversava, mas sua boca entortava do lado esquerdo quando ficava zangado ou emocionado, assim como O olho que desse lado estava sempre fechado e parado. Os bigodes brancos eram aparados com cuidado e no alto da cabeça alguns fios, também brancos, estavam sempre esvoaçando. Completara 68 anos, gabava-se da saúde e do bom apetite. Uma ou duas vezes por semana, principalmente aos sábados, almoçava em casa de Julinho, e Maria Laura mandava então fazer pratos especiais para agradar O pai. Êle esfregava as mãos grossas e polpudas ao perguntar quando iam pára a mesa, na esperança de encontrar os quitutes prediletos. Sua grossa mão me apontou: - Qual é O jogo que a sociedade mais aprecia hoje em dia? O pif-paf. E O buraco? É O jogo mais corriqueiro e fácil que existe. Que significa? Significa a futilidade da época. Ninguém quer pensar, ninguém quer se esforçar. Antigamente os jogos requeriam inteligência, intelecto, pensamento; jogava-se para se distrair, mas os jogos puxavam pela idéia. Mesmo O bridge era jogo inteligente. Época infeliz esta. Eu já disse a Maria Laura, infelizmente ela e a família não fogem à regra. Tudo é futilidade. Repetiu abanando a mão: - Futilidade! As moças não se dão respeito, andam nas cidades com vestidos inconvenientes e, na praias, quase sem roupa. A graça do nosso tempo, D. Lola, era a graça da modéstia, da pudicícia e da inocência. Os rapazes respeitavam as moças como respeitavam a própria mãe, hoje abanam a mão e dizem: "Alô isto ou aquilo" como se todas fossem iguais. As jovens eram pudicas e dançavam com distinção. E hoje? Estendeu O beiço com desprezo, O olho esquerdo mui to fixo como se fosse de vidro: - Hoje é O que se vê. Completa falta de respeito e completa liberdade, não vê nossas netas? Decadência social. Por isso surgem idéias extremistas todos os dias entre a juventude, procuram se estender, se infiltrar e não há melhor ocasião para lançarem a semente A decadência de costumes é a melhor oportunidade para que germinem as idéias nocivas. Pergunto a mim mesmo: A colheita será promissora? Fêz uma pausa è eu quis dizer alguma coisa sobre religião, êle não me ouviu: - Sabe qual é a divisa desta geração? "Eu não ligo." Se um é reprovado nos exames e fica por acaso aborrecido, vem a frase-consolação da mocidade de agora: "Não ligue." Ou "Eu, se fosse você não ligava." Não há a responsabilidade que havia, mesmo entre a juventude de antigamente; hoje ninguém é responsável por coisa alguma. Outro dia um jovem estava guiando um automóvel, fêz uma manobra mal feita, amassou O pára-lama do carro vizinho, disse rindo: "Eu já sabia que ia bater." E foi embora sem dar a menor importância ao caso.. Maria Laura apareceu na saleta, Julinho chegou para O almoço. Minha nora estava bem vestida e alegre, retemperada pela massagem e pelo banho prolongado. Dirigimo-nos à sala de jantar enquanto Julinho reclamava a presença das filhas que estavam sempre atrasadas e eu pensava em Isabel. Ela, os filhos e tio Damião estariam almoçando na cozinha; cansada, com olheiras, Isabel daria mingau a Lena; tio Damião falaria de João Bernardo Traga Malhas e as crianças ouviriam atentamente. Meu pensamento voltou ao Rio com a frase alvissareira de seu Raimundo ao ver na mesa a terrina onde O vatapá fumegava. O cheiro das especiarias se evolava com a fumaça. - Por acaso temos hoje O festim de Baltazar? Marquei a viagem de volta. Recebi roupas velhas para os filhos de Isabel; soquei na mala, apertei. O jantar da véspera foi mais tarde, Julinho chegou atrasado; no centro da mesa havia margaridas brancas muito bonitas. Maria Laura e Julinho tinham jogo marcado para essa noite Ivone continuaria a namorar O moço que os pais não queriam, a vida continuaria a correr. - Com margaridas também a gente pode dizer - mal me quer, bem me quer, falou Lídia. - Só agora que descobriu isso? perguntou Ivone. Lídia despetalou a flor. Eu não tinha apetite, pensava na viagem do dia seguinte e naquelas criaturas que eu amava e deixaria novamente e por quanto tempo? Quantos meses passariam sem que os visse de novo? Anos talvez? Falaram sobre vários assuntos, lembraram as festas da firma, e a conversa caiu logo, desinteressante. De repente Julinho me encarou e fêz uma pergunta, foi como se ela me ficasse gravada na fronte: - Mamãe já foi à sede da Cruz Vermelha pedir notícias de Alfredo? Fiquei atarantada; olhei Julinho, pedir notícias? Êle tornou a falar, depois explicou que a Cruz Vermelha passava telegramas para O estrangeiro, pedia notícias de pessoas, de soldados, as respostas vinham logo dizendo isto ou aquilo.. Engasguei e Júlio César me aconselhou a tomar um pouco de água. Maria Laura citou O caso de uma amiga que havia pedido notícias e havia conseguido, os parentes estavam em Viena. Com esta guerra? Com esta guerra. Olhei as margaridas, olhei os netos, esperei. - Vá à Cruz Vermelha em S. Paulo, peça para eles passarem um telegrama, quem sabe receberá alguma notícia? É melhor saber a verdade nem que seja ruim do que viver sem saber nada. - Telegrama? - Sim, telegrama. Perguntei O endereço da Cruz Vermelha, ninguém sabia, qualquer pessoa me ensinaria em S. Paulo. Muito bem. Não pude dormir; ouvia a música do rádio que ouvira durante O jantar. "Consolatrix Afflictorum - Ora pro nobis." Abri O "Caminho Reto" e li a "Oração Eficaz". Por que não disseram isso antes? Notícias de Alfredo. Notícias. .. Antes saber a verdade nem que seja ruim... "Virgo Prudentissima - Ora pro nobis." Recitei a ladainha, por que não me disseram antes? Julinho acordou cedo, tonto de sono, me acompanhou à estação pedi desculpas, não precisava, que maçada. Júlio César beijou minha mão, prometeu passar umas férias comigo. Antes do trem se pôr em movimento, Julinho bocejou, enfiou a mão no bolso para me dar dinheiro para a viagem, esquecera a carteira em casa; não faz mal, obrigada por tudo. Quando vai a S. Paulo? Sacudiu a mão, breve teria negócios lá, qualquer dia aparecia, boa viagem, boa viagem. O trem deslizou mansamente, meus olhos ficaram úmidos, até breve, meu filho, adeus. O trem repetiu: negócios, negócios. Quando parava e recomeçava, mudava de tom: Cruz Vermelha. Cruz Vermelha. Lembrei-me das canchas, da bola de futebol flutuando, as luvas de boxe como que inchadas, os retratos das lutas, dos animais, dos artistas nas paredes do quarto. Lá ficavam todos; e O trem a repetir: negócios, negócios. Cruz Vermelha. Cruz Vermelha. Durante a longa viagem, pensei. Felício às vezes falava sobre democracia e luta de classes; citava fatos, contava histórias, comentava. Vinda do mundo rico que eu deixará e caminhando para O meu mundo, O da luta e do trabalho, O do pequeno burguês, eu pensava em Felício e nas palavras dele. A classe média a que eu pertencia era muito mais numerosa que a rica; assim em toda a parte. Êle dizia levantando O dedo indicador como se falasse para O mundo: - A classe pobre engulirá a rica. Por quê? De que maneira Comparando agora as duas classes que existiam na minha família, comecei a compreender vagamente. Os filhos de Julinho eram ricos e talvez fossem um dia riquíssimos; falavam em dinheiro e Túlio César dizia que queria continuar O negócio do pai para ganhar dinheiro. Êle não se importava com estudos, só queria dinheiro. Os filhos de Isabel não pensavam em fortunas, talvez porque pressentissem que seria muito difícil enriquecer; Sílvia queria ser pianista, Carlos um grande médico, Eduardo engenheiro-arquiteto. Os filhos de Olga e Zeca que também pertenciam à pequena burguesia queriam estudar para continuar com a farmácia do pai A classe pobre se esforçava para vencer pela inteligência e pelo saber; mesmo que nunca fossem ricos, teriam saber E O saber preencheria as lacunas. A classe rica queria apenas continuar rica e dormir sobre os lucros do avo ou do pai; não queria se esforçar, não queria estudar não queria vencer. Bastava esse quadro, os filhos do pobre e os filhos do rico, para compreender as frases de Felício e delinear O futuro: nas ciências, nas artes, na política, em tudo os pobres venceriam os ricos porque aqueles redobrariam os esforços e alcançariam O cume, a estes sobraria apenas O dinheiro. Em todas as partes do mundo acontece O mesmo. Elogiei uma vez umas crianças fortes e bonitas, a mãe me disse: - A senhora conhece essas laranjas grandes, de aspecto bonito, ocas por dentro? Enganam a gente; a casca é grossa O miolo tem a grossura de um dedo e a laranja esta mirradinha lá no fundo, seca e sem suco. Assim são meus filhos Grandes, fortes e bonitos por fora, mas não sabem nada, não estudam, não querem aprender, são completamente vazios. Eu preferia que exteriormente nao tossem tão belos, não tivessem tanta aparência como as laranjas bonitas, mas tivessem suco, fossem menos vazios. Os filhos de Julinho são como as laranjas que enganam, belos e ocos; os de Isabel não são tão bonitos mas têm suco. As laranjas pequenas e mirradas vencerão as de bela aparência? Estas perderão no jogo da vida e terão O dinheiro como consolo. A democracia é uma grande coisa. A Carmela verdureira que tinha venda na esquina, andava de chinelos e vendia repolhos, está rica, mora numa bela casa, usa vestidos de seda e automóvel. A democracia fêz Julinho comprar casa, ter automóvel, ser servido à francesa. Torta de frango: troca prato. Bife com batatas: troca prato. Queijo: troca prato. Fruta... Lavar os dedos em pétalas de rosas. Todos falam em democracia. Alfredo, quando foi para a guerra, escreveu que ia lutar pela democracia. O chefe do trem pediu meu bilhete. E as rodas continuaram monótonas, birrentas, obstinadas, a me atormentar: Cruz Vermelha Cruz Vermelha. Abri O "Caminho Reto": Para ganhar as indulgências, os que rezarem O triságio. Pelos séculos dos séculos. Aleluia. zzz Capítulo VIII zzz Silvia pediu para reunir as colegas no dia do seu aniversário. O pai deu consentimento e lembrou que era preciso poupar O açúcar, os ovos, tudo tão caro. Haveria um bolo grande chamado de areia, sanduíches variados, pastéizinhos de tomate e queijo. E balas, muitas balas. Sílvia ficou nervosa, pela primeira vez receberia amiguinhas em casa, colocou flores nas jarras. Fiz balas de chocolate, de café, de coco. Isabel começou a estender a toalha bordada na mesa da sala de jantar, pôs os pratinhos, quantas colegas viriam? Sílvia com os olhos brilhantes afobada, impaciente de aflição, respondeu dez, dez colegas. Eduardo e Carlos enceraram toda a casa, terminaram a limpeza do jardim, espremeram limões, tudo quase pronto. O dia estava bonito, um domingo dourado de sol muito claro, cintilante. Os pastéizinhos estavam num prato sobre a mesa da cozinha, ainda quentes; Sílvia passou, não resistiu, tirou um e começou a saborear; foi quando Felício viu e avançou, irritado: - Por que veio comer pastéis? Não vê que estão prontos para ir para a mesa? Não pode esperar? Você é gulosa, menina sem educação. - Mas eu tirei um só, papai, queria ver se estavam bons... Êle começou aos gritos: - Não se pode fazer nada nesta casa, as crianças estragam tudo, nunca vi gente mais esfaimada, não se tem pra zer em fazer nada, querem comer antes da hora. Menina sem educação... Ela estava tremendo, procurando explicar: - Foi um só. Não comi mais que um, tirei para experimentar, papai, só para experimentar. - Para experimentar? Você parece sempre esfaimada, tem olhos de quem tem sempre fome e eu gasto todo meu ordenado em comprar alimentos para vocês. Não sei O que suas colegas hão de pensar, parece que está faminta. Fa-min-ta. Enrolando as últimas balas, expliquei que aquilo não tinha importância, que falta fazia um pastel? Havia um prato cheio. Êle irritou-se mais; com todo O racionamento que havia, a menina vinha comer antes das visitas, por isso não havia O que chegasse naquela casa, era um gasto extraordinário; uma falta de ordem, de educação, de tudo. Não havia quem controlasse desse ordem, tudo na casa era isso - desorganização. Crianças comiam antes da hora, não falava respeito era preciso ordem, ORDEM. Veio Isabel, mas Felício... Zangou-se com todos, foi para O quarto, bateu a porta. Num canto Sílvia soluçava, inconsolável, repetindo: "Eu tirei só um, só um pastelzinho." Carlos entrou com um ramo de rosas para O centro da mesa, mas Sílvia continuou a chorar, não queria mais festa de aniversário; pediu aos irmãos que fossem avisar, telefonar às colegas, dissessem que ela estava doente, não haveria mesa de doces. Isabel aconselhou conciliadora: - Mas minha filha, seu pai é assim mesmo, deixe que venham as colegas, as velinhas já estão no bolo., vamos festejar. Em grandes soluços, pediu que por favor fossem telefonar, por favor; deu a lista dos telefones das colegas tossem falar por favor, repetiu os nomes: Luísa, Maria Helena, Teresinha, Heloísa... Os meninos esperaram com a lista na mão; Isabel me pediu para falar, em vão. Chorou sem consolo, inabalável na resolução: não, não, não. Enumerou outros nomes: - Edite, Lour-di-nha, Lú-cia... Eduardo e Carlos saíram ninguém veio, não houve mesa de doces, nem alegria de aniversário. As velas foram retiradas e uma por uma guardadas na caixinha; vagarosamente Isabel recolheu os pratos, dobrou a toalha bordada, os enfeites da mesa que Sílvia mesmo escolhera e tivera tanto gosto em espalhar nos lugares determinados: "Este é para Maria Helena, este é para Teresinha..." desapareceram, as rosas principiaram a murchar e O bolo ficou esquecido. Ninguém falou, ninguém riu; O silêncio reinou. Eram vinte e duas horas e meia quando Felício saiu do quarto e perguntou pela festa: - As amiguinhas de Sílvia já foram embora? Está tudo tão quieto... Isabel explicou, não houve nada, Sílvia chorou muito, foi dormir cedo, as amigas não vieram. Por quê? Por que não se festejava O aniversário de Sílvia? Onde ela está? Dormindo? A voz ressoou na casa: - Sílvia, venha cá Ela continuou fingindo, mas êle entrou no quarto, tirou a menina da cama, que é isso? Por que não quis festa? Vamos para a mesa. Vamos. Ela procurou segurar-se no colchão, firmar, êle insistiu, não senhora, vamos para a mesa. A vozinha dela era trêmula: - Obrigada, papai, agora estou com sono... Êle não quis ouvir, puxou-a para fora da cama e gritou forte: - Isabel, estenda a mesa, ponha O bolo, as velinhas, vamos fazer a saúde da aniversariante. Onde estão os meninos? D. Lola, vamos para a mesa, vamos todos... De pijama, as duas trancinhas soltas nas costas, em completo desalento, Sílvia apareceu pela mão do pai que fingia um riso forte e ruidoso. Venham todos, D. Lola, faça O favor... Onde estão os meninos? E Lena? Obedientemente Isabel estendia a mesa e com O dedo nos lábios, pediu que não falasse alto, Lena estava dormindo, os meninos também. Deixasse-os dormir, os meninos tinham muitas lições para O dia seguinte. E nesse instante, enquanto falava, colocava os enfeites na mesa O da Lourdinha, a casinha de boneca de Edite, a gaiola com canarinhos de Lúcia... O grande pinto amarelo que saía do ôvo com penugem macia e bico vermelho de Luísa. Perguntou se era assim mesmo; Sílvia confirmou com a cabeça. Colocamos os pratos, os copos, os sanduíches, os pastéizinhos, tudo foi arrumado novamente como se os convidados estivessem para chegar. Cabisbaixas e tristonhas sentamo-nos à volta: Isabel, Sílvia e eu. Tomamos refresco, fingimos alegria, mentimos. Felício tirou as velas da caixa, colocou-as no bolo com todo cuidado, olhava Sílvia, ria e repetia: - Você será capaz de apagar todas de uma só vez? Quero ver. Na cabeceira da mesa, Sílvia olhava os preparativos, percorria com os olhos os enfeites, suspirava e não queria comer. Felício ordenava, por que não come? Então tornávamos a fingir, mastigávamos enquanto êle servia limonada, tomava cerveja em copos grandes, oferecia sanduíches e pastéis. Acariciava a mãozinha da menina: - Você está mocinha. Como poderíamos deixar de beber à saúde da pianista? Aqui esiá uma grande pianista. Então O dia há de terminar assim, sem festa? Ria, oferecia balas, por que não comem? Fêz Sílvia tomar refresco, comer pastéis, ela não queria, teve que comer e beber. Estava engasgada, os olhos vermelhos, empurrava pedaços de pastéis na boca, ficava mastigando com vontade de chorar. A cena era tristíssima assim à luz fraca da lâmpada da sala, os enfeites da mesa como que abandonados, a menina lacrimosa e aquele fingimento, aquela alegria falsa bailando nas sombras. Êle acendeu as velas do bolo, quero ver se a pianista vai "-pagar todas de uma só vez; ria e falava como se estivesse sozinho. - Assopre, filhinha, são vinte e três horas e trinta e cinco minutos, assopre com força, apague todas de uma vez. Tristemente a menina assoprou e os outros bateram palmas. Viva Silvinha! Os outros responderam todos juntos: Viva! Êle cortou fatias de bolo, serviu: come. Ela não queria, ninguém queria, sacudiam a cabeça: obrigada, obrigada. Tem que comer, nem que seja um pouquinho, um pedacinho. Então comiam, engasgavam, ficavam com olhos vermelhos, enguliam. Era como se a gente engulisse papel, não tinha gosto. Com soluços na garganta, a aniversariante mastigava, a boca seca, gosto de papel. A luz continuava a iluminar fracamente, os cantos estavam eseuros e sinistros, as rosas murchas, O bolo desfeito, os enfeites esquecidos, mas todos continuavam a obedecer: sim, não. E sacudiam as cabeças: sim, não. E se êle ordenasse: agora dancem. Dançariam. E se êle dissesse: agora chorem. Chorariam. Enquanto eu costurava ou lidava na cozinha, pensava em que dia iria procurar O escritório da Cruz Vermelha, Sei que êle está combatendo no Pacífico, dizem que aqui os senhores podem dar informações, podem fazer esse obséquio? E se perguntarem: êle está no exército ou na marinha? Isso eu não sei muito bem, façam O favor de indagar, sim? Hoje eu vou, pensei uma madrugada. Saí de casa, caminhei, tomei O ônibus, fui à cidade. Como hei de saber O endereço? A quem perguntar? Essa idéia me atormentava. Perambulei pelo Largo da Sé; havia grande movimento àquela hora, olhei O relógio do largo, oito e quarenta minutos. As pessoas que passavam tinham pressa, andavam rapidamente, entravam nas casas comerciais, outros esperavam condução, compravam jornais ficavam lendo ali mesmo nas esquinas, na beira da calçada. Notícias da guerra A quem hei de perguntar? Não queria esse segredo guardava-o avaramente no meu peito. Era preciso escolher a pessoa a quem falar, confiar O segredo. A senhora vai saber notícias de seu filho? Acho muito difícil a Cruz Vermelha informar. Enfim Era preciso saber, perguntar, mas a quem? Vi uma senhora de preto comprando frutas, tinha um rosto simpático, sereno Perguntarei a ela. A senhora pode me informar O endereço da Cruz Vermelha? E se ela não soubesse? Pode fazer O favor de me informar etc, etc. Fiquei esperando, ela terminou a compra, abriu a bolsa, tirou O dinheiro, pagou E agora. Esperou O troco, também esperei ali do lado recebeu as moedinhas, guardou-as na bolsa. É agora ' Fiz menção de tocar-lhe O braço, ela voltou-se rapidamente e saiu depressa para tomar O ônibus. Fiquei imóvel observando-a. - A senhora? Olhei as frutas, indecisa. Era preciso comprar alguma coisa, perdera uma grande oportunidade. Quanto cus ta a maçã? O ônibus partiu. Três cruzeiros. Muito caro; O homem não respondeu. Comprei uma maçã para Lena. A quem perguntar? Ao fruteiro? Embrulhou a fruta com pouco caso. E se eu perguntasse? O senhor pode me informar etc, etc? Êle deu um grito e chamou O jornaleiro que ia passando, começaram a conversar sobre a Itália Viu as notícias? Falaram em bombas, no frio, na neve Fui indo devagar, a maçã entre os dedos; passei por um café parei. Rapazes e velhos, senhores e mocinhos tomavam café, apressados. A quem perguntar Ao dono? Havia um senhor gordo em mangas de camisa atrás da caixa, empregados lavavam xícaras, serviam pãezinhos; um menino varria O chão onde havia tocos de cigarros, papel, sujeira. Fiquei parada olhando uma vitrina com empadinhas; uma lampadazinha brilhava frouxamente aquecendo os comestíveis Pensam que eu estou com fome; não, não estou, quero apenas um endereço. Por que tanta cerimônia por causa de um endereço? Não podia entrar e perguntar para qualquer daquelas pessoas Se uma não soubesse, outra saberia, indagaria. E depois? Respirei fundamente; não seria melhor continuar ignorando? Sem querer saber? E se as notícias... Não, era preciso perguntar. Perguntaria ao homem da caixa, não podia continuar a viver no escuro. Tinha que saber. Pode fazer O favor de informar? Entrei no café, fiquei parada perto do balcão, O moço inclinou-se diante de mim, esperando. - Um café faça O favor? Senti-o amargo, era como a dúvida que eu tinha era mente. Que fazer? Amargura. Caminhei pelo Largo da Sé sempre indecisa. Não seria melhor viver ignorando? Não poderia estar procurando minha desgraça? Passei lentamente pela Rua Direita, parei diante de cada vitrina, me interessei pelos mínimos objetos querendo esquecer O que tinha na cabeça. Será seda? Quanto custara O metro? Continuei a andar, deram-me encontrões, quanta gente na cidade a essa hora. Desci a Rua S. Bento; fui descendo, olhando, não estaria procurando minha desgraça Não seria melhor viver como vivera até então? No escuro? Pode fazer O favor de informar etc, etc? E depois? Esse futuro vinha carregado de incertezas, de dores, quem sabe de luto. Era tão bom como tinha vivido até agora. Como vai seu filho Alfredo? Ultimamente não tenho recebido noticias, mas creio que vai bem A última carta que recebi dizia Sue estava bem. Aonde? No Pacífico. Ah! Era tão bom viver sem saber, sem procurar. Perguntavam baixinho como se êle tivesse morrido: Tem tido noticias de Alfredo? A última carta dizia que ia bem, combatendo pela democracia pela liberdade. Combatendo para melhorar O mundo. Ah! Se tivesse alguma coisa, eles avisariam a senhora, as notícias ruins correm depressa É verdade. A inversa terminava assim e eu ia embora satisfeita, aliviada, ele ia bem tudo ia bem Não seria melhor continuar ignorando E ç viesse alguma notícia dessas que arrasam, que destróem Senti um arrepio, entrei na primeira porta, era uma loja de fazendas. Dirigi-me a moça da caixa, resoluta e fiz a pergunta olhando-a nos olhos, voz forte: - A senhora pode fazer O favor de informar O endereço da Cruz Vermelha? Ninguém sabia na loja; outras pessoas foram interrogadas, ninguém sabia. O endereço da Cruz Vermelha? O escritório? Sim senhora Repetiram as perguntas, uma olhava para a outra, sacudindo a cabeça, não sabiam. Sorri para a caixa, contente; era como se me tivessem tirado um peso muito agradecida. Não sabe? Aliviada, mil agradecimentos. Que bom, ela não sabe, ninguém sabe; fiz O que pude, não consegui descobrir. Me aconselharam a procurar na lista telefônica, sorri outra vez, estava livre daquilo, não tinha lista telefônica, muito obrigada. A mão da caixa apareceu com a lista, encostou no meu rosto. A senhora quer procurar? Meu coração deu um salto, Nossa Senhora do Carmo, tenho que procurar. Vou fingir depois digo que não encontrei; tomei a lista, coloquei-a sobre O balcão, abri a bolsa, tirei os óculos. Vou fingir que procuro, não quero saber. Quem disse que eu quero? Folhei vagarosamente, procurei, li números, nomes: Afonseca, Afrodísio, Agência, Agentes Agro, Agro-lo-sa, Alamberti, Alam.. Brinquedos... Bueno... Bussi, Buzi... Estou fingindo, não quero saber. Para quê? Levantei a cabeça, as moças estavam ocupadas, ninguém reparava em mim. Caixa registradora..., Calçados... Caldeiraria.. Calvoso... Camassa,.. Casa... Casa... Virei páginas. Camisaria... Comissária... Quanta Companhia... Páginas de Companhias.. Domingos... Elevadores... Embalagem.. Estou continuando a fingir, depois digo que não encontrei O endereço. Para que saber? Todas estão ocupadas, não encontrei nada, muito obrigada. Empresa... Empresa. .. Fábrica... Fábrica, Ferraz, Ferr... Fogão... Fonseca... Fontes... Fortaleza... Fran.. G... G... Gabriel... Galo... Lima.. Cinco minutos, dez minutos, eu debruçada sobre a lista, fingindo. Bem. Agora eu agradeço e vou-me embora. Obrigada, senhorita. - A senhora quer que eu procure? A mocinha era amável. Não custa nada, eu procuro para a senhora. Meu Deus, será que vão me contar? Que hei de fazer? Sorri: - Muito obrigada, não tenho pressa, fica para outro dia. A senhora está ocupada. Senti frio, angústia, arrepios. Tive ímpetos de gritar Não quero saber, não quero. Sair correndo, obrigada por tudo. Mas a moça disse que não tinha serviço àquela hora, procuraria para mim, não custava nada. Agora todas estavam interessadas em saber O endereço da Cruz Vermelha; um homem veio lá de dentro passou, falou qualquer coisa, a caixa perguntou, êle respondeu que não sabia, olhou para mim, foi para dentro outra vez. A mocinha que se oferecera para procurar estava debruçada sobre O balcão; seus cabelos eram claros e crespos. Vou tapar meus ouvidos, não quero saber, não quero ouvir. Entraram uma senhora e uma moça para comprar fazendas; escolhiam, apalpavam, comentavam, cochichavam, quanto custa O metro? A moça que as servia estava mais interessada no endereço que a companheira procurava com sofreguidão. Procure - escritório. A outra sacudia a cabeça, debruçava-se mais, procurava. A senhora e a moça compravam, escolhiam, acariciavam sedas, perguntavam, e esta quanto custa? A moça que as servia, respondia: oitenta O metro. Voltava-se para mim e para a companheira, aconselhava: Procure sede. A moça repetia: sede... sede... corria O dedo pelas sedes, os cabelos dependurados nos ombros. Eu sentia O suor na testa, no pescoço, não está fazendo calor, estou suando, deve ser de aflição, Minhas mãos estavam úmidas. Sede... sede... Ela levantou a cabeça, vai dizer rua tal, número tanto. Então? Falou. - Está aqui. Tive vontade de perguntar: Está falando comigo? Não pedi endereço algum, ora esta. Com quem a senhora quer falar? O dedo branco havia parado num número, meu coração esfriou; encarei-a, moça feia. Eu pedi? Eu pedi para procurar? Por que essa pressa? Eu pedi? Sua voz era nítida, clara; falou alto, todos da loja ouviram, a Rua S. Bento inteira deve ter ouvido. Nossa Senhora do Carmo. - Rua Libero Badaró, 595. A senhora quer O enderêço do escritório, não é? Repetiu: - Libero Badaró, 5-9-5. Falou claro, com firmeza, com convicção; seus lábios eram arredondados, avermelhados, pronunciou bem devagar, repetiu, remoeu, remexeu a ferida, tudo ficou dolorido, meu corpo inteiro doeu. Fiquei olhando-a; com a mão afastou os cabelinhos loiros da testa, os lábios redondos se moveram num sorriso, vi os dentes escuros, miserável. Tornou a repetir aquilo era para eu não esquecer, toda a loja decorou, era para me mortificar, torturar. Rua... numero... Detestei-a. - Quer que eu escreva num papelzinho? Agradeci, não é preciso, tenho uma memória... Sorri, ela sorriu. Agradecida. Deixei a loja, fui tomar O ônibus para casa. Passei O dia com O endereço na cabeça, impossível esquecer. Sílvia tocou "Garibaldi foi à missa"; tive vontade de chorar, para quê? Não chorei, repeti O endereço, magoada, dolorida. E acabei escrevendo-o num papelzinho, que guardei na bolsa. A noite toda com O endereço na cabeça; acordei, lá estava êle bem claro como se fôsse a voz da moça a repetir, a martelar para toda a cidade ouvir. Sílvia tocou a manhã toda, eu não ouvia, pensava na hora de ir à Rua Libero, etc, etc. Será que me recebem? E passarão O telegrama ou escreverão carta? Para onde Como poderei explicar? Chama-se Alfredo Abílio de Lemos, está combatendo no Pacífico, com O exército norte-americano A última carta dizia... E se rissem de mim? Mas como? O Pacífico é imenso, em que ponto êle está? Isso eu não sei. Não sabe? Hão de rir, de ridicularizar. Imagine, esta velha quer que a Cruz Vermelha procure O filho que está no Pacífico e há três anos não dá notícias. Ah, ah, ah. Uns contariam aos outros, me apontariam com O dedo: Aquela ali. Mas Julinho disse que a Cruz Vermelha tem auxiliado muita gente, famílias inteiras. Eu sentia aflição, era como se me torturassem. Ponha a velha na tortura. Que tortura? A de procurar O filho em vão. Ótimo. Demônios à minha volta dançavam uma sarabanda. Ponha a velha na tortura. Qual delas? A de procurar O filho em vão. Ótimo. As escalas pareciam risadinhas de demônios. Os dedinhos de Sílvia batiam as teclas, ela vai ser pianista, vai dar concertos, toda a gente irá ouvir e eu direi: é minha neta. A sarabanda continuava. Abri O "Caminho Reto": Paciência. Meios para adquiri-la." "Levanta teu pensamento ao céu e considera quanta é a glória que lá te espera, se sofreres aqui com paciência." Tenho que ir à Rua Libero Badaró. Quando? Amanhã? E quando estiver lá, que hei de falar? Como pode a Cruz Vermelha descobrir um soldado perdido na imensidão do oceano, um entre milhões, que se chama Alfredo e tem a mãe morando em S. Paulo? Como pode ser isso? Agora Sílvia está tocando outra música, é uma valsa. Meu pensamento vai e vem no embalo da valsa. Irei amanhã, está resolvido. Aproximei-me da janela, olhei O quintal, as flores, as roupas dependuradas na corda. Lá está O canteiro de Sílvia, O de Carlos, aquele mais longe é de Eduardo. As flores brilham ao sol; algumas são coloridas, pétalas que parecem seda. Papoulas vermelhas, côr-de-rosa, listadinhas, margaridas brancas, verbenas rajadas de roxo, todas bonitas e tranqüilas; O vento passa devagarinho, agita-as de leve e elas dão a impressão de que estão contentes. Contentes com O vento. Lá onde O terreno se inclina e quase não se vê daqui, estão os canteiros de legumes; os tomates, as alfaces, os repolhos, as couves de folhas carnudas, as ervilhas. Agora os dedos de Sílvia percorrem as teclas em exercícios sem fim: saltos, corridinhas, paradas, pulos, marchas: um, dois, um, dois. Devo ir amanhã, irei amanhã. E se eu fôsse antes procurar tio Damião na casinha da Mooca? Pedir conselhos? Havia de encontrá-lo sentado perto da janela, olhando a rua, conversando com Janina Como vão passando? Mas que boa surpresa! Entre, excelentíssima. Janina, veja uma cadeira. Filhinha, e se preparasse uma chávena de café? Um cafezinho para a excelentíssima. E eu contaria tudo, acha que devo ir à Rua Libero, etc, etc? Pedir notícias? Acha que me receberão? Tio Damião havia de coçar O queixo, refletir seriamente sobre O caso Depois havia de rir seu riso bom e doce por causa da idéia luminosa, e diria: - E eu vou escrever uma valsa para tocar no dia da chegada, para O dia da chegada. O nome... O nome... espere um pouco: "A volta de Alfredo." Que tal? Ouvi a voz de Isabel, me chamou para ver Lena que mostra as mãos e fala as primeiras palavras. Rimos juntas e Isabel levantou a menina nos braços para beijá-la. Qualquer dia falará tudo e dará saltos como Pour Élise, como a Carranquinha. Os exercícios se sucedem e as mãozinhas de Sílvia parecem crescer sobre O teclado: dó-ré-mifá-sol-lá-si . Dó-ré-mi-fá-sol-lá-si. Do grave ao agudo em escalas intermináveis e rápidas, Sílvia está contente, já alcança as oitavas. Não dormi bem, acordei muitas vezes, dizia O endereço sonhando; mergulhada no sono inquieto, olhos meio abertos encolhida na cama, cansada, repetia: Rua Libero etc, etc. Rua Libero etc. Acordava com uma secura na boca, vontade de levantar, ir embora cedo, procurar meu filho no Pacífico. Que pena essa lonjura sem fim. Levantei de madrugada, tomei café, de pé, olhando O quintal através da vidraça; meu pensamento no Pacífico, procurando, será este? E este? Virar as caras de todos os soldados até encontrar a de meu filho. Fiz a limpeza da casa, corri, queria que as horas corressem também; fiz almoço, auxiliei as crianças a se aprontarem, vão depressa, não se esqueçam de nada. Lavaram as mãos? Escovaram os dentes? Deixa ver. Falava com O pensamento no Pacífico, virando as caras dos soldados, um por um. Este? Do exército inteiro. Não é este, nem este nem este. Onde estará? Fui me aprontar, disse a Isabel que ia fazer uma visita há que anos não visito ninguém. Saí, bati a porta, resoluta; andei apressada O mesmo caminho que percorria nas madrugadas atrás das filas. Parei no ponto do ônibus, pouca gente, vou no primeiro. Enquanto O ônibus trepidava naquelas ruas, mudei de idéia, iria ver D. Genu, contaria tudo antes de ir à Cruz Vermelha, quem sabe até ela iria comigo, seria melhor irmos juntas. Duas têm mais força, ninguém riria de nós. Toquei timidamente a campainha, ouvi uns passos arrastados, ela me abriu a porta entre sorrisos, os óculos no meio da testa. Abraçamo-nos. Contaria tudo; senti-me aliviada, satisfeita, tinha para quem contar. Sentamo-nos na salinha de jantar, uma de cada lado da mesa; estava só, a filha saíra para compras. Quis saber da minha viagem ao Rio, contei, mostrei retratos dos netos. E Julinho era então muito rico? Falei do almoço que me haviam oferecido no apartamento de luxo, das pratas, da riqueza; falei que na casa de Julinho lavavam as pontas dos dedos nas pétalas de rosas das festas de Fagundes Vaz e Cia. Limitada, falei do baile. - Ah, D. Genu, as danças de hoje... não queira saber. Contei dos pulos, das voltas, da música, ela pôs a mão na boca. - Mas que selvagens. Isso é selvageria, bem se vê que estamos vivendo em época diferente, de guerras e loucuras. Com suspiros lembramos nosso tempo todo delicadezas e curvaturas. D. Genu continuou: - Antes os salamaleques do nosso tempo do que os socos e safanões de hoje. Antes as valsinhas sentidas, as moças se abanando nas noites de calor, cada leque tão bonito alguns com versinhos escritos nas varetas, de gaze, de cetim. Tive um que era uma beleza, escrito assim: "A vida sem amor não vale nada." Antes nosso tempo. .. Dançava-se tão bem, comia-se baba-de-moça, suspiros, pastéis de nata, namorava-se discretamente, que tempo bom. Até os doces eram diferentes, até os homens. .. Demos passos para trás e com suspiros fundos mergulhamos no passado. É verdade até os homens... - Os moços eram tão delicados que até punham lenço para segurar a cintura da gente. Hoje jogam as moças para O ar como se fossem de borracha. Tempo bom aquele, nem havia guerras... Voltei ao presente com um soco no peito; arranjei O pensamento, preparei a boca: "Por falar em guerra..." Ela levantou-se e pediu à cozinheira que fizesse café a campainha tocou, eram duas visitas. Entre goles de café e fatias de bolo - ela desculpou-se por ter ficado batumado - a prosa continuou. Ninguém falava em sair. De repente uma cotovelada: - A senhora conhece, não é verdade? Eu voltava, via O rosto na minha frente a perguntar, a esperar resposta. - Não senhora, não conheço. Outra cotovelada: - O quê? A senhora não conhece a filha de D. Genu? Conheço perfeitamente, pensei que estivesse falando de outra pessoa. Conheço muito bem, qual delas? Pois não, conheço todas. Despedi-me tarde, as visitas ficaram; voltei para O Cambuci, O coração cheio. Todas as luzes se acenderam de repente como num presépio Enquanto esperava O 14, fui lendo os anúncios luminosos: RESTAURANTE... O AZEITE... brilhava e piscava. ACADEMIA - BILHAR -... CASIMIRAS - LINHOS - CASIMIRAS. "Antes nosso tempo, nem havia guerras. É verdade." MEDICINA VEGETAL. COCA-COLA - APERITIVOS. CAFÉ S. PAULO. Até os homens mudaram... zzz Capítulo IX Zzz AMANHECEU um dia frio e úmido, um sol amarelo, pálido. Firme na minha resolução, disse a Isabel que ia fazer outra visita. Meu coração batia com pressa, por que tanta emoção? Tomei O ônibus e desci no Largo da Sé. Vagarosamente enveredei pela Rua Direita, olhando para os lados, indiferente; era como se estivesse sòzinha, ninguém na rua. Atravessei a Praça do Patriarca, cheguei à Rua Libero, de que lado seria O número 595? E se perguntasse ao guarda? Não, tinha que descobrir sòzinha. Comecei a descer para O lado da Avenida São João, olhei os números. Esbarrava nas pessoas, pedia desculpas. Não era ainda ali, precisava atravessar, esperei um minuto, havia tanto movimento; gente, automóveis, jornaleiros. Cheguei ao outro lado, olhei os números, era mais abaixo; fui descendo devagar, cada vez mais devagar, esbarrando, pedindo desculpas. Me desculpe. Humilde, com medo de nao encontrar meu filho em parte alguma; tropecei na calcada, não é nada, hei de encontrar O número E se eu perguntasse a alguém? Na esquina da Avenida São João, esperei na beira da calçada até que O sinal fosse aberto, teria que atravessar. Perguntar a quem Pois se eu tinha O enderêço na cabeça, para que perguntar? A moça de lábios redondos falara alto, toda a rua ouvira. O sinal foi aberto, atravessei a avenida por entre a multidão, cheguei do outro lado, comecei a subir a Rua Libero Badaró. Olhei O número da primeira casa, Nossa Senhora, estava próximo ao meu. Coloquei a mão sobre O peito, olhei uma vitrina de comestíveis, dei mais uns passos, olhei outro número, outra casa. Me desculpe. 5-9-5, eis O meu número. Em todo caso, abri a bolsa, olhei O papel onde eu havia escrito para não esquecer, como se pudesse esquecer. Era ali mesmo, não havia dúvida. Entrei, várias pessoas esperavam O elevador, entramos todos. Coragem, coragem. No quarto andar, saí e vi uma fila de homens e mulheres que serpenteava até a escada; uma mulher sentada no primeiro degrau, cobrira O rosto com os braços, que estaria esperando? Havia mais gente amontoada diante de uma porta, seria ali? Todas aquelas pessoas procuravam a mesma coifai que eu? Fiquei com mais coragem. - Faça O favor de me informar se é aqui O escritório da Cruz Vermelha Brasileira? O homem fêz que sim com a cabeça; suspirei, muito obrigada. - A senhora está esperando notícias? Fiquei atordoada, como é que sabiam? Eu estava esperando notícias? Não senhor, vim pedir notícias de meu filho Alfredo, Alfredo Abílio que está combatendo... Comecei a contar a história em voz baixa, sussurros, só para O homem, não queria que outros ouvissem... Êle respondeu - Então a senhora tem que ficar na fila lá embaixo. Esperar a sua vez. ." Olhei para trás, muito bem, onde está a fila? Na escada? Pois não. Comecei a descer um andar, dois, três, havia gente parada em todos os degraus; uns conversavam, outros encostados na parede pareciam dormitar, de olhos fechados. Estariam procurando os filhos? Fiquei no último lugar no fim do terceiro andar. Uma velha e uma moça cochichavam na minha frente, e se eu perguntasse alguma coisa? Só para falar? Se contasse minha história? Toda a fila se moveu e deu um passo à frente; a velha falou palavras de animação, a moça sorriu. O que eu havia de perguntar? Precisava falar com alguém. Uns dez minutos depois a fila se movimentou, subiu mais um degrau, estremeceu; mas O estremecimento que começou lá em cima passou por nós em vibrações doloridas, suspiros, desfalecimentos e duas mulheres desceram chorando, uma apoiada na outra, quase a despencarem pelas escadas, trêmulas, cegas de pranto, uma delas levando nas mãos um telegrama amarfanhado. Isso foi O toque que uniu a fila inteira, foi O traço de união. Começaram a trocar idéias, falar, sussurrar umas nos ouvidos das outras; a velha à minha ff ente tinha os olhos esgazeados, aterrorizada com O que vira, tocou-me O braço, falou numa língua estrangeirada: - Está esperando notícias dos parentes? Sua voz era rouca e trêmula, tinha medo; todos pareciam ter medo. Contei em voz baixa, ia pedir um favor à Cruz Vermelha, será que ela poderia me auxiliar? Haviam me aconselhado, sabe? Era ali mesmo, não era? Ia pedir que procurasse meu filho Alfredo, um rapaz que tem ideal, sabe? Foi lutar pela democracia, para um mundo melhor. Sorri. A velha e a moça ficaram me olhando, admiradas. - Tive três filhos homens. Esse foi sempre diferente dos outros, desde pequeno. Tinha um ideal. Foi correr mundo, realizar O ideal de lutar pela liberdade dos povos. Chama-se Alfredo, um mocetão, O mais bonito dos três. Elas me olhavam, incrédulas; depois sorriram e confirmaram, sim senhora. O mundo estaria melhor? A batata por um preço absurdo, O arroz caríssimo, O açúcar racionado, a carne duas vezes por semana, O leite... a manteiga... O mundo estaria melhor? Enquanto elas olhavam eu pensava O transporte cada vez mais difícil, O par de sapatos que eu comprava 80 cruzeiros, custa agora cento e quarenta, navios brasileiros cheios de crianças e mulheres bombardeados inutilmente, milhares de pessoas morrendo diariamente na Europa, na Ásia, no Pacífico. Um suor frio desceu pelas minhas costas, O mundo estaria melhor? Não havia farinha de trigo e O pão era misturado, O feijão subindo sempre, O mundo estaria melhor? Olhei as duas à minha frente humilde na minha ignorância; era melhor não falar mais, não abrir a boca, dizia coisas que eu não entendia, ninguém entendia. O mundo estava pior, cada vez pior, por que Alfredo fora lutar? Por que não voltara para casa? A casa dele era aqui em S. Paulo, por que não voltara? Fiquei silenciosa com meus pensamentos, angustiada por causa deles. Eu não entendia, ninguém entendia. Baixei os olhos para a ponta dos meus sapatos, tive vontade de perguntar aos gritos "Onde está O mundo melhor?" - Êle está combatendo? Era a moça que perguntava; humilde, contei que sim. Era pena eu não ter um retrato ali para mostrar, um mocetão. - Alto, bonito, era marinheiro. Pessoas passavam por nós; a velha fixou O chão, obstinada; a fila foi mais para cima, um homem gemeu: "Ai meu Deus." O dia definhava rapidamente, um homem esperava notícias da irmã, havia passado um telegrama, até agora nenhuma notícia. A velha contou que esperava resposta de um telegrama, não sabia que fim levara a família; com a boca quase fechada, os olhos esgazeados, imaginando tragédias, explicou: - Morava no sul da Bélgica. O que estava atrás sacudiu a cabeça como quem diz: perdida. O dia definhava, que horas seriam Agora eu estava ali, não devia ir embora, devia esperar. Já estava cansada, tinha vontade de me sentar, cobrir a cabeça com as duas mãos. Bélgica. A família dela estaria ainda na Bélgica? "Levanta teu pensamento ao céu e considera quanta é a glória que lá te espera. Paciência. Meios para adquiri-la. "Caminho Reto". Advertência: Para que a paciência seja frutuosa e meritória, é indispensável sofrer as penas em estado de graça porque àquele que está em pecado mortal de nada lhe serve para ganhar O céu, sofrer muito com paciência." Estarei em estado de graça? Alfredo me escreveu uma vez que estava combatendo pela liberdade dos povos. Liberdade. Que palavra tão vasta. Os campos de concentração de todo O mundo estão cheios de prisioneiros, milhões de prisioneiros, nunca houve tantos. Liberdade. Seis e meia? A fila toda se desmantelou, se partiu. Os de cima foram descendo a escada e falando que O escritório se fechara, só amanhã. Amanhã? Muito bem. A velha gemeu e segurou O braço da moça para descer; lentamente fui descendo também, repetindo: "Paciência. Meios para adquiri-la." Na manhã seguinte contei tudo a Isabel, ela me olhou: - Quem disse isso para a senhora? Expliquei que Julinho me falara no Rio, muita gente fazia isso, passava O telegrama e esperava. Eu também ia passar, vou passar hoje. Hoje? ela perguntou. Sim, hoje. - Peço a você guardar segredo, que ninguém saiba antes de eu ter uma resposta. Ela aborreceu-se, enfarruscou O rosto: - A quem hei de falar? Saí logo bem depressa, decidida. Atravessei a cidade, sabia O que queria, O que ia fazer. A fila era comprida mas não tanto quanto a da véspera; fiquei no meu posto, silenciosa na minha resolução, de pé, atrás de um homem velho, cansado. De vez em quando dava um passo à frente, subia mais um degrau, O coração batendo acelerado. Estava chegando a minha vez, estava chegando a minha vez; fui ficando angustiada, sentia um apêrto na garganta, teria voz para falar? Havia uma espécie de balcão arredondado e ali muitas pessoas estavam debruçadas narrando suas mágoas; muitas tinham nos olhos a expressão do desalento, aquela expressão que existe nas pessoas que se apegam desesperadamente na Última esperança. Por que eu fora? Por quê? Não seria melhor viver como vivera até então? "Êle vai bem, a última carta que recebi, etc, etc?" Vai muito bem, sim senhora. Vi a moça na minha frente; ela esperou que eu falasse, tinha um papel sobre O balcão e um lápis na mão. - A senhora? Sorri, não encontrei palavras, por que viera? Não seria melhor viver na ilusão? Está combatendo no Pacífico, sim senhora... Ouvia sussurros ao meu lado, ah, é muito longe daqui, na Europa? Sim senhora, não senhora. Sim senhora, não senhora. - Paciência. Meios para adquiri-la. A moça estava ali na minha frente esperando que eu falasse senti um suor frio nas minhas costas, rias minhas mãos Era preciso falar? Por que viera? Por que chegara minha vez Era tão bom ficar na escada esperando, todos os dias subir mais um degrau, preferia ficar sempre na escada, um degrau por dia. Não reconheci minha voz, falei baixo:. _ Chama-se Alfredo Abílio de Lemos, a ultima carta que recebi dele veio... Falava baixinho, haveria um morto na sala? Não queria que ninguém ouvisse meu segredo, só a moça. Ela começou a escrever depressa, depressa, e eu a falar: - Há três anos não recebo notícias, é muito, não acha? Êle me escreveu que estava bem, muito animado, disse que estava combatendo por um mundo melhor, foi assim mesmo que êle escreveu... O mundo estaria melhor? Meu olhar interrogou a moça, ela estava escrevendo. A batata pelo preço que está? Açúcar raciocinado, carne duas vezes por semana, nao ha pão e quando há... Faz-se pão de macarrão E se acabar O macarrão? Os campos de concentração cheios de prisioneiros, mortes, bombas, destruição... 163 - Há quantos anos êle partiu para lá? Quantos anos? Deixa ver, fiz a conta, nós morávamos ainda na Avenida Angélica, espere um pouco... (eu sabia perfeitamente, mas comecei a lembrar para ficar mais calma) não havia guerra naquele tempo, depois é que veio essa calamidade e atrapalhou tudo, aí êle me escreveu que estava com os norte-americanos, no Pacífico... Êle foi sempre valente, muito corajoso, muito forte, tinha umas idéias diferentes, sabe? Às vezes eu digo comigo mesma filhos dos mesmos pais, criados do mesmo jeito, e no entretanto com idéias tão diferentes uns dos outros, não é mesmo? Era O mais alto O mais bonito, alourado, dentes fortes, a última vez que me visitou faltava um dente aqui do lado. Quando perguntei O que tinha acontecido, deu risada e disse que um marinheiro para ser bom tem que fumar cachimbo, brigar e... não me lembro a outra coisa que êle disse. Perdeu O dente numa briga, sempre foi valente, já contei isso para a senhora? Desculpe sê estou contando essas coisas, mas mãe quando começa a falar de filho... compreende, não é? Veio a última vez fumando cachimbo... - Há quanto tempo isso? - Que êle fuma cachimbo? Não, que êle me visitou? Pensei, fiz a conta, respondi e ela escreveu. Tornei a explicar: - Mas quando êle veio, nessa ocasião não havia guerra; O mundo estava calmo... nada estava caro assim, a vida não era difícil como agora, toda a gente vivia tranqüila. E a tranqüilidade na vida vale tanto, não é mesmo? Êle me disse que iria para longe, muito longe; fêz assim com os braços e eu perguntei: Europa África? Mais longe ainda.,. Então no fim do mundo... Êle sorriu... Senhora? Pensei que a senhora tinha perguntado alguma coisa. É alto, alourado, tem uma pintinha aqui do lado perto da boca, já falei isso para a senhora? Ombros largos, mãos fortes, me trazia presentes todos os dias: lencinhos, frutas, queijo, coisinhas assim Muito presenteador. Eu já estava desanimada, a senhora compreende, há três anos sem notícias, essa guerra matando milhões de soldados todos os dias, fiquei pensando O pior... mas todos dizem: Vá à Cruz Vermelha, a Cruz Vermelha pode passar um telegrama perguntando por êle e assim você pode saber alguma coisa. Quem sabe êle está prisioneiro e não pode escrever.. coisas assim... Então resolvi vir aqui, é minha última esperança... Meu filho Julinho disse: "Mamãe, antes saber a verdade nem que seja ruim, do que viver assim sem saber nada." Por isso vim aqui.. . Êle gostava de me chamar D. Lola em vez de mamãe, meu nome é Lola, quero dizer, meu apelido. Ele dizia rindo e batendo no meu ombro: Esta D. Lola... A moça olhava para mim, um ar penalizado, a cabeça inclinada para O lado, os olhos muito brilhantes; percebi então que ela estava comovida e meu rosto estava coberto de lágrimas. - Desculpe estar falando essas coisas todas, a senhora não tem nada com isso. Até... até me esqueci de que estava aqui. Olhei à volta, havia tanta gente, a fila aumentara pela escada abaixo. Disfarcei e sorri, ela me perguntou se eu podia pagar O telegrama; sim senhora, então vão mesmo passar O telegrama Felicidade. Fe-li-ci-da-de. - São trezentos cruzeiros Trezentos? Ah, sim senhora eu trago amanhã. Amanhã ou depois, mas eu trago, não tenho tudo aqui co migo. Muito obrigada. Tomei O elevador um pouco estonteada, havia falado tanto, por que precisava a moça saber tudo isso? Afinal vou saber notícias de Alfredo; Santa Rita dos Impossíveis, valei-me. Valei-me, Senhora, Senhora Santa Rita Tive ímpetos de gritar na porta da rua, em meio à multidão que passava àquela hora: Preciso de trezentos cruzeiros para encontrar meu filho, quem pode me emprestar? Quem pode? Quem pode? Nem lembrei que era telegrama para O estrangeiro, pensei que ficasse nuns vinte cruzeiros. Nem me lembrei Escrevi nesse mesmo dia para Julinho e pedi O dinheiro, dias depois recebi a resposta com a quantia pedida. Sílvia começou a tocar O caderno de Schumann: Peças Fáceis. Para acalmar meu coração, pedi muitas vezes à neta querida: - Sílvia, toque Schumann para sua avó ouvir, sim? No dia seguinte corri com O dinheiro nas mãos, a escada estava cheia. Todos esperavam respostas. A velha estrangeira e a mocinha do outro dia estavam lá, dois degraus aci ma, cumprimentamo-nos como amigas. Bom dia. Bom dia. Um homem triste estava à minha frente, tinha O rosto sombreado de barba, perguntou-me num leve cumprimento, mostrando O espaço: - Tem parentes lá? Tenho um filho na guerra. Eu dizia isso como se tivesse certeza: tenho um filho na guerra. Está lá combatendo, vai bem, obrigada. Certeza, certeza, tenho um filho na guerra. Santa Rita dos Impossíveis, valei-me, que êle esteja mesmo na guerra. - Na Itália? Foi com as Forças Brasileiras? - Não senhor, no Pacífico, com os norte-americanos. - Por acaso é voluntário? Sorri, triunfante, todos que estavam próximos olhavam para mim com admiração. Eu era a mãe do herói - tinha um filho na guerra. - Há muitos anos estava por lá, veio a guerra e alistou-se. Voluntário, sim senhor. Falava leve, olhando todos, contente, como se dissesse: Foi ao Rio de Janeiro dar um passeio. Sim, senhor. Vai bem, obrigada. Houve uma pausa, depois O homem contou-me que morava no Brasil há muitos anos, a mulher e duas filhas haviam ido visitar uns parentes na Tchecoslováquia, veio a guerra e não puderam voltar; perguntei em que cidade elas estavam como se conhecesse todas as cidades da Europa. Respondeu-me um nome que não entendi. A mocinha e a velha ouviam, todos que estavam perto também ouviam. - Não teve mais notícias? perguntou um rapaz. Falou que no princípio haviam escrito duas cartas, aquilo estava um pandemônio, êle respondera por telegrama: "Venham." Não acusaram O recebimento do telegrama e nada mais soube a respeito delas. - E agora? alguém perguntou lá da frente. Agora pedi à Cruz Vermelha para procurar, quero ver se veio alguma notícia, me avisaram para vir aqui... Ficamos olhando em silêncio O homem triste; dois passos para a frente, dois degraus, toda a gente subiu. Todos quietos agora, pensando na família do homem, a velha perguntou: - Chamaram O senhor? Sim, havia recebido uma cartinha da Cruz Vermelha, queriam ver? Como êle morava em Santo Amaro e não tinha telefone, escreveram a carta chamando. Tirou do bolso de dentro um papel meio amassado, abriu, alisou com carinho, nos mostrou, todos nos inclinamos: "Solicitamos por gentileza O comparecimento de V. S. na sede..." Não consegui ler O resto, comecei a tremer e a suar só em pensar que êle ia receber notícias, que espécie de notícias? Senti angústia, olhei O rosto sombrio, reparei num tique nervoso no olho esquerdo do homem. Pobre. Todos que estavam na escada daquele terceiro andar ficaram pensativos, cabeças baixas. O suor das minhas mãos foi esfriando, esfriando. Um degrau à frente, subimos. O tique nervoso continuava se acentuando no rosto dele; a face azulada estremecia do lado esquerdo. A mocinha que acompanhava a velha inclinou-se para me perguntar: - E a senhora já passou O telegrama? - Vou passar hoje. Silêncio na escada; ouviam-se vozes lá em cima, sussurros, perguntas em voz baixa, a porta do elevador abria e fechava. A mocinha repetiu - hoje - e sorriu me encorajando. Movimento de passos, outras portas se abriam. Cinco pessoas atrás de mim. O vento frio entrava pela porta da rua e subia os quatro andares em lufadas rápidas de angústia. Desciam pessoas embuçadas, passavam por nós, tristonhas, distraídas; as horas corriam, haveria tempo de chegar ao escritório e entregar O dinheiro? Entraram duas moças comentando O frio e a chuva. Ouvia-se perguntar as horas, haverá tempo? Estávamos próximos do quarto andar, lá em cima O movimento era ruidoso, e tudo parecia mais demorado. Dois homens começaram a falar sobre a guerra, trocaram opinião, comentaram as últimas notícias. De súbito as luzes se acenderam, motivo para conversa, ninguém pecebera a escuridão. Assopravam os dedos, O frio mais forte. A velha suspirou e cochichou para O homem triste: "O senhor vai receber boas notícias, com certeza." Perguntei à velha se também fora chamada; não, viera para saber se havia novidade, vinha sempre que podia, fazia um mês que esperava todos os dias... O murmúrio começou em cima e cresceu perto de nós, estavam fechando as portas do escritório, era hora de fechar O expediente. Houve um reboliço, alguns se prepararam para ir embora, outros protestaram. Eu trouxera dinheiro, O dinheiro do telegrama, tive vontade de sair correndo, fazer berreiro, mostrar O dinheiro, está aqui, olhem, está aqui. Protestei timidamente, O homem triste tirou a carta do bôlso e mostrou a todos que passavam Subimos juntos os últimos degraus e chegamos juntos até a porta; havia ainda um grupo de pessoas falando, não queriam sair. As moças estavam ocupadíssimas, iam de um a outro, atendiam as últimas pessoas. Chamei, faça O favor, eu trouxe O dinheiro para O telegrama, a senhora quer ver? O homem mostrava a carta, recebi esta carta, disseram para eu vir, faça O favor minha senhora... Eu sentia um aperto na garganta, é para O telegrama de meu filho Alfredo, a moça que me atendeu a semana passada disse que eu devia trazer trezentos cruzeiros... Coloquei os cotovelos no balcão, chamei; uma passou perto de mim, segurei-lhe O braço, tenha a bondade. - Como é seu nome, faça O favor? Ela voltou-se, não era a que me atendera dias antes. Leia. Expliquei, mostrei O dinheiro, faça O favor D. Leia. Ela conversou com outra pessoa, falou, escreveu, foi embora, e quando eu pensei que ela tivesse se esquecido, voltou-se sorrindo para mim. Tomou O dinheiro, disse que me daria um recibo, O telegrama seria passado, ficasse tranqüila. - Hoje mesmo? perguntei quase sem ar. - Amanhã cedo, hoje O expediente está encerrado. Amanhã sem falta seguirá O telegrama, fique sossegada. - Não será tarde, D Leia? Respondeu que não, nunca era tarde, ora esta. Por que tarde? Eu nem sabia porque. Escreveu num papel, deu-me outro, despediu-me depois de ter tomado notas, escrito coisas. Alfredo Abílio de Lemos. Saí tonta, esgotada, desci novamente a escada, tropecei num degrau; na minha frente um homem chorava apoiado no corrimão, era O triste. Toquei-lhe O braço de manso: - Recebeu alguma notícia?... Êle voltou-se, enxugou os olhos; quando me reconheceu falou: - Más notícias, minha mulher e minhas filhas foram transportadas para um campo na Bavária. Prisioneiras, oh! Desceu a escada cambaleando, a voz embargada; fui consolando atrás: - Mas elas não têm culpa de nada, estavam visitando parentes, deve haver algum engano, O senhor vai ver. É engano prender quem está passeando, visitando parentes. Que tempos estes... Reze, senhor... Êle sumiu na chuva, a cabeça descoberta, os olhos vermelhos. Atravessei a cidade, em busca da fila do meu ônibus. Não sentia frio, nem a chuva que me encharcava. Oh, Senhora Santa Rita, estarei pedindo um impossível? Todos interromperam O jantar para me ouvir contar, Felício fitou-me: - A Cruz Vermelha se encarrega dessas coisas? Contei que Julinho tinha me aconselhado, que me ha- via mandado O dinheiro e a moça passaria O telegrama na manhã seguinte. Êle disse que não sabia, os olhos das crianças estavam interrogando; êle tornou a perguntar: - Para que endereço vai O telegrama? Deu endereço? - Para O exército norte-americano no Pacífico... Sorriu com triunfo: - O exército norte-americano no Pacífico... Mas são milhares de soldados que morrem ou desaparecem todos os dias, outros estão prisioneiros ninguém sabe onde... Será bastante difícil. Fêz um gesto vago de desânimo, de piedade; voltou ao prato, um leve sorriso de escárnio nos lábios. Por isso eu não queria contar, é um cético, um derrotista, um aborrecido da vida. Por que contei? Isabel ofereceu-me sopa, respondi que sim, tomaria; quis fazer-me de forte, fui para O quarto, na verdade sentia-me trêmula, infeliz. Voltei logo, estavam comentando O fato. Isabel argumentou: - Mas se descobrem parentes em qualquer parte da Europa, como Julinho disse, podem descobrir um soldado no exército americano. Tomando café, Felício falou que não acreditava, era difícil, quem disse que descobriam parentes? Boatos... Falava assim não para eu perder as esperanças, mas para prevenir-me eu que esperasse O pior. Em todo O caso nada era impossível, por que não haviam de encontrá-lo? Todas as noites ao jantar, Felício perguntava se eu havia recebido alguma notícia, eu respondia que não, ainda era cedo. Seu sorriso era cético. As crianças rezavam para que vovó Lola recebesse uma boa resposta; Sílvia tocava: - Escute, vovó, esta é para quando tio Alfredo voltar. Sílvia estava tocando Schumann, que orgulho. Escrevi para Itapetininga "Sílvia começou Schumann, se ouvissem como é bonito. E O telegrama seguiu pedindo notícias de Alfredo." Clotilde respondeu: "Uma neta que toca Schumann deve dar uma grande alegria. Quanto à resposta ao telegrama, comecei uma novena para que seja a mais satisfatória possível. Reze esta jaculatória três vezes ao dia: "Meu doce Jesus, não sejais para mim juiz, mas Salvador." E mais adiante: "Leia "Piedosas Meditações": Santíssima Virgem Maria, minha esperança..." Da irmã que muito a quer. Clotilde." Sábado de julho. Tio Damião apareceu sobraçando um pacote de jornais. No seu passo rápido, foi entrando e cumprimentando, distribuindo rosas, níqueis, legumes. Então? Então? Com um grande suspiro, depositou O pacote na mesa, depois voltou-se e perguntou piscando os olhos, coçando O queixo. - Lembram-se da data de hoje? Ninguém se lembra? Será possível, santo Deus? Abriu os braços, deixou-os cair novamente, melancólico. - Como poderia me esquecer, tio Damião? Tive um filho nessa guerra: Carlos. - Bem diz, excelentíssima, bem diz. Não foi revolução, foi guerra. Seu filho foi combater pela nobre Causa. Pela nobre Causa. E batendo na mesa, falou como se discursasse: - Nove de julho de 1932. Foi a data mais bela da história paulista. A data magna. Os meses sangrentos de foram trágicos, mas em meio à tragédia, houve O mais arrebatador dos heroísmos. Nunca mais essa data se apagará da memória dos paulistas, principalmente daqueles que a presenciaram. Assim como me vêem, vesti a farda caqui e fui combater a Ditadura. Ficou hirto e firme, a cabeça erguida, como se fizesse continência à História, depois afrouxou os braços, todo O corpo, abriu os jornais que havia colecionado e guardado; as folhas amareladas do "Estado de S. Paulo" ficaram esparsas na mesa, as crianças se debruçaram, curiosas, O dedo de tio Damião foi apontando. - Os jornais publicaram na primeira página estas palavras: "Paulistas, na mais vibrante manifestação de civis mo, na mais pujante prova de amor ao Brasil e a São Paulo, na mais impressionante atitude de heroísmo, de abnegação e de renúncia, na madrugada de hoje, O Exército, a Força Pública e O Povo de São Paulo lançaram aos quatro ventos da terra bandeirante, O grito de revolta pela Pátria redimida." Depois outro escrito: "Ao Povo Paulista, neste momento assumimos as supremas responsabilidades do comando das forças revolucionárias empenhadas na luta pela imediata constitucionalização do país." S. Paulo queria O regime da Lei, a Constituição. A Liga Paulista Pró Constituinte pediu a todos os paulistas válidos que comparecessem ao edifício da Faculdade de Direito, onde receberiam armas e seriam devidamente incorporados. Assim os batalhões de voluntários começaram a se formar. Os aparelhos de rádio tocaram hinos, fizeram discursos patrióticos convidando O povo a lutar contra a ditadura. E S. Paulo pôs-se de pé. Nove de julho de 1932. Tio Damião fêz uma pausa, olhou à volta, continuou, solene: - Como um só homem, um só pensamento. Cada paulista virou soldado, ou nas trincheiras ou na retaguarda. Formaram-se batalhões, organizaram-se trens extraordinários, fundaram-se escolas de enfermagem. Leia isto: quatro dias depois do início do Movimento, os pernambucanos aqui residentes declararam-se "irmanados moral e materialmente com os nobres e bravos paulistas, na indomável guerra à ditadura." Enquanto êle falava, eu pensava em Carlos. O dedo seco de tio Damião apontou, Eduardo balbuciou: Viva os pernambucanos. Tio Damião respondeu: - E os estudantes paranaenses? Nesse mesmo dia, a caravana de estudantes do Paraná de passagem por S. Paulo, publicou um manifesto aderindo ao Movimento e os seus membros alistaram-se nos batalhões de voluntá... - Viva os paranaenses, disseram as crianças. - Viva. Escutem, no dia 14 de julho foi publicada a adesão coletiva dos cearenses... - Viva O Ceará! - Viva. Dia 16, houve a adesão dos baianos, dos fluminenses, de Mato Grosso, do Rio Grande do Sul... As crianças entremeavam com vivas que êle respondia e continuava, cada vez com mais calor. - Homens ilustres do Rio Grande do Sul elevaram a voz em prol dos irmãos paulistas e muitos vieram a S. Paulo e deram sua integral adesão. Dia 11 de julho, a Associação Paulista de Medicina abriu uma inscrição para os associados que quisessem oferecer seus serviços à Causa e dia 13 os Clubes Esportivos de S. Paulo publicaram: "É preciso que O esporte demonstre nesta hora máxima que êle não só robustece O corpo, mas também dá têmpera às almas." Dias depois, partiu O primeiro batalhão esportivo para a frente. Mais de 2.000 esportistas se alistaram e combateram com bravura. A Cruz Vermelha deu todo O seu apoio; médicos e enfermeiras seguiram nos primeiros dias para as cidades próximas às divisas do Estado, os Grupos Escolares e Escolas foram transformados em hospitais. Automóveis particulares foram oferecidos, donativos grandes e pequenos foram feitos. Dinheiro, gêneros, serviços, vidas, foram dados generosamente incessantemente. Partiam os batalhões cantando hinos ao Brasil; todos os rapazes vestiram fardas, as máquinas de costura rodaram 24 horas por dia para que nada faltasse aos heróis. Todas as mãos delicadas ou grosseiras, brancas ou negras trabalharam pela Causa. Sabem como foi? Foi como se um vento de loucura tivesse varrido a cidade, uma loucura de grande elevação moral, acima dos preconceitos das vaidades, das diferenças sociais; irmanava a população Igualava O ideal era muito alto e nada podia pairar acima dele. Era apenas O ideal. A Causa. Fêz nova pausa. Sentou-se como se estivesse cansado; as crianças pediram: - Continue, tio Damião. Faça O favor, continue. E depois? zzz Capítulo X Zzz A vida da cidade palpitava de outra forma, escolas twr diversões foram fechadas; automóveis passavam levando chefes, caminhões transitavam levando gêneros para as divisas do Estado. Por toda a cidade grupos de pessoas angariavam donativos; mais de doze mil senhoras faziam roupas, ataduras, pensos para os hospitais. Centenas de moças ofereciam seus serviços gratuitamente para substituir nas caixas, nos balcões, nos escritórios, os que partiam para as linhas de frente. As mulheres espalharam-se pelos hospitais, sentaram-se nas máquinas de costura, embrulharam milhares de lanches por dia e, na retaguarda das trincheiras, cozinharam para os nossos soldados. As estações viviam repletas; trens partiam para O Norte e para O Sul levando batalhões e trens vinham do interior trazendo milhares de voluntários. Até 27 de agosto, as cidades do interior haviam enviado 81.451 voluntários, fardados e equipados à custa das respectivas populações. Todos queriam dar, combater, trabalhar; procuravam O sacrifício, O sofrimento, O inconfortável, a morte. Uma noite logo ao entardecer, os jornaleiros apregoaram nos bondes, nas ruas: "O primeiro encontro entre as forças combatentes. O grande combate do túnel." A voz de tio Damião tornou-se rouca, redobramos a atenção. - S. Paulo estava lutando. O Instituto dos Advogados lançou nos primeiros dias de julho uma proclamação: "Não há campanha que mais interesse os advogados do que a campanha a que S. Paulo se empenhou com todas suas forças vivas... S. Paulo quer simplesmente a restauração da lei..." Logo partiu para a luta O primeiro batalhão da Justiça. As colônias estrangeiras, sem exceção, congregaram-se para auxiliar S. Paulo, tudo fizeram nesse sentido: ofereceram serviços, donativos, doaram hospital, aparelhos de raio X, ambulâncias; mandaram gêneros, dinheiro, etc. Dia 12 de julho, partiu O primeiro batalhão de voluntários civis, organizado na Faculdade de Direito, depois seguiram muitos outros "Nove de Julho", "Piratininga", quatro batalhões do Instituto do Café, "14 de Julho", "Funcionários Públicos", dos "Estudantes do Comércio", do Rio Grande do Norte, de Mato Grosso, da Legião Negra e muitos, muitos. Fez uma pausa para perguntar em que batalhão meu filho Carlos se alistara e quando respondi: "Borba Gato", êle exclamou: Grande batalhão. Brava gente. E continuou: - A cavalaria do Rio Pardo, equipada à custa dos seus organizadores, partiu para a frente onde prestou relevantes serviços no Setor Sul. Para substituir cada homem que caía, surgiam legiões de patriotas; morreu em combate um filho de Piracicaba, imediatamente 55 rapazes daquela cidade alistaram-se para substituir O que morrera. Todas as classes conservadoras de S. Paulo reuniram-se a 11 de julho na Associação Comercial e deliberaram unanimemente prestar inteiro apoio ao Movimento. A Liga das Senhoras Católicas forneceu 139.000 refeições, 244.797 peças de costura e socorreu 21.574 famílias. As Igrejas Evangélicas prestaram inteiro apoio, todas suas associações foram transformadas em oficinas hospitais, abrigos. Ouçam isto: um paulista doou metade da sua fortuna. Os Bancos puseram à disposição do Tesouro as reservas acumuladas no Banco do Brasil e com esse lastro emitiram-se os Bônus Pró Constituinte. Ninguém deixou de aceitá-los, foram até disputados. As casas comerciais ofereceram abatimento aos fregueses que efetuassem pagamento em Bônus. Os locutores falavam com voz vibrante: "Paulistas, para diante. Continuai a cruzada redentora Vosso sangue não valerá tanto como a glória de tombardes por S. Paulo e pelo Brasil." E a Escola Politécnica? A Escola Politécnica se pôs a serviço da Causa; fêz explosivos, balas, bombas, granadas, morteiros, bombardas, estojos, lanchas, carros e trens blindados, metralhadoras, tudo pela volta do país ao regime da Lei. Tio Damião falava animado, fazendo-nos evocar os episódios da Revolução Constitucionalista mas meu pensamento era um só: Carlos. Carlos de farda, despedindo-se, e a minha corrida à estação para vê-lo partir. Lembro-me que vi milhares de mãos se agitando no meio da fumaça e gritos de vivas aos soldados. Carlos em Buri. Carlos tocando Violão. Carlos cantando. A volta. Carlos furioso com a derrota. Os planos de Carlos. O amor de Carlos. Carlos morto. Tio Damião descansou enquanto seu dedo percorria as folhas dos jornais, parou. Recomeçou de novo: - Dia 18... deixa ver... isso mesmo. Dia 18 de julho, O Quartel General precisou de motocicletas; imediatamente apareceram motocicletas de todos os cantos da cidade à disposição do Q. G. Nessa ocasião, os donativos angariados já subiam a trezentos mil cruzeiros. Os batalhões de voluntários continuavam a se formar, a partir. Dos advogados, dos professores, daqui, dali, de todos os recantos do Estado. Tenho a satisfação de contar que me alistei no batalhão chamado "Liga de Defesa Paulista" estava um pouco velho, cansado, mas foi com O maior entusiasmo e ardor cívico que me alistei e parti. Levantou a voz, endireitou O corpo. - O policiamento da cidade era feito pelos civis: homens de todas as profissões zelavam pela cidade em turmas organizadas dia e noite. Batalhões de escoteiros trabalhavam ativamente por toda a parte, outros escoteiros seguiram para as linhas de frente onde prestaram valoroso auxílio. Dia 21 de julho, O Q. G. precisou de auto-caminhões e automóveis; centenas de veículos foram postos à disposição do Q. G. Os jornais anunciaram a tomada da fábrica de Piquete, foi um dia glorioso para S. Paulo. Pediram: "Nossos soldados precisam de cigarros, roupas de lã, meias, camisas." As fábricas de cigarros enviaram milhares de pacotes, as mulheres redobraram O trabalho, os soldados não podiam sentir frio. Os donativos recebidos até essa data subiram a 900 mil cruzeiros. Os jornais pediram: "frutas para nossos soldados Em dias consecutivos, caminhões rodavam pelas estradas levando aos que combatiam toneladas de fru fas. Assim passou-se O mês de julho, cheio de esperança. Entrou agosto. O mesmo entusiasmo, talvez maior... A mesma luta, O sacrifício de todos os dias. Os hospitais das cidades próximas às linhas de frente estavam cheios; começaram a chegar à Capital trens com feridos, com mortos ilustres: Listas de mortos em combate. Os dias se passavam numa ansiedade... cada vez maior. Turmas de enfermeiras de emergência trabalhavam no Hospital Militar do Brás, na Cruz Azul, no Colégio Mackenzie. Toda a gente trabalhava, ninguém ficou inativo. Dia 1° de agosto O Quartel General precisou de binóculos de campanha, no segundo dia, mais de 200 binóculos haviam sido entregues, depois setecentos binóculos. Dia 3 de agosto: "Precisamos de capacetes de aço para nossos soldados. Cada capacete custa quinze cruzeiros, quem quer dar?" Em dois dias O povo paulista deu 10.000 capacetes aos defensores da Lei. No quarto dia, 19.000 capacetes. Continuaram a seguir batalhões para as linhas de frente: eram os "Voluntários do Brás", O "Felipe Camarão", "José Bonifácio". A iniciativa de enviar garrafas térmicas aos soldados foi coroada de êxito; nos primeiros dias fizeram donativos no valor de dez mil e seiscentos cruzeiros. Os donativos para os capacetes de aço elevaram-se a 381.000 cruzeiros... Pensei: onde estará O capacete de Carlos? Preciso procurar entre os guardados do porão, pregá-lo na parede do meu quarto, ao lado do mapa da Austrália. Tio Damião contou que a 11 de agosto, alguém escreveu nos jornais: "Basta de apelos. S. Paulo está só. Saibamos vencer ou morrer, envolvidos no manto do nosso orgulho, sem atroar 08 ares com pedidos de socorro. É isto O que pensam os nossos irmãos que estão dando seu sangue nas trincheiras. É O que mandam dizer." Deu um suspiro fundo, disse como que ainda em dúvida: - E era verdade. S. Paulo estava sozinho. - Afinal no dia 12 de agosto começou a campanha do Ouro para a Vitória. "Para vencermos a Causa precisamos de ouro, prata, tudo O que puderem dar para O bem de S. Paulo. Paulistas, ouro para a Vitória, ouro para O bem de S. Paulo." Ah, meus filhos, foi a página mais bela do Movimento em prol da Constituição; em cinco dias apenas foram entregues jóias, ouro e prata no valor de um milhão e setecentos mil cruzeiros. Esse desprendimento, esse altruísmo, esse desinteresse de um povo pode ser igualado, mas jamais ultrapassado. Faz lembrar os antigos bandeirantes quando foram à corte lusitana levar presentes de ouro ao monarca. Este perguntou: Que quereis de mim agora?" Ao que os paulistas embaixadores responderam bravamente: "Nada. Nós viemos dar, não viemos pedir." Assim em 32 deram, deram. Velhos, crianças, moços, pobres, ricos, depositaram ouro e jóias nos cofres dos Bancos. Milhares de mãos fizeram ao mesmo tempo O gesto de tirar a aliança para dar e milhares de vezes O ruído seco do ouro batendo no ouro foi ouvido pelos que estavam próximos. Eram pedacinhos de corações que caíam com as alianças. Escreveram: "Do fundo das velhas arcas, cofres foram retirados e as relíquias e jóias que continham, encaminhadas aos Bancos onde se iam formando montões de ouro para a reserva de que S. Paulo precisava." Em seis dias foram recebidos nos Bancos dois milhões e dezoito mil cruzeiros. Mais de mil pessoas por dia faziam donativos. A 17 de setembro, O número de dádivas subia a 42.625. Filas estacionavam em frente aos Bancos esperando a hora. Como na Roma dos Césares, os romanos despojaram-se do seu ouro para a restauração do Erário Romano como na França de 1870, as mulheres deram suas jóias e seus colares de pérolas para salvar a França, todos os paulistas também deram ouro e brilhantes para salvar S. Paulo em 1932. Quarenta dias depois de iniciada a campanha, 1.529 pessoas por dia faziam ainda suas ofertas. Os que davam alianças recebiam em troca alianças de ferro com estes dizeres: Dei ouro para O bem de S. Paulo. 1932." Foi incessante e ininterrupto: estojos com talheres de prata e ouro, canetas de ouro de escritores e homens de Estado, medalhas de bronze e ouro dos atletas, estátuas de mármore, relógios, colares, anéis, tudo que pudesse ser transformado em ouro para a Vitória foi caindo nos cofres. Das cidades do interior, vinham centenas de alianças, correntes, anéis de brilhantes... Enquanto isso a Escola Politécnica continuava a fabricar trens blindados, granadas de mão, metralhadoras, bombardas, morteiros, balas, bombas. Um fluminense ilustre, juiz há muitos anos residente em S. Paulo, escreveu: "Esta vasta oficina de trabalho pacífico está transformada em formidável máquina de guerra que a todos assombra e não é possível descrever. Por quê? Porque este grande povo ama profundamente a sua liberdade disciplinada pela Lei, que é a grande força harmonizadora das sociedades civilizadas." E tio Damião com os olhos mais brilhantes, O corpo erecto e a voz mais calorosa, continuou a falar. - A subscrição para os capacetes de aço, sete dias depois de iniciada, atingiu a importância de 494.700 cruzeiros e os 33.000 capacetes foram enviados para as trincheiras, vinte e quatro horas depois de encomendados. E dia 19 de agosto, mais de um milhão de cruzeiros foram doados para os capacetes. Quanto ao ouro, em fins de agosto já haviam sido fundidos 140 quilos de ouro. Vejam isto, vejam isto, O que um grande escritor falou num discurso: "Ao grito de alerta: dai ouro a S. Paulo para que salve O Brasil, serpenteou pelo Estado, rumo aos Bancos, a fila indiana de generosos doadores. Tênues afluentes de um riacho desembocando na corredeira rebojante da maior prova de desprendimento vista sob O sol, O rio se fez caudal e a caudal oceano. Eu vi! - Vieram os ricos e deram suas riquezas. Vieram mulheres e despojaram-se de suas jóias. Eu vi! - Vieram os atletas e entregaram seus troféus. Vieram os bispos e ofertaram suas alfaias e suas cruzes. Eu vi! - Depois vieram as crianças e deram os áureos bentinhos que haviam recebido na primeira comunhão. Vieram os heróis - velhos soldados cheios de cicatrizes e deram suas medalhas. E vieram, tisnados do sol, os operários e colonos. Também deram seu ouro. Pareceu-me a metalização de suas fadigas feitas de moléculas de sol nas carnículas da áspera faina dos cafezais rumorejantes. Eu vi! - por fim os próprios mortos, como um braço espectral que saísse da eternidade trazendo um punhado de ouro, deram a oferta póstuma do preço das próprias coroas. Até os mortos dão ouro à santa causa do Brasil." Apesar da fria manhã de julho tio Damião passava O lenço na testa úmida de suor e continuava: - As casas do Soldado existentes na Capital até princípios de agosto, atenderam mais de 70.000 combatentes dando-lhes frutas, doces, refrescos, cigarros. A Cruz Vermelha enviou, até O dia 8 de agosto, 52.000 saquinhos de medicamentos e a União Farmacêutica de S. Paulo remeteu mais de três mil caixas com remédios urgentes. O Posto da Rádio Record enviou 15 milhões de cigarros, além de milhares de peças de lã e fardas Dia 25 - nossas tropas tomaram Vila Queimada e tiveram grande vitória em Cunha A notícia alegrou a cidade. Anéis de médicos, advogados, anéis de brilhantes e pérolas continuavam a cair nos cofres os bispos entregaram as cruzes peitorais e O ouro das igrejas. E passou-se O mês de agosto. A luta continuou, tenaz. Chegavam soldados em licença, olhos cheios de sombras. Incertezas. Chegavam notícias do Setor Sul: Os batalhões "9 de Julho", "14 de Julho", "Fernão Dias", "Marcílio Franco" "Borba Gato" e outros - Exército, Força Pública e voluntáríos estavam sem munição, sem canhões, sem aviação. Suportaram heroicamente nas trincheiras um canhoneio que durou horas: mil e quinhentos tiros de canhão foram disparados pelo inimigo, sem interrupção. Vejam bem: mil e quinhentos tiros de canhão. Firmes nas trincheiras, sem arredar pé, cobertos de lama e estilhaços, nossos Soldados tudo suportaram. Quando os da ditadura avançaram pensando encontrar apenas cadáveres depois do canhoneio, foram recebidos por rajadas de metralhadoras e fugiram em debandada deixando mortos e feridos. Assim eram os soldados nossos, como se fossem veteranos de longas guerras. Os poucos aviões que auxiliavam nossas tropas voavam do Norte para O Sul, socorriam aqui, ali, sem poder fazer quase nada, eram os mesmos para todas as frentes, realizando assombros de rapidez e eficiência. Enquanto isso dezenove fazendeiros ofereceram 700 bois, outro, antes de partir para a linha de frente, doou O gado de sua fazenda que atingia centenas de cabeças. E O trem blindado vencia brilhante mente na frente Sapucaí-Eleutério, lá onde O primeiro batalhão Esportivo teve O batismo de fogo. E aqui em S. Paulo os "chapinhas", nomes conhecidos nas artes, na indústria, no comércio, nas profissões liberais, na ciência, zelavam pelos moradores da cidade, vigilantes nas noites frias, nos bairros distantes... Deu um suspiro fundo e parou um instante corou a recordar. - E O senhor, tio Damião? Combateu? Pensou um pouco, acanhado como se tivesse cometido uma falta e respondeu titubeando: - Eu? Eu não fui aceito para combater porque estava velho. Fui "chapinha" também. Velei as ruas da Mooca durante todo esse tempo. Meu turno era da meia-noite às oito da manhã. Passeava nessas horas da noite por todas as ruas vigiando bem e durante esses meses nunca houve um roubo, nunca houve briga. Paz absoluta. - Chegou O mês de setembro. Começou a pairar a incerteza em toda a parte; a retaguarda trabalhava mais, dava coragem aos que partiam, mas uma dúvida ficava pairando no ar, indefinida. Ninguém queria falar, uma espécie de amargura foi dominando as fisionomias. Que estaria sucedendo? A imprensa paulista trabalhou como nunca; noite e dia os operários não largaram as máquinas rotativas, era como se fossem máquinas de guerra. Todos os jornalistas foram soldados, sem trégua, sem descanso. Nunca as penas dos escritores e jornalistas tiveram maior brilho do que na campanha de 32; tinham como que fulgurações de gênio. Muitos combateram nas trincheiras e os que ficaram não desertaram. Nenhum sequer deixou sua trincheira espiritual, numa demonstração de lealdade e sacrifício sem igual. E para as frentes de batalha que eram mais vastas que as da primeira grande guerra, seguiam batalhões, esquadrões de cavalaria, milhares de voluntários. A Escola Politécnica trabalhava incessantemente fazia até metralhadoras, mas que estaria acontecendo? O ouro para a Vitória estava avaliado em três milhões de cruzeiros. Com tanto dinheiro, boa vontade, soldados valorosos, trabalhos sacrifícios, venceríamos. Os dias foram passando tão lentamente... Por que não vinham notícias das vitórias do nosso exército?. Os soldados continuavam a morrer nas frentes. O ouro estava avaliado em quatro milhões. Os soldados a morrer. A quatro milhões e meio. Os soldados a morrer. A cinco milhões de cruzeiros. E ainda havia a campanha dos capacetes de aço, das garrafas térmicas, as cruzadas artísticas, as doações em dinheiro, em gêneros. Ê em vidas, vidas, vidas... Os soldados a morrer. Foi quando começaram a chegar do Norte famílias que fugiam das cidades invadidas O êxodo foi completo. Toda a população das pequenas cidades às margens do Paraíba deixou suas casas, suas fazendas, seus sítios e tangendo seus animais tristemente pelas estradas sem fim, caminhava, caminhava em busca de paragens mais tranqüilas. Os longos trens, quase intermináveis passavam lentamente dando apitos estridentes, arfando, gemendo, levando em seus vagões multidões aterrorizadas. Boiadas levantavam O pó dos caminhos; carros de todas as espécies, cavaleiros, automóveis passavam, passavam. Milhares de pessoas iam a pé; famílias levavam velhos, crianças, animais domésticos, gaiolas com pássaros queridos. O mugido dos bois, O pranto das crianças, O grito dos homens enchiam a estrada branca de luar. E durante toda aquela noite e nos dias consecutivos, multidões passaram, ainda. Lá atrás ficavam pontes destruídas, cidades silenciosas, onde apenas as casas, como fantasmas reprovadores e abandonados, esperavam os soldados da ditadura. No Oeste, na cidade de Ribeirão Preto, seus homens mais ilustres reuniram-se na Câmara Municipal a fim de deliberarem que atitude devia ser tomada diante da trágica verdade: os ditatoriais estavam a três dias apenas da cidade, Ribeirão Preto cairia nas mãos do inimigo. Como nas grandes ocasiões da vida de um povo, cada cidadão ilustre deu sua opinião. Reunidos no salão principal, alguns ainda fardados, recém-chegados das trincheiras, contavam que cidades importantes como Orlândia, Igarapava, Franca já haviam caído, agora era a vez de Ribeirão Preto. Um protesto veemente, como um grito de revolta, partiu de quase todas as bocas. Não, Ribeirão Preto não podia cair. Gritos de raiva e ódio atravessaram O salão, enquanto que alguns mais velhos e calmos, pedindo silêncio, falaram que nada havia a fazer. Combater de que modo? Não havia armas, não havia nada. Era receber pacificamente os soldados da ditadura e aceitar O destino. Protestaram novamente: não! Deviam abandonar então a cidade, fazer a população fugir para que, quando os adversários entrassem, encontrassem uma cidade sem vida. Outros, de ânimo exaltado, recusaram. Não, deviam reagir, combater de qualquer maneira. - Mas não temos meios, disseram os mais velhos, cheios de critério e desânimo. - Devemos combater com O que temos, responderam os mais moços. Por acaso não temos revólveres? Não temos carabinas? Combateremos com O que temos. - É loucura ponderaram os mais velhos. Perderíamos vidas inutilmente. - Antes sacrificar vidas do que demonstrar covardia, respondeu um deles. Outro exaltou-se mais: - E mostraríamos aos ditatoriais que sabemos reagir, sabemos revidar afrontas. Não podemos entregar uma cidade como a nossa, não devemos. - Outros antes de nós disseram a mesma coisa, responderam os mais velhos. Quem quer entregar sua cidade? Franca, Orlandia, Igarapava, Ituverava estão derrotadas e suas gentes não queriam a derrota... O Norte do Estado também está nas mãos deles... - Mas Ribeirão Preto tem mais recursos, tem O dever de saber defender-se não pode se entregar sem luta, argumentaram os mais moços. - Amigos, amigos, aconselhavam cautelosamente os velhos e ponderados habitantes, a Gausa infelizmente está perdida. Saibamos perder a partida. Saibamos aceitar a derrota de cabeça erguida. Alguns choravam, entregar a cidade depois de tanto sacrifício? Continuaram as discussões: a maioria preferia abandonar a cidade, levar tudo, não deixar uma pessoa para receber O inimigo. Novamente deliberaram e depois de horas de discussões, ficou assentado que ninguém fugiria, nem abandonaria Ribeirão Preto. Nada havia a fazer. Os cidadãos que ficassem em suas casas, altivos em suas atitudes, firmes nos seus postos. Mas ficassem. Terminou a reunião. Dias depois os soldados da ditadura invadiram Ribeirão Preto. Lá encontraram homens serenos e vigilantes demonstrando nas atitudes que assim como sabiam ganhar, também sabiam perder com dignidade e honra. Enxugando novamente a testa e os olhos, tio Damião fêz uma pausa. - E S. Paulo? E S. Paulo? perguntaram as crianças. - Em S. Paulo perguntava-se: Os nossos recuavam? Por que não resistiam? Por quê? Então vieram as primeiras notícias: não tínhamos armas, nem aviões, nem canhões, tínhamos apenas soldados. Que pode fazer um soldado desarmado? S. Paulo estava cercado, sozinho, abandonado por todo O Brasil. Foi trágico, muito trágico. Nas ruas, nos hospitais, nos cafés, nos bondes, nas praças, falavam do mesmo modo, tinham O mesmo pensamento: São Paulo não seria entregue. Preferia morrer. Como Sagunto, cercada de todos os lados pelos cartagineses, esperou em vão O socorro de Roma e sucumbiu lutando nas portas da cidade, S. Paulo também lutaria até O fim nem que para isso fosse preciso morrer O último paulista. A cidade seria incendiada e arrasada para que quando entrassem os vencedores, pisassem uma cidade morta, em ruínas. Conquistariam O cadáver de uma cidade. E os outros vieram vin do... A retaguarda não podia acreditar, ela que dera tudo: quase sem dormir, sem se queixar, trabalhando, sofrendo, não podia acreditar na derrota. Não, era preferível morrer, ser uma outra Sagunto. Já não havia esperança, somente fadiga, imensa e trágica. No dia 30 de setembro veio publicado: "Ao povo, tendo O comandante do exército Constitucionalista, com O fito de não causar à Nação mais sacrifícios de vidas, nem mais danos materiais, proposto ao governo, a imediata suspensão das hostilidades, a fim de serem assentadas as medidas, etc, etc." Tudo fora inútil, tudo perdido. S. Paulo lutara sozinho durante três meses por um ideal que agora estava morto. O pranto correu em todas as faces, os soluços explodiram no peito das mulheres. O sofrimento, O trabalho, a angústia das horas lentas e dos dias sem notícias, as mãos feridas na costura e nos trabalhos de enfermagem, as noites sem sono, as vigílias, os mortos, as lágrimas pelos mortos, as dádivas, tudo fora perdido. E tio Damião baixou os olhos para os jornais velhos, como se estivesse chorando Acariciou as notícias com de dos trêmulos, juntou os jornais novamente para guardá-los, mas antes, olhou as crianças, endireitou O busto, perfilou-se todo olhando para a frente como se falasse para a História do Brasil, e disse: - Ouçam bem, meus filhos, S. Paulo não perdeu nem foi derrotado. S. Paulo caiu pela traição dos que prometeram e não cumpriram. E deu uma palmada no maço de jornais como uma confirmação às suas palavras. Rematou: - Fiz até a marchinha intitulada "S. Paulo de 32", inspirada nos atos de bravura e na grande abnegação de nossa gente. Já me ouviram tocar na rabeca. Tamborilou os dedos na ponta da mesa ao mesmo tempo que cantava ta-ra-ta tum-tum-tum. Ouvi vozes na porta da rua. - Esperava essa carta? - Esperava, deve trazer notícias de meu irmão Alfredo que está na guerra. - Espero que sejam boas notícias. - Muito obrigada. Comecei a tremer, não pude falar e Isabel me entregou a carta que O homem trouxera. Apertei-a um momento, parada no meio da sala, ouvi baterem O portão, e as vozes das crianças que falavam de soldados. A carta não traria notícia alguma, apenas me chamaria ao escritório; abri O envelope, lá estavam as palavras que eu lera na carta do triste: "Solicito por gentileza O comparecimento de V. S. na sede desta instituição a fim de tratar de assunto de seu interesse." Muito bem, iria saber alguma coisa, iria saber hoje mesmo. Dobrei a carta demonstrando muita calma desdobrei-a outra vez para que todos lessem. Chamei as crianças, Isabel leu alto, tio Damião ouviu, sorriu, coçou O queixo. Depois tomou a carta, leu alto outra vez, bem devagar. - Isso mesmo, a excelentíssima foi chamada à Cruz Vermelha. Vesti O casaco, procurei a carteira, todos me auxiliavam. Eduardo me aconselhou a ir de luvas, bem agasalhada, fazia frio. As luvas estavam furadas nas pontas dos dedos, luvas rotas. Tolices, num momento destes vou pensar em luvas? Isabel atrás de mim disse que eu devia levar O guarda-chuva, estava garoando. Nem tinha reparado, faz frio? Temos garoa? Muito bem. Que horas são? Não reparei que horas eram, lembrei da fila, devia estar enorme, até na porta da rua. Sílvia perguntou, e um golinho de café, vovó? Tio Damião correu para a cozinha, faria depressa, depressinha, a excelentíssima não podia sair sem tomar alguma coisa. Respondi a Sílvia, obrigada, minha querida. Respondi a tio Damião, obrigada, até logo. Na volta, na volta. Foram me acompanhando até a porta. Felicidades, felicidades, Isabel gritou quando eu já estava na rua, tio Damião sacudiu a mão seca. Eu corria pela rua a fora. Desci do ônibus, atravessei a cidade, a carta na bolsa. Finalmente vinha alguma notícia de meu filho Alfredo: "Êle está com saúde, combatendo no Pacífico." Perfeitamente. E se estivesse ferido? "Êle está ligeiramente ferido num hospital da..." Felício me disse que êle deve estar na Austrália, fica por aquele lado, a tal Austrália. Ligeiramente ou levemente? Coisinha à-toa, ferimento sem importância. E se estiver prisioneiro? "Êle está no campo de concentração de..." Bobagem, mentira. Solicito por gentileza O comparecimento.. Seu filho está prisioneiro, ou doente, ou morto. Barbaridade. Êle não escreveu porque não gosta de escrever, conheço muita gente assim, não gosta, pronto. Alguém tem alguma coisa com isso? Antes da guerra êle também não escrevia sempre, passava mais de um ano sem escrever, imagine agora com esses combates, bombardeios, essa maldição a sacudir O mundo e êle a procurar papel, caneta: "Mamãe, vou bem só com muito barulho por causa das bombas." Alguém terá caneta naquelas paragens? Duvido. Quem tinha já perdeu. No meio do pandemônio, como diz D Genu, onde êle vai arranjar papel para me escrever? Deus me livre, é impossível. Levei um encontrão, bateram no meu ombro, desculpe. Desci a Rua Libero Badaró. CASIMIRAS - PRESENTES FINOS. LIVROS - PRESENTE DE AMIGO. Há uma cantiga que Carlos gostava: "Felici... dade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora... Morou sempre desde que O primeiro desertou. Meu passos vão como que se arrastando nesta tarde triste, vou retardando, minha pressa vai diminuindo, minguando, toda minha pessoa vai ficando esquisita, tenho vontade de fugir, não parar na porta ir alem, passar, andar até não poder mais e voltar para casa livre deste fardo, desta carta que me queima. Ou se receber alguma notícia má, dar risada, responder aos gritos Que e que eu tenho com isso? Que me importa? Solicito por gentileza... que irão me dizer? Sussurrar ao meu ouvido? Lembro-me de quando êle era pequeno, menino levado Andava sempre com canivete no bolso, dizia nomes feios, tinha uns amigos muito moleques, um terror. Saía cedo de casa, voltava tarde, respondia vagamente às minhas perguntas, fui não sei onde, fiz isto, aquilo. Não gostava de estudar, não admiro, eu também não gostava; fui péssima aluna, uma das piores, nunca sabia nada. Êle também não sabia, não estudava, tinha idéias diferentes dos irmãos, era diferente em tudo. Dizia que faria qualquer coisa para melhorar O mundo, havia muitos erros falava em diferenças de classes, em lutas, coisa assim. Às vezes brincava: Esta D. Lola... Dava tapinhas no meu ombro, sempre tão delicado, tão amável, tão bom. Me trazia presentinhos, nunca se esquecia da velha. Adorei esse filho não sei se porque esse era diferente, para os diferentes a vida é mais difícil. É verdade, ninguém compreende os diferentes, mas eu compreendia Alfredo. Quantas vezes não O protegi quando entrava em casa de madrugada, não O escondi dos irmãos quando vinha de umas reuniões políticas, e quando os outros vinham me contar que Alfredo freqüentava isto e aquilo, que Alfredo cairia nas mãos da polícia, que estava em caminho errado, eu dizia fingindo aflição: "Meu Deus, que menino. Que hei de fazer?" Mas eu sabia tudo, pois muitas vezes êle se esquecia da chave e era eu quem abria a porta, censurava-o por voltar tarde, zangava-me um pouco, mas no íntimo não me importava porque Alfredo era diferente e ninguém pode mudar O gênio de um filho. Para aqueles que levam vida igual à dos outros, que nascem, seguem a mesma rotina da família, estudam, casam, formam nova família, sempre naquele ramerrão certo, naquele caminho largo sem tropeços, sem encruzilhadas, tendo as mesmas idéias que O pai, O avô, que todos os antepassados tiveram, a vida é um lago muito tranqüilo, sem ondas. Mas para aqueles que nascem com outras idéias, a vida é um rio impetuoso deslizando sobre pedras, despencando das alturas, mergulhando em abismos, rugidor, desesperado por se evadir e em vez de procurar O mar como todos os outros, desdobra-se em cataratas e desaparece no desconhecido. Assim tem sido a vida de Alfredo, um rio inquieto em busca de outras paragens, outros abismos. "Lembre-se de que luto pelo ideal que sempre desejei e depois desta guerra O mundo vai mudar, sempre para melhor." Ah, meu filho, este mundo não muda, talvez sejam suas idéias que mudem, que se desmoronem como um castelo de areia. Tanta coisa tem se desmoronado, tanta idéia tem ruído com O correr dos tempos e O mundo não melhora, ou melhora para uns, piora para outros, é como uma balança que pende ora para a direita, ora para a esquerda. As idéias e as ambições dos homens são muito pesadas e desiguais para que a balança fique equilibrada, e O mundo está pior, meu filho, cada vez pior Andei mais lentamente, entrei, tomei O elevador. Ficarei na fila? Mas se eu tenho a carta na mão, irei até a porta, quanto mais depressa melhor, seja O que fôr. Lembrei-me dele pequenino, sempre foi O mais forte, O mais robusto. D. Genu dizia que não tinha inveja de mim, tinha inveja da mãe de Alfredo, quanto lamentava não ter um filho Alfredo. Queria-o tanto que protegeu-o na noite da fuga. E quando eu recebia notícias, corria a contar à minha amiga; lembrávamos juntas as peraltagens do menino e as idéias do moço, até que um dia veio a guerra. Foi como uma barreira que me separou de Alfredo, além da distância, a barreira intransponível da dificuldade de comunicações. "Estou lutando para expulsar os invasores da Austrália." A barreira foi se tornando mais densa, com maior espessura, mais difícil de ser transposta. Quando os sinos das igrejas começam a tocar, parecem dizer aos meus ouvidos: três! quatro! três! quatro! representam os anos de silêncio, sem notícias. Barreira fechada. Toda a gente a dizer agora: "Procure a Cruz Vermelha. Peça notícias à Cruz Vermelha." Muito bem. E quando a moça me estendeu O telegrama comecei a rezar e a olhar a mão da moça. Sim senhora pois não Se eu tivesse aqui comigo "Solilóquios da Alma Aflita diante de Deus", ficaria mais tranqüila, mas não tenho nada. Que fazer? "Tenha dó de mim, tenho sofrido tanto, sabeis meu sofrimento tão bem quanto eu, sabeis minha luta, meus sacrifícios, minhas amarguras. Sabeis que perdi um filho de vinte anos e antes que O levassem, cantei para êle as cantigas da infância, aquelas mesmas que cantaram para mim; e plantei roseiras no seu túmulo, as rosas são brancas e grandes, as que êle mais gostava; rego todos os anos com minhas lágrimas para que elas sejam mais belas e mais viçosas. E não é por isso que poderei perder outro filho, não Senhor, não é por isso. Apesar de considerá-lo quase perdido há tanto tempo, há sempre uma esperança no fundo do coração. Sempre uma esperança. E que desgraça se não fôsse a esperança. Que desgraça." Tomei O papel, olhei, fiquei contente porque não entendi uma palavra. Obrigada Delicadamente ela disse segurando de novo O papel: - Vou ler para a senhora. - Não precisa muito obrigada. Não precisa. Disse que não custava nada, O telegrama era em inglês, cia entendia muito bem, não custava nada. Ia ler. Tive vontade de tapar os ouvidos, gritar por socorro, deixar a moça com O telegrama na mão, ir embora. A vozinha dela era delicada, falou com atenção, não entendi nada. Tornou a repetir com paciência, mostrou as palavras com a ponta do lápis, eu fui seguindo O lápis, a mão da moça, minha vista ficou turva, meu ouvido fêz zuin... "Paciência. Meios para adquiri-la." Sim senhora. - Vou repetir. Diz assim: "Referindo ao seu telegrama 1.247 ponto Nós ainda não encontramos Alfredo Abílio de Lemos ponto Continuamos a procurar ponto" Um intervalo. Ouvi uma belíssima orquestra tocando música desconhecida. Onde estarão tocando? Olhei à volta. Muitos instrumentos. Sílvia está aprendendo piano. Violinos Deus louvado, violinos, sempre gostei de música Tio Damião está compondo uma polca para quando êle chegar. Alfredo. A moça repetia as palavras do telegrama devagar, pôs O dedo em cima de cada palavra, com a ponta da unha acariciou O nome Alfredo. Devagarinho. - Não foi encontrado? Falei com voz firme, tirei os óculos da bolsa, fixei O papel, O nome de meu filho estava ali, inteiro. Com todas as letras, não faltava nenhuma. Li O nome outra vez, estava direitinho, muito bem. Os violinos cantavam, todo O ambiente vibrava de entusiasmo. Veio a voz: - Mas então êle não morreu? Sorriu ternamente, tinha olhos grandes, paciência. - Não senhora, se tivesse morrido, eles sabiam. Pancadas fortes, levei a mão à boca para conter O coração. Despedi-me, agradeci, atordoada. Perguntei se po dia levar O telegrama, queria mostrar a toda gente, aos da família, sabe? Voltei para dizer que estranhava muito O exército norte-americano não saber onde meu filho estava, a última carta viera do Pacífico. A última, sabe? Ela respondeu que O exército norte-americano estava muito espalhado: Inglaterra, Itália, África, Japão.. Austrália. Repetiu: Austrália. Também falei - Austrália - e ri. Tornamo-nos íntimas, amigas íntimas. Quem sabe êle foi mandado para outro lugar? - Tem razão. E como é seu nome? - Meu? Leia. Rimos outra vez. A intimidade cresceu entre nós. Já perguntei uma vez. Desculpe e muito obrigada. D. Leia, a senhora me deu uma esperança. Ela ficou sorrindo. Tropecei na entrada do elevador, levei a, mão à boca outra vez, parece que O coração estava ali, ia saltar. Sempre fui velha forte, serei forte. Sinfonia n. 40 de Mozart. Essa foi a música que ouvi, ouvi de manhã em casa pelo rádio e ouvi enquanto recebia O telegrama. O n.° 14 estava demorando - SEGUROS DE VIDA CINE SANTA HELENA. Veio O 16, veio O 18. - Então? Recebeu alguma notícia, mamãe? Como foi? Isabel gritou do portão, os netos estavam no ponto do ônibus, esperando. - Não foi encontrado no Pacífico. D. Leia disse que O exército americano está muito espalhado, êle deve estar em outro lugar. Deve estar bem, do contrário mandavam dizer. Sacudi no ar O telegrama. Silêncio profundo. Felício no terraço, tirou O charuto da boca. Triunfante. - Eu não disse que era difícil? Quase impossível. Recostou-se na cadeira, feliz por ter acertado. Contei que a Cruz Vermelha ia continuar a procurar em outros países, mandariam notícias logo que tivessem. O telegrama estava ali, D. Leia... - Quem é D. Leia? - A moça que me deu O telegrama. Examinaram-no, olharam, ninguém entendeu. Expliquei, olhem aqui O número e as palavras que D. Leia traduziu, está era inglês. Aqui é Genéve, cidade da Europa... As crianças disseram que era na Suíça, pois é isso mesmo Eduardo e Carlos pediram para ler, estavam aprendendo inglês. O pai concordou, orgulhoso. Leram - Alfredo comovidos. Isto quer dizer - não foi encontrado. Stop é ponto. Assinado - Intercroixrouge Xal, tal. Ficaram com O papel na mão reviraram leram palavra por palavra. Felício voltou ao charuto, Isabel riu, contente, há tempos não a via tão contente. - Já é uma esperança, hein, mamãe?" Isso mesmo; D. Leia disse que se êle tivesse morrido, saberiam. Deve estar em outro lugar qualquer, não no Pacífico. Torciam O telegrama nas mãos, A chuva caía com estrondo no telhado, a ameixeira estremeceu e O vento que há muitos dias não rondava a casa, sacudiu todas as portas. Abri O "Caminho Reto" na página 384: "A morte chega na hora menos pensada." " zzz Capítulo XI Zzz Transcrevi as palavras do telegrama para Itapetininga e para O Rio de Janeiro. Julinho telegrafou em resposta: "Congratulações cordiais de toda a família. Lema: não perder as esperanças. Julinho." Clotilde me aconselhou fazer duas novenas e me mandou uma oração milagrosa. Felício levou O telegrama para um colega do Departamento traduzir, voltou dizendo que O colega não fora esse dia e quem traduzira fora D. Augusta. Passara na casa do Honório para provar uns biscoitinhos de araruta (por sinal que deliciosos) e ela se oferecera para traduzir. Explicou desdobrando O papel: Olhe, as palavras textuais são estas, quer ver Este stop quer dizer ponto final Isto quer dizer... Repetiu minhas palavras, mas D. Augusta traduzira, deu mais valor ao que estava escrito. Os meninos sentiram orgulho por ter um tio na guerra do Japão, colocaram O telegrama sob a fruteira, bem à vista. Passei pela casa de D. Genu, só para contar a novidade. Mostrei O telegrama, expliquei, sabia de cor as palavras; minha amiga comoveu-se, enxugou as lágrimas, alisou O papel como se alisasse a mão de Alfredo. Sorriu. - Morreu O quê. Um dia a penhora me disse toda chorosa: "Ah, D. Genu, tenho quase certeza de que êle morreu, nunca mais me deu notícias. Morto no mar, gostava tanto do mar..." Morreu O que, nunca acreditei um riquinho assim que êle tivesse morrido (mostrou a unha do mindinho). Ainda vamos dar muita risada com as proezas que êle vai contar. A senhora vai ver, esperou japonês que não foi vida.. " Riu alto. Enfim já é uma esperança falei. Se Alfredo tivesse morrido eles sabiam, dizem que os norte-americanos são muito organizados, tudo que eles fazem é perfeito, até a guerra. Falei com voz forte, esperançada: - Pense um pouco. Se Alfredo estava combatendo com eles e tivesse morrido ou desaparecido, então não haviam de saber? O nome de Alfredo estaria na lista do exército norte-americano, haviam de saber qualquer coisa. Isso é que eu penso. Ela continuou, quis falar. Eu continuei, inventei historias, elogiei O exército dos Estados Unidos, gabei a organização, tudo deles é perfeito, sem falhas. Convencida, animada, para que a esperança crescesse, virasse realidade. Minha amiga concordou, falou é isso mesmo, meu genro, O marido de Lili, trabalhou numa empresa norte-americana há muitos anos, empresa de transportes, só vendo como êle gabava estava satisfeitíssimo, homens corretos aquêles. Depois encrencou com um colega de trabalho, intriga, inveja compreende? Saiu uma gororoba danada, briga feia O genro deixou a empresa; mas gabava muito, gente boa. Meu olhos riam, minha boca ria, isso mesmo são formidáveis, não lembra Alfredo como escrevia que vivia contente? Cada carta elogiosa, satisfeita da vida, dava-se bem com eles, gente boa. - Eu me lembro que numa carta contava que combatia os japoneses, êle e os norte-americanos eram íntimos, eu tenho a carta, lembra-se? Estavam num lugar chamado Guadalcanal, nunca me esqueço, lutava junto com os norte-americanos, escreveu que a Austrália podia ficar tranqüila, eles expulsariam os japs de lá. Rimos juntas, D. Genu repetiu alto - japs - lembro bem agora. E que O mundo ia ficar melhor, combatia por um mundo melhor. Isso mesmo, lembro muito bem. Ficamos nos fitando um instante, rindo ainda, minha amiga continuou: - Por falar em mundo melhor, onde é que a senhora compra manteiga? Aqui no nosso empório não há mais. Contei que também não tínhamos manteiga e quando encontrava, que preço, hein? E O leite? Que dificuldade. É verdade. A conversa voltou para a vida cara, tudo pela hora da morte, como se pode viver assim? Nem sei como O povo agüenta. Metemos a lenha no governo, na política, nos homens que governavam, queixamos amargamente de tudo oh, vida amarga, nem açúcar para adoçar, suspirou D. Genu. Levantei-me, guardei a preciosidade do telegrama, despedi-me. Ela disse - Pois receba meus parabéns. A notícia não dá muita certeza, mas meu palpite é que Alfredo está bom e ainda vai voltar para contar quantos inimigos liquidou. Aquele é homem de verdade, nunca teve medo de nada. Lembra a noite em que foi perseguido? Pensa que êle estava com medo? Qual, aquele é valente no duro, qualquer dia está aí fazendo surpresa, contando aventuras. Se os americanos soubessem alguma coisa ruim mandavam contar, morte anda no ar É porque êle está bom Exército organizado esse exército norte-americano. Criei forças, nem fale. De pé na porta da rua, tornamos a elogiar O exército, a descer a catana no governo, que nem põe bondes nem ônibus para O povo, O pobre que marche a pé, ou fique nas filas. Uns sem-vergonhas, a gente que agüente Voltei para casa, animada aliviada com as palavras da minha amiga, que na porta da rua me sussurrara: "Reze para Santo Antônio: os doentes se levantam sãos, O mar se abranda, são livres os presos. Os perigos se apartam, os pobres são remediados, bens perdidos recobram moços e velhos." Felício estava com amigos na sala. Abriu garrafa de vinho, fizeram brindes, falaram na invasão, toda a gente falava. Beberam pelos aliados, pela invasão, pelas famílias, Felício ficou prosa, contou a vida toda, fiz isto, resolvi aquilo, ganhei dinheiro, aconselhei fulano, bebeu mais um copo. Os amigos olhavam, aprovavam, justamente, você tem razão, também penso assim. Êle foi se animando, tomando mais meio copo, contando histórias, se elogiando, crescendo, subindo. Já era quase um santo a caminho do céu, anjo de bondade para os filhos, marido exemplar, genro delicado e amigo. Todos ouviam com atenção, os meninos piscavam de sono mas queriam ficar ouvindo, era tão raro ter visitas, O pai esquecia de ralhar e os elogiava. Concordavam, isso mesmo, você fêz muito bem, eu faria O mesmo, tem razão. Outra garrafa, este vinho é especial. Mais brindes, mais elogios "Eu trabalho de noite, eu comprei terreno, eu vendi por tanto ganhei tanto. Eu acertei quando disse para sicrano, eu tinha razão disto, eu sabia há muito tempo que ia acontecer, quem não estava vendo?" Entrou no reino dos céus acompanhado dos anjos e santos, tôda a corte celeste cantando hinos e tocando trombetas, O arcanjo Gabriel na frente com a espada de fogo, escoltando-o. Hosanas, salve. Terminou com as garrafas vazias, as visitas ainda concordavam, as crianças cochilavam, as cabeças na mesa. Isabel levou Lena, delicadamente êle mandou os filhos para O quarto, abençoou-os, acompanhou-as com olhar terno. E começou a traçar os planos da invasão. Explicou que os aliados deviam fazer assim, forçar neste ponto aqui, a vitória será garantida. E se não fizerem assim, não conseguem coisa alguma. Concordaram. Falou no telegrama, tivera razão, dificilmente D. Lola teria resposta satisfatória, bem avisei, não foi? Pediu O telegrama para mostrar, traduziu as palavras, os pontos finais, voltou, foi para diante, para trás, parou, continuou. Foi quando D. Augusta apareceu, modesta tradutora. - Quem é D. Augusta? alguém perguntou. Contou quem era, fêz elogios à arte culinária da mulher do Honório seu colega, falou sobre biscoitos, broas, geléias, pudins, pão de macarrão e O inglês de D. Augusta. Sorriu modestamente. Concordaram. Julinho aparecia duas vezes por ano. Vinha para uma visita rápida. Tomava café, contava casos. Da última vez, ficou muito tempo virando O telegrama entre as mãos. Falou na guerra, na invasão. Quando O assunto esmorecia, eu perguntava: - E os negócios como vão? A firma vai bem? Êle ria, Fagundes Vaz e Cia. Limitada? Cada vez melhor, dando bom lucro, nunca a firma ganhou tanto como nesta guerra. Eu escutava, essa mesma guerra que pode matar Alfredo. Eu não queria que êle fosse embora, então continuava a fazer perguntas; queria prendê-lo, achava que se não fizesse perguntas, êle se despedia, ia embora. Minha cabeça trabalhava forjando coisas para perguntar, queria que ficasse mais tempo, esquecesse de partir. Contava das músicas que Sílvia estudava, contava dos estudos dos meninos, das travessuras de Lena. - Sílvia vai começar a tocar Mozart. Seus dedos tamborilavam na tábua da mesa. - Mozart? Ela está adiantada. Muito. Tirava um cigarro, batia, começava a fumar. Perguntei se continuavam a jogar, jantar fora, ir a festas, sempre muitos compromissos? Disse que sim, muito mais, naquela ocasião deixaram de ir a muitos lugares por minha causa, para me fazer companhia. Fiquei perturbada, como não havia percebido? - Mas que tem isso? Tivemos muito prazer em hospedá-la, quando vai agora? De pé, na minha frente, parecia mais alto, encorpado, bem nutrido, os cabelos começando a rarear nas têmporas, a pele do rosto muito lisa, e levemente rosada, os bigodes bem cortados, pretos, lustrosos. Bem vestido, gravata vistosa, uma bonita pérola sobressaindo no tecido colorido. Meu Julinho. Tornou a perguntar de pé na minha frente, forte e rico: - Quando vai agora? Não sabia era preciso resolver O caso de Alfredo, sabe? De repente pode chegar um telegrama e eu não estou aqui. Riu sacudindo os ombros, felicíssimo com os lucros da firma, com a vida. - Ora O Alfredo qualquer dia aparece por aí e a senhora fica tranqüila. Não aconteceu nada para êle, sou capaz de apostar Ficou olhando a ponta do cigarro e eu fiquei séria; eu não gostava quando êle falava de Alfredo assim levianamente parecia consolar uma criança: "Você recebe a boneca, não se assuste." Então tem havido festas? Sim, até haviam convidado um conde português para jantar. Maria Laura ficou aflita, como é que êle convidava um conde se não tinham uma toalha de renda verdadeira para cobrir a mesa Tinham tantas toalhas... Mas ela queria uma toda de renda verdadeira digna de um conde. Êle correra à cidade visitara as principais casas, fora às lojas melhores à procura da toalha. Encontrou afinal uma preciosidade, com bordados nos cantos belíssima. O jantar foi fino serviram champanha pratos escolhidos, os sogros haviam jantado também, ao todo quatorze pessoas. Isabel entrara na sala e escutava sentada num lado, os olhos muito abertos como se escutasse uma história de fadas. "Então a Fada boa levantou a varinha e fêz aparecer uma mesa com iguarias finíssimas, os candelabros brilhavam na toalha de renda." - E a toalha? Custou caro? Hesitou um instante, sorriu, orgulhoso porque a história era empolgante, as Fadas eram boas e os ouvintes atentos. Amassou O cigarro no cinzeiro, vinte mil cruzeiros. Dei um gritinho de rato assustado: - Julinho, que despesa enorme você teve. Vinte mil cruzeiros? Se você não contasse, eu não podia acreditar não é mesmo, Isabel? No íntimo eu estava radiante meu filho Julinho podia comprar toalhas caríssimas, era rico eu tinha um filho rico. Isabel sorriu palidamente decerto pensando na Fada boa sem coragem de perguntar ao irmão onde a encontrara Êle riu-se alto, bateu nas minhas costas, despediu-se, precisava ir, beijou minha mão. Quis ainda retê-lo, ofereci doce de marmelo que recebera de Clotilde, ofereci outro café fresco, olhei à volta procurando avidamente O que podia oferecer ou falar para que êle ficasse mais um pouco. Precisava ir, tomaria O avião noturno para O Rio, Maria Laura esperava-o. Abraçou Isabel, deu um piparote no rostinho de Lena, entrou no automóvel que esperava no portão, foi embora. Fiquei pensando no conde lavando os dedos na água de rosas, na toalha de vinte mil cruzeiros. Sim senhor, Julinho subiu na vida. Alta burguesia. Assim estivessem todos os meus filhos na alta burguesia, conduzidos pela Fada boa, oferecendo jantares a condes. Bem melhor do que combater, sujo, cansado, coberto de lama e sangue, a lutar, a lutar para melhorar O mundo. Melhorar O quê? O mundo? Mesmo com guerras e idealistas como Alfredo êle continuará O mesmo, as pessoas é que mudam. O Julinho é que têm razão, antes oferecer jantares finos que combater. Os olhos de Isabel estavam parados, fixos num ponto perdido. Eram seis e meia de uma manhã muito clara, O céu lavado de nuvens, muito azul, bateram no portãozinho. - Quem é? Era Tinôco, vago amigo de Felício morador naqueles ermos. Uma vez por ano, nem isso, parava no portão para uma prosa. Cabelos pesados de brilhantina, a roupa velha bem escovada, tratada, lembrava Felício nesse esmero no trajar Era guarda-livros numa casa da cidade; dera volta grande, quis passar em casa para ser O primeiro a dar a boa nova. Falou do portão a voz embargada: - Bom dia, minha senhora. Felício ainda não saiu Passei aqui para contar que começou a invasão esta noite na Europa. - A invasão? Não me diga. Felício veio lá de dentro, empurrando os cabelos para trás, amarrando os cordões do pijama, O rosto branco de espuma. Debruçou-se: - Que foi? Bom dia, Tinoco. Começou a invasão? Quando? Como é que não ouvimos nada? Voltou-se para dentro; sua voz era fria. - Até que horas O rádio ficou ligado ontem? Os meninos começaram a dar urros na sala, Isabel apareceu risonha, será possível? Que felicidade. Mamãe, agora Alfredo volta Sílvia esparramou as duas mãos no teclado, nuns acordes de marcha, O piano estremeceu aos gritos agudos e graves. Felício voltou-se furioso, mandou que ficassem quietos, estavam loucos? Debruçado na janela, Eduardo queria saber. Tinoco respondia aos arrancos, as perguntas e respostas se encontravam no ar e desencontravam, não se entendiam. Felício resolveu: - Entre, Tinoco, venha tomar café. Vou ligar O rádio. Isabel levantou Lena nos braços, entusiasmada. A voz do locutor estava rouca, cheia de trêmulos, de altos e baixos. Os meninos abriram O mapa no chão, Eduardo mostrou com O dedo os pontos onde deveriam estar os aliados. Aqui? Aqui? Felício fingia indiferença, procurava manter-se frio. Entre, Tinoco, sente-se. Não foi nos pontos em que se esperava. Veja bem, foi num lugar onde ninguém podia imaginar. Carlos gritou: Generais formidáveis. O pai franziu a testa. Seu Tinoco pôs a mão no mapa, O dedo correu sobre a costa do Atlântico, fêz exclamações; O locutor nervoso quase berrava, ouviam-se hinos. Preparei a mesa, trouxe a louça. Sílvia e Eduardo me auxiliaram, Carlos encheu O açucareiro com parcimônia, Isabel fêz O café. Todos falavam, perguntavam, silenciavam para ouvir O locutor, tornavam a falar, a rir. O cheiro do café fresco se espalhou, sentamos à volta da mesa Seu Tinoco, meio acanhado, sentou-se também. À vista do acontecimento, não havia cerimônias, todos se davam e se apertavam as mãos, eram irmãos. Não é, seu Tinoco? Isabel perguntou sorrindo e eu olhei para Felício. Êle franziu a testa, aborrecido. - Mas Tinoco, nunca acreditei na invasão. Falava nos aliados, nunca pensara que se desse a invasão. Falava com calma indiferença, media as palavras. Seu Tinoco tomava café, cerimonioso, perfilado na cadeira, cheirando sabonete. Que coisa estupenda. Todos unidos pelo mesmo pensamento, menos Felício. Os meninos empurravam pedaços de broa na boca, não queriam perder palavra do locutor, do seu Tinoco, de Isabel. - Nunca imaginei que houvesse mesmo invasão, que diabo. Tinoco, mais uma xícara. Sirvam café a Tinoco. O nervosismo enchia a sala pela voz do locutor; novo hino, os meninos comiam de pé, esquecidos da severidade do pai, hoje todos são irmãos. Isabel ria, satisfeita. - Não é, seu Tinoco? Hoje deveria ser feriado. Lena falava alto, sacudia a mão por cima da xícara, os lábios molhados de leite. Isabel riu alto: - Grande dia este. Agora a guerra vai acabar, grande dia. Felício chamou-o por outro nome, pediu desculpas. O outro sorriu que não era nada, não se importasse, nesse dia ninguém se importava com coisa alguma, ora esta. Agora os dois meninos mastigavam debruçados sobre O mapa no chão. Seu Tinoco levantou-se para sair, obrigado, precisava ir, estava na hora. Apertou as mãos, grande dia este, Isabel confirmou, é verdade. Obrigado. - Obrigado a você que trouxe a notícia, Felício respondeu polidamente. E enquanto O outro alcançava O portão, Eduardo gritou: - Hoje deve ser decretado feriado. Puxa, O maior dia do ano, deve ser feriado. O outro confirmou, saiu rindo e fechando O portão. Felício ralhou, onde estamos? A testa cheia de rugas. - Ninguém tem compostura nesta casa? Que falta de educação. Onde se viu esse descontrole? O que O Tinoco há de dizer Olhava Isabel, censurando-a. Estava furioso porque não acreditava na invasão e O fato se dera, furioso porque não fora O primeiro a ouvir a notícia, furioso porque todos estavam contentes, pareciam contra êle e êle não havia podido conter aquele entusiasmo que transbordava mesmo em Isabel, Isabel que não obedecia, nem O escutava nesse dia. Ordenou aos gritos que O Cavaleiro da Triste Figura fosse trabalhar, voltou ao banheiro e fechou a porta batendo com força. Isabel sacudiu os ombros de leve, chamou Eduardo e de joelhos, no chão ao lado do mapa, conversou com os filhos, mostrou, explicou. Novos hinos. Eduardo perguntava, onde está a fortaleza invencível? Lena saiu pela casa a procurar: Onde tá? Havia animação nas ruas, trocavam idéias nas filas de carne e pão, falava-se com conhecimento nos generais ingleses e americanos. "Fulano fêz isto ou aquilo." Fulano era O general, amigo de todos, conhecidíssimo Os meninos cortavam os retratos dos jornais, pregavam nas paredes do quarto. Pronuciavam os nomes com respeito, seguiam O movimento das tropas, dos paraquedistas. Formidáveis. O povo tinha esperança, os racionamentos vão se acabar, dizem que logo vamos ter açúcar. Toda a gente sentia mais alívio, O fardo diminuíra de peso, tornara-se mais leve. Julinho apareceu sem ser esperado, bem tratado, satisfeito, abraçou todos, perguntou por Isabel, conversou. Contou as últimas notícias da guerra, achou Lena crescida, distribuiu dinheiro, examinou de novo O telegrama. Nestes anos de guerra, Fagundes Vaz e Cia. dera um resultado bom, de agora em diante talvez os lucros diminuíssem, não importa, em primeiro lugar paz para O mundo, depois Os lucros. Êle era humano, não como outros que conhecia, gananciosos, só pensavam em juntar milhões. Levantou-se para sair; contei que Sílvia estava tocando Mozart, não queria ouvir? Ficava para outro dia, viera com pressa, negócios, mandou abraços a todos, gritou para dentro: - Até logo, Isabel. Logo mais, ela veio dos fundos da casa perguntando pelo irmão. Enrugou a testa: - O quê? Foi embora sem falar comigo? Que ingrato. Queixou-se. Depois que ficara rico era assim, não se importava com ela, ela era pobre. Se fosse rica, êle seria capaz de ir embora sem falar, apertar a mão, dar um abraço? Ricos ingratos, egoístas, só pensam neles. Devia estar acostumada, O rico não liga para O pobre, mesmo sendo irmão; nunca êle ficava para almoçar ou jantar, tinha medo de passar mal. Haviam sido tão amigos, brincado juntos, sofrido juntos, agora não pareciam irmãos. Estava cheio de dinheiro esquecera que ela era sua irmã, que continuava a ser. Presumido. Orgulhoso. Lembrei-me de D. Genu a recriminar a irmã rica, a ameaçar todos os ricos, quando estava pobre. Isabel sofreria também? Teria fel no coração como só têm os que odeiam? Que poderia eu fazer para suavizar-lhe O sofrimento, diminuir-lhe a dor? Preocupada com Alfredo eu me esquecia de Isabel e ela estava ali, sofredora. Os parentes de Itapetininga e Isabel não perdoavam a riqueza de Julinho; se êle fosse pobre, podia esquecer, não perguntar, ignorar nomes, não se importariam. Mas era rico não perdoavam. Que mundo. Seria essa a luta de classes que eu tanto ouvira falar? A tarde caiu rapidamente. Isabel levantou-se com a menina nos braços, resmungou ao deixar a sala: - Sou pobre, por isso sou desprezada. Queria ver se fosse bem rica, êle havia de me adular. Espirrou fel. Ódio de classes, a verdade estava ali naquele fel que esguichava. . A paz era profunda no jardim da Pensão, onde D. Genu e eu estávamos de visita. Sobre O canteiro de esporinhas roxas, borboletas voejavam. Um beija-flor pintado de verde vinha com O bico comprido e sugava avidamente as palmas de Santa Rita. Lá no fundo do jardim, engastada na gruta rústica, a Virgem de fita azul na cintura escutava Bernadette D. Genu é D. Tütuta conversavam ternamente sobre os parentes que haviam morrido - O defunto Benedito gostava de atormentar os outros. Atormentou tanto a mulher que ela morreu antes do tempo. Deus O perdoe. D Tututa respondeu fungando: E meú tio Inácio? Era tãò avarento que escrevia a data no rolo de papel higiênico do banheiro. Se acabava logo, discutia com os filhos porque não sabiam economizar papel. Deus me perdoe, mas era terrível na ganância. Morreu de doença ruim. Houve uma pausa. D. Genu seguiu com os olhos O beijaflor verdolengo e perguntou balançando a perna: - Que doença? Nesse instante D. Prudencinha apareceu no jardim Estava agora com noventa e dois anos, pequena, magra, os olhos muito espertos, perscrutadores Seu rosto murcho era da eôr de limão, um limãozinho velho e murcho. Não tinha dentes é continuava a brigar com a irmã porque não queria usar dentadura. Sobre O crânio liso, raros cabelos de um branco amarelado estavam presos por uma fita preta. Usava uma saia escura de lã e uma blusa de pintinhas brancas, abotoada na frente, solta por cima da saia como casaco Meias pretas e chinelos de couro, folgados. D. Genu foi ao encontro da amiga, exclamando: - Prudencinha, como vai? Sarou do braço? Procurou abraçá-la. D. Prudencinha livrou-se do abraço fazendo um gesto de amuo, sorriu com indiferença e mostrou O braço direito. Mancando, dirigiu-se para O banco de madeira; sentou-se, puxou a saia para os pés, olhou-nos e sorriu ternamente, mostrando as gengivas rosadas. Ficou ali quietinha como uma menina bem-educada, ouvindo a conversa dos grandes. D. Genu sentou ao seu lado, começou a acariciar-lhe O braço, perguntou pela segunda vez se estava melhor e não sentia dor. D. Tututa disse que estava melhor, os remédios haviam feito bem, só que ainda não podia comer sozinha, era preciso pôr-lhe a comida na boca. - Continua que nem criancinha? perguntou rindo D. Genu. D. Prudencinha confirmou; sua voz era baixa e rouca: mostrou outra vez O braço, fêz caretas. - Dói muito, ela diz que não, mas dói muito. Olhou a irmã, fêz outra careta. Pacientemente D. Tututa explicou, sabia que doía, como não havia de saber? Mas D. Prudencinha já não ouvia; levantou-se manquitolando e foi buscar a gata que apareceu no jardim acompanhada de dois gatinhos. Pegou um dos gatinhos segurou-o na mão esquerda veio nos mostrar: - Esta é Desdêmona. O rosto enrugado careteava como se fosse O de um macaquinho. Sentou-se novamente com O gato no colo, depois apertou-lhe a barriga, achou-o magro Chamou a gata: - Venha aqui, Bichana, Desdêmona está com fome. Pôs a gata no banco ao seu lado, voltou-a de barriga para cima, começou a apertar-lhe as maminhas A gata, de olhos cerrados, não protestou. D. Tututa olhou-nos como a pedir desculpas. Suplicou: - Prudencinha, que é isso? Deixe a gata. - Quero ver porque ela não tem leite, olhe como Desdêmona está magra, está mostrando as costelas. Continuou a apertar as maminhas da gata com toda a pressa. Quando se inclinava, via-se-lhe O crânio liso, que palpitava como moleira de criancinha. A voz da irmã era suplicante: - Prudencinha, pare com isso por favor. Lembrou-se de outra coisa, largou a gata no chão, levantou-se de repente e foi para dentro, mancando, apressada. D. Tututa começou a se lamentar, havia dias que Prudencinha dava um trabalhão e nada havia a fazer. Tinha boa saúde, bom apetite, não fazia bobagens, mas estava vivendo assim, como uma criança. Suspirou e olhou a gruta onde Bernadette continuava de joelhos, a rezar Os hibiscos amarelos tinham pétalas dobradas e cheias como se fossem de musselina. A paz no jardim era perfeita. Uma sinêta tocou chamando para O café. Levantamo-nos para entrar quando vimos D. Prudencinha vir de um dos quartos, um travesseiro pequeno nos braços, a blusa desabotoada como se estivesse dando de mamar. D. Tututa levantou as mãos assustada, foi levar a irmã ao quarto, abotoar-lhe a roupa, prender-lhe novamente os cabelos raros na moleira que palpitava. Ouvimos-lhe a voz aconselhando, acalmando a loucura senil de D. Prudencinha. Minha amiga sussurrou-me encostando O indicador na testa: - Está pior, cada vez pior. E não morre, a danada. Desde aquela pneumonia, é essa fortaleza que está se vendo. Na sala de jantar da Pensão, as velhas já estavam sentadas, tomando café. Os olhos de D. Prudencinha percorreram com gula os pratos de bolo, geléia e torradas. D. Tututa prendeu-lhe um guardanapo à volta do pescoço, deu um lacinho, falou, fique quietinha. Pacientemente, foi pondo-lhe na boca tudo O que ela queria. "Dou café com leite, bolo, tudo O que quiser, mas fique quietinha." A língua rosada se espichava para receber os alimentos. De repente parou de mastigar, olhou à volta e falou pondo a mão esquerda no estômago: - Todas as vezes que verto as águas, sinto um calor no corpo... Olhou a irmã, continuou: - Estou abrasada. D. Tututa assustou-se, olhou O chão sob a mesa - Prudencinha, você quer alguma coisa? Se quiser, fale. Fêz menção de levantar-se, mas D. Prudencinha fêz sinal que não era nada e continuou a mastigar os olhinhos vivos nos pratos da mesa. Nas outras mesas, as velhas já haviam terminado de comer, empurravam as cadeiras e deixavam a sala sumindo-se no corredor. D. Prudencinha mastigava ainda, cheirando a urina. No bonde que nos transportava, D. Genu que sabia agora as vidas dos Santos, foi falando sobre São Francisco. O "poverello" de Assis chamava todos os bichos de irmãos e um dia também disse: "Bendita sejas, ó Morte, minha irmã." - Se D. Tututa morrer, quem há de ter paciência com aquela coitada? Comendo daquele jeito e fazendo pipi nos corredores Compreendo perfeitamente porque São Francisco falou assim, rematou minha amiga. O panorama da guerra foi se modificando. Bem me dissera um dia Carlos nos seus vinte anos já experientes: "Mamãe, repare, ninguém domina pela Força durante muito tempo. Se domina é transitório. Aqueles que querem viver pela Força, caem vencidos mais cedo ou mais tarde." Uma vez por semana, eu passava no escritório da Cruz Vermelha. Fingia distração dissimulava, escondia sentimentos. Passava pela Praça da Sé e pela Rua Direita, devagar, lendo nomes. CASA INFANTIL. LUXO DE PARIS. MEDICINA VEGETAL. CASIMIRAS. Via às vezes D. Leia. - Eu ia passando mesmo por aqui, entrei para ver se há algum telegrama... Ela sorria confiante, transmitia esperança: - Ainda não, senhora, quem sabe na semana que vem. Passe por aqui outra vez. Criatura de coração, de sentimento, me compreendia tão bem. Passe por aqui outra vez. Imagine que bondade. Eu voltava novamente para tomar O 14 - Lins de Vasconcelos. AZEITE... GORDURA DE... RESTAURANTE.. TRIÂNGULO... CAFÉ S. PAULO... SEGUROS DE VIDA... APERITIVOS... Já conhecia todos os anúncios e letreiros. Por mais que Felício ganhasse era pouco, não dava, a vida cara, sempre cara. Quis que Sílvia deixasse os estudos de piano, falou em mandar O piano de volta. Encontrei a. menina uma noite tocando Pour Élise e chorando, estava se despedindo. Escrevi novamente para Julinho, expliquei pedi dinheiro para os estudos, Sílvia não podia deixar de tocar Julinho mandou, O piano continuou. Música à noite. Música todas as tardes. Felício ficava horas inteiras sentado sozinho no terraço, fumando. Suspirava fundo. Charutos que D. Augusta dava de presente. Ela ficara um pouco de lado depois da invasão; com O correr dos dias, voltara de novo, se insinuara, fincara pé na casa, resoluta. E quando êle tomava vinho ao jantar falava na infância, oh que infância. O pai e ã mãe brigavam aos socos e tapas, aos berros e ao arrancar de cabelos, êle, pequeno e magro em defesa da mãe: "Não bata, não bata por favor." O pai ouvia? Era esmurrado na luta, seu rosto sardento ficava cheio de sangue. Um dia a mãe desapareceu, disseram-lhe que estava no hospital onde êle foi visitá-la algumas vezes. Via a mãe com a cabeça enrolada, O rosto inchado, sofrendo. Não viu mais O pai, nem achou-lhe falta, culpava-o de todas as dores por que passava. Ficou em casa de uma tia áspera que usava óculos escuros, cheirava a terebentina e dizia-lhe todos os domingos ao voltar da missa: "Por que você se chama Felício? Felício vem de felicidade..." Êle não compreendia, tinha medo do mistério. A tia fazia-lhe O prato ao almoço e ao jantar; por mais fome que sentisse, não ousava repetir porque a tia dizia ao preparar-lhe O prato: "Você é como sua mãe, come como um passarinho." A tia repetia os pratos, gostava do arroz que ficava no fundo da panela, meio queimado; raspava tudo,. dizia que gostava assim, comia com gosto. Êle ficava olhando louco de fome. "Sua mãe comia tão pouco, não tinha apetite, era assim como você, magra e pálida." Um dia vestiram-no de escuro, puseram-lhe um lenço preto no paletó, levaram-no para O hospital, onde viu a mãe pela última vez num caixão cheio de dourados. Voltou para casa em soluços, tropeçando, cheio de fome e fraqueza, a tia atrás dizendo-lhe: "Não sei porque seu nome é Felício. Felício vem de felicidade..." "Hoje não é domingo", pensou em suas atribulações. Cresceu faminto e sardento ao lado da tia áspera que falava pouco e cheirava a terebentina. Empregou-se em um armazém onde era entregador. Quando fêz dezoito anos, a tia morreu e deixou-lhe algum dinheiro e a casa. Perdeu a casa e O dinheiro em pouco tempo, gastou a liberdade, que nunca tivera, em comer e beber à farta. Voltou a trabalhar arduamente e casou-se aos vinte e dois anos, e não foi feliz. O segundo casamento era aquilo que se via. Ninguém O compreendia, nem explicava a razão de certos atos. Amava os filhos e era capaz de passar fome para que eles não a sofressem, mas batia-lhes sem piedade quando se zangava. Dizia-se infeliz e que um dia se mataria, queixava-se de incompreensão à sua volta. Para ser-lhe agradável, Isabel fazia-lhe O prato predileto aos domingos; se êle apreciava, ela tornava a fazer e êle empurrava-o, aborrecido. - Mas se você gostou tanto, Felício. Não comia, zangava-se por ninharias. Quando falava na guerra com bombardeios destruidores, dizia que não era guerra.- As verdadeiras eram as antigas, quando os inimigos se encontravam frente a frente no campo de batalha. Que espetáculo belíssimo um encontro de cavalaria sobre uma colina, O soldado sentir seu sabre penetrar no corpo do inimigo, sentir a lâmina quebrar-se no peito do adversário. Essa era guerra limpa e honesta, tinha sua graça, sua poesia. Era admirável. Mas as guerras modernas com aviões de bombardeio destruindo cidades, jardins, crianças, era absurdo. Era traição. Brutalidades. Um corpo a corpo no campo de batalha, ver O inimigo tombar morto, era bonito, era lindo. As guerras modernas de traições, covardias, espiões, bombas? Uff. Achavam correto Fazia ar de pouco caso, de nojo. Tio Damião chegava todos os sábados, a rabeca debaixo do braço. Tocava Bach, torcia cravelhas, tocava outra vez. Os sons agudos enchiam a casa, tio Damião sorria, O arco acariciava as cordas. O tempo se arrastava, decerto porque eu sabia que Alfredo havia de voltar um dia. A vida continuava cheia de trabalhos, nada mudara em casa, O tempo não passava. Antigamente, êle corria, e corria-se para acompanhá-lo. Quando se pensava que eram dez horas, eram onze, dera um salto sem ninguém perceber. Agora, não andava. Eu ficava no terracinho esperando O carteiro; vinha O moço da tinturaria, O entregador de contas, O homem da água O da prestação dos ternos dos meninos, todos menos O carteiro. Eu correndo atrás do tempo como dentro de um nevoeiro sem saber O que estava adiante. Não foi encontrado, mas quer dizer que vive, se tivesse morrido eles saberiam, todos saberiam. A morte é uma coisa que todo mundo sabe logo, quase que adivinha, vem no ar, tem pressa de chegar. Há muitos anos em Itapetininga, quando D. Carola me disse - boa noite - pensei: "Minha mãe morreu." Morrera mesmo. A morte está na voz, no olhar, na boca, no gesto dos vivos; não precisa perguntar, a gente adivinha quando ela chegou, às vezes só pelo olhar. Vem sempre sem avisar, gosta de fazer surpresa, a miserável. E O exército norte-americano não havia de saber, se êle tivesse morrido? Exército organizado estava ali, D. Genu sabia. O tempo foi como que parando. Ficou preguiçoso, se arrastava. Às vezes a esperança tomava vulto em mim, enchia meu peito, encorpava. Eu então ficava firme, andar decidido pisava duro; espiava para ver O que estava adiante, inclinava O corpo para ver melhor, sentia-me vitoriosa, de cabeça erguida. Falava forte, é isso mesmo, sei muito bem O que estou falando, ora como não? Tinha certeza do que afirmava, gostava de ter certeza, queria discutir, pigarreava com barulho, então não hei de saber? Ora esta. Mas quando O tempo foi quase parando, andando tão devagar que afligia, não vinha telegrama, nem carta, nem notícia, ah, perdi a empáfia, fui murchando, encolhendo os ombros, ficando pequenininha, humilde, corcunda. A. guerra não acabava, contavam da invasão, mortes sem conta, destroços. A Europa morrendo, agonizando, não ia restar nada, só chão e pedras. Toda a gente morria, Alfredo não estaria entre os que morriam? Aquele valente Alfredo que combatia pela Liberdade? Fui ficando encolhida, a tiritar apesar do calor, esperando a Cruz Vermelha me chamar outra vez, para dizer O quê? Sentia um suor frio nas mãos, nas costas, acordava de noite ouvindo gritos, acordava Sílvia: "Você gritou, Sílvia?" Ela não gritara, não ouvira nada, dormia outra vez. A insônia me ditava frases, frases sem fim; desenhadas nas paredes do quarto, pairando no ar, flutuando na minha cabeça: "Por que você se chama Felício? Felício vem de felicidade... "Bendita sejas, ó Morte, minha irmã." Via a rabeca de lata "Gargoyle Mobilou" nos braços de tio Damião, O arco arranhava as tripas e a música era como as de Bach, e os versos que estava escrevendo para a chegada de Alfredo: "Ó Alfredo não se embarque Que no mar está ventando, As folhas do patieiro Já estão se arrequebrando." E na minha insônia, via tio Damião rindo e se inclinando para mim: "É para que Alfredo nunca mais se lembre de viajar outra vez." Sílvia continuava a tocar, a tocar. Tive O pressentimento de que ela ia crescer, crescer sem perceber aquela grandeza. Começou a estudar Chopin. Algum dia pude imaginar que minha neta tocaria essas músicas? - Sabe, vovó? Frederico Chopin compôs os Noturnos numa ilha da Itália; morava numa casa velha que tinha sido um mosteiro. Chovia dentro da casa tinha lagartixas nas paredes, tinha ratos nos cantos e naquela solidão êle compunha as músicas à luz de uma vela. Êle era tuberculoso e tossia, mas assim mesmo escreveu os Noturnos na casa velha com chuva caindo Quer ouvir? - Mas quem disse que tinha lagartixas nas paredes e ratos nos cantos? Ela sorriu, as mãos sobre O teclado, a voz maliciosa: - Ora vovó, quem não sabe disso? Num mosteiro tão velho devia ter essas coisas... Quando chegou a notícia de que a guerra havia terminado na Europa, Eduardo tinha posto calças compridas porque crescera muito e Lena estava começando a falar, a perguntar, a exigir isto e aquilo. "Vovó, faça bolinho pá mi. Um dia eu estava fazendo bolinhos e com as mãos grudentas de massa, quando recebi nova cartinha da Cruz Vermelha pedindo meu comparecimento no escritório. CINE SANTA HELENA - TACO DE OURO SEGUROS DE VIDA. O melhor sorriso de D. Leia foi quando leu para meus ouvidos O seguinte telegrama: "Informamos que seu filho Alfredo Abílio de Lemos está agora em Bushnell General Hospital Cruz Vermelha americana Brigham City Utah ponto Ferido no pé ou na perna ponto Boas condições ponto" zzz Capítulo XII Zzz Foi como se eu tivesse caminhado durante oito anos ao encontro do meu filho. Como se êle tivesse morrido. Imaginei-o morto no mar desde O princípio da guerra; vi-o nos meus sonhos se debatendo entre ondas pesadas e negras e senti que seu último pensamento foi para mim. Ouvi sua voz chamando: Mamãe. Quatro longos anos sem notícias e sem cartas, foi como se os sinos já tivessem repicado pela sua morte. Como se eu tivesse galgado montanhas; depois dessa longa caminhada, senti os pés cansados e O corpo dolorido. Foi como se eu tivesse caminhado durante oito anos Alcancei O cimo da montanha, olhei à minha volta até onde a vista alcançava, e vi no vale em baixo, ruínas, destroços de guerra e corpos mutilados Senti então como O Anatólio de tio Damião, que minhas idéias são velhas como O pensamento, velhas como O mundo Senti que a terra, as flores, O vento, O sol e tudo que me rodeia, carregam séculos de idade. Sentada perto da janela do meu quarto, O "Manual do Bom Cristão" no colo, não tenho coragem para abri-lo. Sei que numa das páginas, está escrito: "Bem-aventurados os que esperarem..." E eu esperei. Durante muito tempo, O único assunto era a volta de Alfredo, e quando dois meses depois, ouvi a voz do carteiro na porta da sala, estremeci sem compreender porque. Minutos se passaram, que a mim pareceram horas, antes que Isabel viesse ao meu quarto mostrar O cartão de Julinho Ela estava com O rosto transfigurado de emoção e mal pôde falar: - Mamãe, mamãe, sabe O que Julinho manda dizer? Minha Nossa Senhora, Alfredo chegou ao Rio. Chegou ao Rio, mamãe, chegou. Se um vento zunisse através da casa e batesse todas as portas, não faria tanto estrondo, e ao mesmo tempo tudo estava calmo ao meu redor, como todos os dias. Muito bem, preciso ser forte. Não tenho sido sempre forte? Vamos ver O que devo fazer. Preciso ter calma. Tomei O cartão e li; em palavras lacônicas Julinho contava que Alfredo chegara, estava bem apesar da magreza, viria logo a S. Paulo. Fossem me prevenindo aos poucos para recebê-lo. - Prevenir O quê? gritei Prevenir por quê? Então não tenho passado momentos piores? Por que esses cuidados comigo? Firmei a voz, encarei todos, joguei os ombros para trás, fiquei corajosa. Prevenir O que, por que Alfredo não veio diretamente? O que ficou fazendo no Rio? Acha que oito anos não são bastante? Ora esta. Isabel, Carlos, vão passar um telegrama para Julinho. Não, Eduardo e Carlos é que devem ir; passem um telegrama assim "Alegria notícia chegada Alfredo. Venham imediatamente." Assim está bem, vão passar já, não sei por que não vieram para cá. Que coisa. Não consegui dormir. Na manhã seguinte, novas notícias, desta vez de Maria Laura. Dizia que Julinho acompanharia Alfredo até S. Paulo; Alfredo estava magro e fraco, mas estava bem. "Que se pode esperar de um homem que fêz a guerra e esteve prisioneiro?" Aos poucos percebi que os filhos iam me prevenindo; na última linha da carta, Maria Laura escreveu: "Êle sofreu muito." Por que não escreviam contando tudo de uma vez? Essa dúvida e essa espera eram angustiosas; Isabel fingia confiança: - Então O hospital norte-americano daria alta se êle não estivesse bom? Decerto está fraco, é natural, mas doente não está. Eu mordia os lábios, indecisa. Afinal resolvi: - Sabem de uma coisa? Vou para O Rio esta noite. Felício me aconselhou, eu devia esperar mais um pouco, dois dias, um dia, mas não seguisse. Isabel perguntou: Eles não chamaram a senhora. Chamaram? - E as mães esperam que os filhos chamem quando estão doentes? perguntei com olhos fuzilantes. Comecei a preparar a mala. E enquanto preparava e dobrava alguma roupa, veio-me um desânimo muito grande O que iria encontrar? Não seria melhor esperar? Parece que foi Santo Inácio que escreveu: "De um lado devemos empregar todos os meios ao nosso alcance como se nada dependesse de Deus; de outro lado, devemos rezar e confiar em Deus, como se nada dependesse de nós." Segui O conselho de Santo Inácio, confiei mais um dia; pensei em enfeitar a casa com flores; preparar O quarto dos meninos para Alfredo, fazer O prato que êle mais apreciava para O jantar; mas sentia-me como paralizada, sem fôrças, cansada. No terceiro dia estava sentada no meu quarto, na doce sonolência da velhice, desta velhice que enche meu coração de ternura por tudo que tem vida, e me faz ver através de uma beleza emocionante, desde as flores mais singelas até O gato de tio Damião que se chama "Amílcar" porque Anatólio teve um gato com esse nome. Tenho mais de sessenta anos, vividos no trabalho e no amor da família. Nunca ambicionei além do que podia ambicionar, mas fiz de um sonho, O ideal da minha vida e peço a Deus que O realize. Há oito anos caminho para êsse sonho, e creio que desta vez Deus me ouviu. Que me leve depois, não importa. Esta calma sonolência não é apenas da velhice, é também do calor desta tarde ensolarada, e das noites que passei sem dormir. Novamente pensei em Alfredo. Voltei-me ura pouco para olhar seu retrato sobre a cômoda do quarto; lá estava êle belo e forte a olhar-me tranqüilo. Sacudi a cabeça para confirmar a mim mesma que este foi O mais belo dos meus filhos. Vi Sílvia espiar-me pela porta entreaberta, ia pedir que tocasse um pouco de piano, aquela música chamada Tristesse. Ela me perguntara se eu sabia O que queria dizer essa palavra, os netos gostam de ensinar os avós, e como eu dissesse que não sabia, explicara: - Tristeza, vovó. Quer dizer tristeza. Ouvi passos que se aproximavam e me lembrei que decerto alguém viria perturbar meu calmo repouso. Um velho de cabelos grisalhos, O rosto magro marcado por muitas doenças, entrou no meu quarto; tinha os olhos vermelhos e as pálpebras queimadas, a mão esquerda envolvida em pano branco assim com a testa e um lado da cabeça; mancava apoiado a uma bengala e eu pensei: "Quem será este velho?" A expressão do seu rosto não me era estranha, mas de onde eu O conhecia? De onde? Levantei-me um pouco aturdida e abri bem os olhos para me lembrar, quando ouvi soluços e O rosto branco de Julinho no vão da porta O velho abriu-me os braços, então eu compreendi. Ali eslava O homem que lutara em nome da Liberdade E no mundo todo, muitos homens continuavam escravos. Dos Regimes e das Ambições Estendi também os braços: - Alfredo. Fomos depois para a sala, onde ficamos sentados muito tesos, enxugando lágrimas. Passada a primeira emoção, ninguém sabia O que conversar; O rosto de Alfredo estava tão deprimido e infeliz que tínhamos receio de fazer perguntas. Sobre seu peito, pregada na farda, havia uma medalha; começamos a falar quase ao mesmo tempo, fingindo alegria, forçando entusiasmo: - Que medalha é essa? Do exército americano? Julinho foi O primeiro a acalmar-se; ficou de pé e com as mãos nos bolsos, contou da surpresa que sentiu ao ver O irmão de repente aparecer em casa; pouco se dirigia a Alfredo, tinha também receio. - Que medalha é essa? tornei a perguntar para vê-lo falar. Explicou que a recebera por atos de bravura, na Austrália. Ficamos admirados olhando a medalha, procurando ler O que estava escrito. Julinho disse: "Sim senhor, seu Alfredo. Bravos." Lembrei-me de súbito que O jantar estava tão fraco esse dia, por que Julinho não telegrafara? Não avisara a chegada? Julinho protestou, avisamos, passamos telegrama, não foi, Alfredo? Como não havíamos de passar? Isabel mostrava Lena ao irmão, perguntava se não eram parecidas? Fui à cozinha fazer café, os três irmãos saíram para dar uma volta pelo jardim, Alfredo entre os dois, sempre apoiado na bengala, seguidos pela criançada aturdida. Então chamei depressa os meninos, mandei-os ao empório comprar qualquer coisa para O jantar; por causa dos raciona mentos não havia carne, nem leite esse dia. O sono desapareceu, voltou a energia, fiquei lidando com as panelas numa afobação andando para cá, para lá, coando café, pensando nos pratos que êle mais gostava, espiando através da vidraça os três parados em frente ao canteiro de margaridas Para O jantar, havia apenas polenta com feijão e verdura da horta; fiquei aflita, gritei: - O que estão esperando? Vão comprar alguma coisa... - Há que tempo eles já foram, vovó. - E você? Por que não vai colher flores para enfeitar a casa? Depressa, ponha flores em todos os vasos, na mesa do jantar também. Sílvia saiu numa corridinha, Eduardo e Carlos voltaram quase sem fôlego, trouxeram uma lata de sardinhas e um pedaço de lingüiça. O armazém de nossa rua não tinha muito recursos, Carlos disse que a lingüiça tinha um metro. - E você acha que um metro de linguiça da para todos de casa comerem? Ora esta, é só uma lata de sardinha. Não havia mais, trouxeram O último pedaço, O homem do empório disse que ia receber só no dia seguinte. Está bem. Está bem. Comecei a preparar O jantar. Alfredo devia ter fome. Entraram na cozinha onde tomaram café de pé, ainda constrangidos. Julinho disse que precisava ir para O Rio essa noite, prometera à mulher, voltaria na semana seguinte com mais vagar. Bateu no ombro do irmão: - Até a semana que vem, meu velho. Agora com os cuidados de mamãe você ficará completamente bom. Até breve. Alfredo continuava com O rosto triste, esforçando-se por prestar atenção no que falavam; perguntava os nomes das crianças, tornava a esquecer, desinteressado. Preparei O jantar, fiz salada de frutas, pensei no "Paciência. Meios para adquiri-la". Felício chegou atrasado, queixando-se dos ônibus, deu com Alfredo sentado num canto da cozinha, sob a luz amortecida da lâmpada, olhando as gaiolas dos pintassilgos. Fêz exclamações, abraçou O cunhado, bateu-lhe amigavelmente no ombro, chamou-o de herói. "Afinal você é um herói." Abriu vinho, fêz saúde, procurou conversar, fingir alegria, entusiasmo. O jantar foi pobre, todos desapontados por causa da pobreza. Isabel e eu esforçávamo-nos para tornar O ambiente alegre: - Lembra-se, Alfredo, daquela vez que você escondeu O boletim em baixo do colchão para mamãe não ver Lembra-se de como você gostava de jogar futebol? E da bicicleta de Carlos? Os meninos olhavam para as pálpebras queimadas e para as mãos de Alfredo; eu fazia sinais: "finjam que não. Vêem, não olhem assim". Lembramos pessoas amigas, fatos da época "Alfredo, você se lembra de D. Genu?" Apesar cios esforços, O ambiente continuava sombrio; faltou um bom jantar e O desejo de esquecer a guerra ela estava ali imperiosa e dominante na febre, na boca murcha, nos cabelos grisalhos, na perna doente, na mão enfaixada. Êle não era mais que uma sombra. Meu pobre idealista Felício perguntou pela medalha; Alfredo tornou a explicar; novas batidinhas no ombro, novamente herói. Trocaram cigarros, fumaram. Alfredo quase não comeu, apenas provou os alimentos; há meses estava assim, sem apetite; só queria fumar e beber. Bateram no portãozinho, era um menino com O telegrama: "Seguiremos hoje. Abraços Alfredo. Julinho." Li duas, três vezes; mesmo que eu tivesse preparado um banquete, êle não teria apetite. Êle não queria nada, nada. Insistiram que êle devia dormir cedo, ainda estava fraco, fosse para O quarto, iríamos conversar lá. Foi para O quarto dos meninos; Felício e Isabel prepararam tudo num instante, os meninos dormiriam na sala. O vento começou a soprar fortemente e a tempestade que havia ameaçado cair durante toda a tarde, veio como um tufão. O ar tornou-se mais quente, quase irrespirável. Fiquei ao lado de Alfredo e, enxuguei-lhe O suor do rosto com uma toalha molhada; perguntei-lhe de que modo poderia tratar-lhe a perna e aliviar-lhe O sofrimento. Êle disse que estava bem, não sentia dor, nem sofria. Entraram todos para ouvi-lo contar como fora ferido e caíra prisioneiro. Não sabia como escapara com vida depois de tanto sofrimento, devia ter morrido. O navio em que navegava foi bombardeado uma noite nas costas do Japão. Êle e alguns americanos foram aprisionados e levados para uma cidade onde havia um hospital chamado Shangai General Hospital. Ficou hospitalizado porque fora ferido na perna e O ferimento era grave. Logo que teve uma ligeira melhora, foi transportado para a prisão de Kiangwan, nos arredores da cidade; ficou três meses nessa prisão antes de seguir pari uru campo de concentração. Fazia muito frio quando foi para Kiangwan, cada cela era feita para vinte prisioneiros, mas eram muito mais, nunca menos de cinqüenta, apertados noite e dia. Combinaram e dormiam em turnos, enquanto uns ficavam de pé. Sofreram fome, frio, sede e imundície; passaram três meses sem fazer barba e sem tomar banho. Proibidos de falar, sem ter nada para ler, nem se ocupar esperavam qualquer coisa que os fosse libertar, mesmo a morte seria bem recebida. Quando se cansavam de ficar de pé, acocoravam-se e outro grupo se levantava para sobrar espaço: americanos, chineses, coreanos e alguns japoneses que não recebiam melhor tratamento pelo fato de serem compatriotas. Pelo contrário, eram espancados por desobediência e um deles morreu dos ferimentos, sem assistência médica. Levaram O cadáver como quem leva um saco de estrume; dobrado num carrinho de mão, desses que os jardineiros usam para adubar a terra. O mau cheiro e a imundície eram intoleráveis na cela; num canto havia um buraco no chão que servia de privada, à vista de todos. Havia duas mulheres chinesas na mesma cela e de vez em quando eram chamadas para interrogatório. Voltavam em estado miserável, assim como os americanos e Alfredo que um dia foi espancado e perdeu os dentes porque não sabia quantos aviões a Marinha norte-americana possuía no Pacífico. Passavam as horas matando piolhos, era proibido falar; mas os chineses cochichavam e pagavam duramente pela desobediência. O beribéri e a desinteria eram comuns entre os prisioneiros, assim como as doenças venéreas que eram tratadas pelos médicos japoneses na própria cela diante de todos. De manhã serviam sopa de arroz quente, às vezes com cabeças de arenques podres; à noite, O mesmo arroz porém frio, intragável; só os coreanos e chineses podiam comer Quando O frio era intenso, serviam uma tigela de chá. Alguns começaram a sofrer de gangrena nos pés devido à imobilidade; e quando ficavam muitas horas de cócoras e depois eram chamados para interrogatório, eram arrastados pelos guardas, não podiam caminhar. O que mais os atormentava era a sede. Três meses depois dessa tortura, foram transaportados para a estação da estrada de ferro e tomaram o trem em que os levaria para campo de concentração. Tomou uma xícara de chá antes de continuar e pedimos-lhe para deixar a história para O dia seguinte. Mas ele não quis, parece que também tinha sede de desabafo Contar O que foi essa viagem, três dias e três noites viajando no escuro sem nada para comer e principalmente para beber. Apertados como gado no vagão, sem poder se mover ouvindo as lamentações dos mais fracos, os queixumes, os soluços. Quando O trem parava nas estações e os prisioneiros ouviam O som da água que entrava em borbotões nas maquinas, imploravam água em várias línguas para ver se uma delas tocava O coração dos bárbaros. "Água pelo amor de Deus, suspirou Alfredo a boca seca, Mas quem era Deus? Os oficiais japoneses riam-se e nem uma gota foi-lhes dada durante a viagem. No fim do terceiro dia desceram numa pequena estação perdida num campo lúgubre um batalhão composto de vinte soldados e um oficial esperava os prisioneiros, de carabina embalada. Desceram cambaleando, os gangrenosos e os doentes apoiados nos companheiros; assim tiveram que marchar a noite toda a pe até chegar ao campo de concentração, onde teriam de ficar bem dizer palavra, ameaçados por todos os lados, caminharam atras dos archotes que iluminavam a estrada cheia de pedras. Quatro ficaram no caminho, inclusive as duas mulheres; um deles, um coreano que vinha sofrendo de beriberi.e tinha convulções, caiu de repente de bruços, sem um ai na frente de Alfredo. Seu rosto bateu na pedra da estrada e O som da batida foi O único sinal de que ele ficara no caminho Quando a madrugada, uma madrugada cinzenta, veio surgindo por trás das montanhas que fechavam O horizonte, um cão saiu latindo do portão de uma fazenda. O oficial que ia na frente com a espada desembainhada, decepou de um golpe as duas patas dianteiras do cãozinho e enquanto O animal rolava de dor, todo O batalhão de guardas ria às gargalhadas. No campo de concentração onde já havia centenas de prisioneiros magros e famintos, os recém-chegados conseguiram tomar banho, beber água e fazer a barba depois de três meses de reclusão em Kiangwan. Esse ano no campo dava para escrever um livro com sofrimento, lágrimas e sangue dos prisioneiros; nunca Alfredo vira tanta dor e tanta miséria e sua perna ameaçada de gangrena era apenas um detalhe entre milhares de outras chagas e outras pernas e carnes mutiladas. Alguns companheiros suicidaram-se uns enforcaram-se, outros cortaram os pulsos com canivetes roubados. No fim da guerra, quando veio a libertação, todos os prisioneiros foram levados em aviões para os Estados Unidos; Alfredo chegou ao hospital de Utah, e apesar das dores e de estar ameaçado de perder a perna, sentiu grande alívio. Depois ficou inconsciente durante meses, apático, desejando morrer, pensando no que sofrera e no que vira sofrer. Quando soube que a Cruz Vermelha p estava procurando, lembrou-se de repente dos parentes,. do Brasil, e sentiu renascer uma leve esperança de vida a aquecer-lhe O peito. Foi quando teve alta e soube de um vapor que partia F para a América do Sul; resolveu embarcar e procurar a mãe, os irmãos. Ao chegar ao Rio, lembrou-se de Julinho e de Fagundes Vaz e Cia. Limitada. Era firma conhecida e ele não esquecera. Seu cérebro repetia: Fagundes Vaz e Cia., tinha medo de não lembrar Quando Isabel perguntou porque não escrevera, fêz um gesto indiferente. Vivia a pensar na morte, lembrava ' da família sempre, mas sabia que estava longe, talvez nunca mais a visse, não sabia explicar porquê. - Não entendo. Tinha a testa quente. Êle precisa de descanso, disse ; Felício levantando-se. Convidou todos a se retirarem os meninos deviam dormir na sala, Alfredo tinha direito a descanso completo, O quarto só para êle. Perguntei-lhe se queria água ou café ou chá. Sentado na cama, olhou-me algum tempo como quem faz um esforço de memória, depois perguntou estendendo-me O braço - Então, D. Lola? Todas as lágrimas que eu guardava durante anos brotaram-me dos olhos e rolaram queimando-me as faces. Só pude repetir: - Meu filhinho, meu querido filhinho... Sentei-me aos pés da cama e cobri O rosto com as mãos. Pediu " - Ora mamãe, não chore. Afinal estou aqui, não estou? Em vista do meu pranto, insistiu mansamente: - Não estou aqui? Hein mamãe? - Sim, meu filho. Felizmente você voltou. Sim, êle estava ali perto, ao alcance de minha mão, seria êle mesmo? Bem Julinho dissera que os olhos eram os mesmos. Os olhos.. Estavam secos, parados, como se tivessem febre. Lembrei-me da noite em que se despediu de mim sufocando soluços, debruçado sobre O muro. Naquele tempo êle chorava. Agora me olhava estranhamente, um pouco admirado, envelhecido, quase irreconhecível. Repetiu: - Afinal estou aqui, não estou? Pediu água; dei-lhe um copo de água e desejei-lhe um bom descanso. Fui para meu quarto e ouvi os primeiros pássaros a cantarem na ameixeira. Por que os homens faziam guerras? Choveu a noite toda, há muito tempo eu não via tempestade tão forte. Vento e chuva. Por que os homens fazem as guerras? A partir daí, Alfredo não voltou a falar cm guerra, nem contou outros episódios dos seus anos de ausência. Estava ali diante de mim. Era Alfredo e não era; não sei O que se passara; talvez porque sofrera e envelhecera, mudara tanto. O olhar, as mãos, O modo de falar eram de Alfredo, mas O riso, a boca, O andar não eram dele. Apoiava-se a uma bengala que Julinho lhe dera no Rio, andava pela casa estranhamente, não parecia O mesmo de antes, ágil e bonito. Já não era O mesmo. Só quando estava distraído sentado ao sol do jardim, O olhar perdido, suave e tranqüilo, eu me lembrava nitidamente do meu menino que havia partido há tantos anos. De quando êle me batia no ombro e dizia meu nome, de quando conversava comigo enquanto eu trabalhava: "Olhe, mamãe, quando eu for rico..." E depois daquela outra vez que viera de longe somente para me ver e me abraçar, e fumara cachimbo, e contara histórias de marinheiro, e quase me levantara nos braços ao se despedir, esse era O meu Alfredo. Mas este aqui, indiferente e mudo, que me olha e não sorri, que ouve piano muito quietamente, que nunca diz se gostou ou não gostou, não sei quem será. Na primeira semana contou fatos de guerra contou como as crianças japonesas começavam O preparo militar desde que entravam para a escola aos seis anos de idade, contou que aos quinze anos, todos os meninos tomam parte nas grandes manobras de inverno, tão pesadas que qualquer outra criança não suportaria. Contou que os soldados japoneses tinham marchas forçadas diariamente, nunca menos de quarenta e cinco quilômetros, tendo como alimento apenas um punhado de arroz. E que eram os soldados mais resistentes do mundo, e também os mais perigosos. Depois de uma semana em que parecia estar melhor, Alfredo disse tapando os olhos que não queria mais se lembrar da guerra. - É tão horrível, não quero lembrar, não quero falar. Vi-lhe a boca crispada, O olhar endurecido. Não quero lembrar. Ninguém quer que você fale, meu filho. Ninguém quer, esqueça. Estava ali diante de mim. Era Alfredo e não era; não sei O que se passara; talvez porque sofrera e envelhecera, mudara tanto. O olhar, as mãos, O modo de falar eram de Alfredo, mas O riso, a boca, O andar não eram dele. Apoiava-se a uma bengala que Julinho lhe dera no Rio, andava pela casa estranhamente, não parecia O mesmo de antes, ágil e bonito. Já não era ò mesmo. Só quando estava distraído, sentado ao sol do jardim, O olhar perdido, suave e tranqüilo, eu me lembrava nitidamente do meu menino que havia partido há tantos anos. De quando êle me batia no ombro e dizia meu nome, de quando conversava comigo enquanto eu trabalhava: "Olhe, mamãe, quando eu for rico..." E depois daquela outra vez que viera de longe somente para me ver e me abraçar, e fumara cachimbo, e contara histórias de marinheiro, e quase me levantara nos braços ao se despedir, esse era O meu Alfredo. Mas este aqui, indiferente e mudo, que me olha e não sorri, que ouve piano muito quietamente, que nunca diz se gostou ou não gostou, não sei quem será. Na primeira semana contou fatos de guerra; contou como as crianças japonêsas começavam O preparo militar desde que entravam para a escola aos seis anos de idade, contou que aos quinze anos, todos os meninos tomam parte nas grandes manobras de inverno, tão pesadas que qualquer outra criança não suportaria. Contou que os soldados japoneses tinham mar chás forçadas diariamente, nunca menos de quarenta e cinco quilômetros, tendo como alimento apenas um punhado de arroz. E que eram os soldados mais resistentes do mundo, e também os mais perigosos. Depois de uma semana em que parecia estar melhor, Alfredo disse tapando os olhos que não queria mais se lembrar da guerra. - É tão horrível, não quero lembrar, não quero falar. Vi-lhe a boca crispada, O olhar endurecido. Não quero lembrar. - Ninguém quer que você fale, meu filho. Ninguém quer, esqueça. Algumas noites, eu ouvia-lhe a voz, altas horas; abria a porta do quarto, escutava, perguntava: - Alfredo, quer alguma coisa? Dormia de qualquer jeito, nunca fechava a porta, os lençóis no chão, sem travesseiro. Apoiava a cabeça no braço dobrado gemia durante O sono, gritava com voz rouca. Eu acendia a luz e êle sentava-se na cama e me encarava como se não me tivesse reconhecido. A voz vinha do fundo do peito torturada: - Que é? - Ouvi sua voz, pensei que quisesse alguma coisa. Quer água? - Não, não, não. Deitava-se de costas e punha-se a olhar O teto como se não percebesse minha presença. Eu voltava para O quarto e ficava escutando. Durante O dia quando lembrávamos de quando êle era criança e queria me auxiliar, ria-se e seu riso era suave, tinha a mesma doçura do riso do meu filho. Depois tornava-se de novo O homem torturado e infeliz. Tio Damião veio com a rabeca Gargoyle Mobilou. As crianças liam enquanto êle afinava: "É um óleo de côr rubi, da mais alta qualidade." Fêz versinhos caipiras para distrair Alfredo. Tocou depois as próprias composições, contou que eram como as músicas de Bach, queria saber O que Alfredo preferia ouvir. Alfredo sempre calado, não fêz comentários e mal ouviu O que tio Damião perguntou. Calmamente, tio Damião guardou a rabeca, disse que voltaria outro dia, O rapaz estava muito desanimado, muito triste. Havia de melhorar, como não Despediu-se e saiu com O violino sob O braço, nas pontas dos pés, como se um doente grave estivesse na sala. Alfredo apenas disse, mal-humorado: - Velho cacete. Comprei camisas, gravatas, roupa branca; Julinho man dou do Ri" uma roupa nova. Lembrei-me de todos os pratos da preferência de Alfredo e comecei a prepará-los um por um. Comecei com cocada queimada; fui à casa de D. Genu pedir açúcar emprestado. Ela me abraçou comovida que felicidade, logo iria fazer uma visita, começou a se lembrar de tanta coisa, amizade antiga, de quanto tempo? Despedi-me com pressa, que fosse logo em casa ver Alfredo, mas não reparasse, não falasse em guerra, êle estava meio esqui sito, mas gostava dos velhos amigos, como não? Ficaria tão contente em vêla, já havíamos falado nela. Fosse logo, mas não reparasse. Pois não, pois não. Fiz a cocada em segredo, levei O prato ao quintal onde êle ficava, a perna estendida na grama. - A senhora não e esquece disse-me com um sorriso. Comeu apenas três e eu que ficara ali para vê-lo comer até O último pedaço, desapontei Quando êle era pequeno, comia quinze, vinte cocadas de uma só vez. - Não é dessa cocada que você gostava? - É sim, por quê? Estava muito diferente. Seu rosto apresentava ainda uma coloração pálida e um rictus sofredor vincava-lhe os cantos da boca. Parecia sofrer e se alguém perguntava se sentia dor, dizia que não. Eu conversava, contava todos os fatos de que me lembrava, procurava prender-lhe a atenção, queria fazê-lo voltar, ter amor à sua cidade, ao seu país, queria que êle criasse raízes tão fundas que nem a saudade do mar, nem O amor às aventuras pudesse levá-lo novamente de mim. O sol do Brasil foi-lhe colorindo as faces, dando novo brilho aos seus olhos amortecidos. Engordou um pouco e O médico que veio vê-lo várias vezes disjse que a perna ficaria logo curada. Surpreendi-lhe a fisionomia animada. Redobrei de esforços, convidei-o para passar uns dias em Santos, em frente ao mar; disse que iria mais tarde, preferia ficar mais forte. Quando assim falava, seu olhar perdia-se passava além do horizonte, desaparecia no infinito. Um dia observou Isabel - Ela está bem mudada, não? As vezes saía de casa depois do almoço e só voltava tarde cheirando a vinho. Disse-lhe: - Meu filho, você não deve sair enquanto não sarar bem da perna. Respondeu que estava bom, continuou a sair; voltava pálido e cansado, sempre apoiado na bengala. Dizia que não encontrava os amigos, estava tudo diferente do tempo em que morava na Avenida Angélica. Eu fazia-lhe café e oferecia algum prato que guardava do jantar; a sós comigo na cozinha, às vezes até tarde, conversava mais intimamente, lembrávamos os velhos tempos. Eu observava-lhe O rosto enrugado, os olhos vermelhos e sempre piscando como se tivessem areia, a boca murcha, via aquela criatura que eu conhecera tão vibrante de vida e que não era agora senão uma ruína. Um homem torturado de corpo e alma. Enquanto conversávamos, nunca perguntei O que pretendia fazer no futuro; apesar do sofrimento, havia ainda um futuro. Nunca me falou se partiria de novo e só em pensar nisso um suor frio escorria-me pelas costas. Juntos tomávamos cerveja, que êle apreciava muito. Se em conversa falava num prato que gostara em criança, eu preparava-o no dia seguinte, mesmo com sacrifício. Queria que êle tivesse tudo, nada lhe faltasse. Êle perguntava: - Mais um pouco de cerveja? Eu dizia que não, já tomara, obrigada. Mas êle insistia, ora por que não? Para me fazer companhia, só um pouco mais... Eu aceitava. Êle enchia novamente meu copo e ficávamos olhando a espuma quase a transbordar; enchia O dele, também, depois bebíamos lentamente e conversávamos sob a lâmpada morrediça da cozinha, diante do fogão apagado, até êle ter sono e ir para O quarto. Como dois velhos amigos a recordar. Nessas madrugadas de intimidade, às vezes três da manhã, eu tinha vontade de implorar: "Alfredo meu filho vamos falar um pouco sobre o que você deseja fazer. Já esta quase bom da perna, qual é sua idéia? Pode-se arranjar uma boa colocação aqui em S. Paulo " Mas eu tinha tanto medo da resposta não podia imaginar seu pensamento Quando ficava sozinha, sofria. Na calma serenidade da velhice que curva meus ombros e põe cinzas nos meus cabelos, vejo tudo como é na verdade não atravez de sonhos e ilusão Sinto o âmago das coisas. Não pretendo conhecer as pessoas porque a natureza humana é tão profunda que não nos conhecemos a nos mesmos. Só Deus conhece e compreende sabe que não tenho ambições e minha alma não acalenta desejos vãos, Na mais crua adversidade ou na mais funda dor acreditei que mereci sofrer. O porquê não poderei jamais saber assim como vivemos e morremos na ignorância de fatos às vezes bem próximos de nós. Mas desde que Alfredo chegou, pressinto que partirá de novo. E desejo que me engane Veio carta de Itapetininga. Minhas irmãs queriam que o sobrinho herói passasse uns tempos com elas. Lembravam-se de Alfredo, um rapagão simpático. Meu Deus como podem ter a ilusão de que êle seja ainda um rapaz. Tive ímpetos de gritar: Ele está doente, emagrecido, veio da guerra. Não sabem O que é guerra?" Na vida pacata de interior, onde tudo era tranqüilo e lento, haviam se esquecido que o tempo deixa marcas, mesmo na juventude E Alfredo trouxera cicatrizes da guerra. Diante da carta fizeram um gesto indeciso, não tinham vontade de ir. Insistí só podia fazer bem. Fomos num sábado. Estavam na estação. Reclamavam abraços e se houve desilusões, ocultaram. Zeca explicou que a banda de música não fôra porque O herói era modesto; e que matara um boi para a volta do filho pródigo. Deram-lhe O quarto dos meninos, havia flores nas jarras, colcha de renda na cama O jantar foi lauto jantar da roça com lombo assado que representava O boi da Escritura. Tudo O que Alfredo mais gostava veio como sobremesa rocambole, cocada queimada, pudim de pão com passas. Êle sorria e agradecia; fazia esforço para suportar tudo para êle era difícil de suportar. Era só olhar; gotas de suor brotavam-lhe na testa, no pescoço. Mas seu andar claudicante seu rosto abatido, sua magreza atraíam simpatias, cuidados confortos especiais. A melhor poltrona era para ele por que não comia mais um pouco? O pudim Ofereciam, insistiam; êle aceitava com ar cansado, sorrindo e suando, insatisfeito. sofrerá Chamei a família de lado, contei O quanto ele sofrera não falassem em guerra, em prisão, por favor. Não podia imaginar O que êle sofrera, não se esquecessem. Clotilde levou a mão à boca: - Virgem Nossa Senhora, como ele mudou.. - Depois do que sofreu, você queria que ele estivesse a mesma coisa? Dançando e cantando? Ela tocou no meu ombro, humilde: _ É verdade, você tem razão. Pobre Na sala, rodeado por toda a família, Alfredo ouvia casos contados por Zeca, a fisionomia impassível mal algum de emoção, apenas O sorriso um pouco forçado. Clotilde queria agradai, veio do quarto, um retrato apagado nas mãos tirou O p6, sentimental, inclinou-se com solicitude; - Alfredo, você se lembra de mamãe? Olhe aqui um retratinho dela, sua vovó - Lembro, como não?., Olhou rapidamente, fingiu que olhou ah sim, vovó. Como não hei de lembrar? Pôs O retrato detonem e parou, cansadíssimo. Não queria lembrar. Já se havia se parado do passado há muito tempo. Para que lembrar? A pedido dos parentes Alfredo ficou em Itapetininga Voltei para São Paulo sozinha. Uma semana depois, Olga escreveu que êle continuava bem, mas muito indiferente Admirava-se porque Alfredo não gostava de visitas e no interior era difícil esquivar-se. Êle vivia se escondendo e na véspera partira para a fazenda do Manecão, mas já falava em voltar para S. Paulo. No dia seguinte, apareceu em casa de novo. Contou que era gente O dia todo a querer falar com êle, estava cansado. Zeca contara a sua vida a toda a cidade e na rua, era motivo de curiosidade, parecia palhaço de circo. E sempre a lhe perguntarem coisas da guerra. Não gostava. Coloquei O aparelho de rádio na cabeceira de sua cama, escolhi programas preferidos por êle, procurei livros, pedi emprestado a todas as pessoas conhecidas. "Por acaso tem algum livro para Alfredo ler? Algum romance ou quem sabe livros de viagem?" Trazia-lhe livros, enchia-lhe O quarto de pratinhos com O que êle mais gostava, punha flores na mesa, fazia broinhas de fubá todas as tardes ao café. Perguntava O que preferia para O jantar, talvez quisesse alguma receita das antigas? Respondia: "qualquer coisa qualquer coisa", conversava um pouco e caía naquela apatia com O olhar perdido no horizonte. Sugeri-lhe uma viagem ao Rio, passar uma temporada em casa de Julinho. Respondeu: talvez, com indiferença. Se tio Damião vinha com a rabeca e tocava para êle ouvir, não se interessava, ia para O quintal. Tio Damião guardava cuidadosamente O instrumento, suspirava, dizia numa voz que procurava consolar-me: - Êle ficará bom, excelentíssima, é questão de tempo. Depois tomará gosto pela vida novamente. Chegou O mês de junho e passou São João. São Pedro também passou com balões perdidos no céu. Fogueiras no quintal, fogos em forma de estrelas, todas as estrelinhas do céu. Alfredo e os sobrinhos debruçados para O chão, fabricaram balões. Que bom, êle gosta de balões, lembrou-se da infância. Querem mais papel de seda? Esperem que eu vou comprar. Ia à cidade, comprava, eu também fazia balões, auxiliava, preparava mechas, ria. Que bom, Alfredo lembrou-se da infância, do tempo em que era menino. Eu cortava papel, tinha idéias, perguntava se êle lembrava de um balão que tinha forma de sapo? Êle riu e perguntou se eu me lembrava de outro que tinha forma de jacaré. Rimos juntos, depois perguntei se não iríamos fazer outros? De outra côr? Os santos passaram. Êle voltou a lembrar da guerra porque gritava durante a noite, tinha pesadelos, esqueceu os balões que tinham forma de bichos, esqueceu a infância. Voltou a ser O homem torturado, O soldado que veio da guerra. Um dia falou vagamente em doce de cidra feito por tia Clotilde. Perguntei: - Lembra-se, meu filho? Sim, lembrava. Escrevi para Itapetininga: "Pelo amor de Deus, mandem doce de cidra feito por Clotilde." Nao era tempo, onde iriam encontrar cidra? 'Procurem até encontrar." Semanas depois, chegou um pacotinho de Itapetininga Alfredo riu-se quando viu O doce, acariciou meu ombro: "Esta D. Lola..." Comeu um pouquinho, nao quis mais. Por acaso não é O mesmo doce? perguntei. - O doce é O mesmo, eu é que mudei. A gente muda de paladar, não é mesmo? Como estava diferente. Só os olhos eram os mesmos. Os olhos de meu Alfredo. Felício um dia perguntou-lhe O que pretendia fazer, trabalhar em S Paulo? Alfredo respondeu vagamente, não resolvera ainda. Chamei Isabel para um lado essa noite, dissesse a Felício que não perguntasse, não perguntasse sobre O futuro de Alfredo Êle ainda estava doente, se O corpo estava sarando, a alma continuava enferma, muito enferma. Por favor, não perguntasse. Uma tarde, Alfredo lembrou-se dos pacotinhos de doces que vinham de Itapetininga todos os anos, queria saber se ainda vinham. Alvoroçada, respondi que sim, Clotilde mandava todos os dezembros, pelo Natal. Êle esperasse, iria ver. Escrevi essa noite para Clotilde, mandasse um pacotinho para cada um como no tempo de mamãe, O Natal estava próximo. "Serão muitos pacotes agora, não faz mal, mande assim mesmo, quero que Alfredo sinta O passado." Julinho visitou-o várias vezes. Da última, achou-o mais forte, a perna quase sã. Bateu-lhe no braço. - Então Alfredo, quer trabalhar para Fagundes Vaz e Cia. Limitada? Ninguém respondeu. - Você agora precisa trabalhar conosco. Já viajou muito, já conhece O mundo, creio que não vai voltar para a vida de antes. Que tal? Alfredo morando no Rio de Janeiro, eu tomando O trem e indo todos os anos para lá, no inverno. Vou visitá-lo Perguntariam: "Aquele que esteve na guerra?" "Sim senhora, aquele mesmo, agora reside no Rio, trabalha lá com meu outro filho. Vai muito bem." Daria uma risada. Felicidade. Eu ria só de pensar, só de pensar em visitá-lo todos os anos. No inverno. Respondeu que daria depois uma resposta; seu olhar atravessou as paredes do quarto e foi embora, não pude acompanhá-lo. Fiquei parada na porta, olhando. Depois per guntei, O coração enorme dentro do peito - Vai para O Rio, Alfredo? Trabalhar com Julinho? Êle havia tirado a mala velha de sob a cama, havia se ajoelhado, e examinava O fecho quebrado. Levantou a cabeça, disse: - Vou-me embora, mamãe. Sim, muito bem. Trabalhar para Fagundes Vaz e Cia. Limitada, quem não iria? Em voz alta, perguntei: - Vai trabalhar no Rio, meu filho? Com Julinho? Fagundes Vaz e Cia. Limitada é uma grande firma, você não acha? Não se voltou para me olhar, apenas sacudiu a cabeça. As nuvens que de manhã estavam muito brancas, eram agora escuras e passeavam pelo céu ameaçando chuva. Longe da terra e da humanidade. Longe do sofrimento. "O que foi minha vida em todos esses anos? Sacrifício e devotamente. É como viver sempre numa tarde assim de chuva pesada de tristezas. Mas não devo lamentar-me; se fosse preciso recomeçar novamente, novamente faria da minha vida a mesma que foi, de sacrifício e devotamente Devo sentir-me feliz porque cada filho seguiu O caminho escolhido." Ouço as vozes dos meus netos que brincam na sala, ouço a chuva que cai sobre a terra, sobre as folhas das árvores, sobre os telhados. Meu neto Carlos irrompeu pelo quarto: - Vovó, a senhora não disse que queria ouvir musica de Bach O rádio está tocando "Coros da Paixão". Muito bem. Não estou só, mas tenho a sensação de que tenho no peito um deserto. Escreverei um bilhetinho para Clotilde: "Não precisa mais você mandar os pacotinhos de doces para O Natal. Obrigada." E se ela perguntar: "Mas por quê? Alfredo vai embora outra vez? Tremo só , de pensar." Responderei num outro bilhete: Tornada. Se êle vai embora? Será que veio alguma vez? Este homem de alma tão velha quanto a humanidade será mesmo êle?" Foi quando Alfredo perguntou, colocando a mão sobre meu ombro curvado: Então, D Lola?...